Fala de ministro repercute: afinal, universidade é para todos?

Redação • 29 de janeiro de 2019

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    Uma edição de 2019 do jornal Valor Econômico trouxe uma rara entrevista concedida pelo ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez.

    A repercussão foi instantânea, gerando manifestações. É que, para Rodríguez, a ideia de universidade para todos não existe. “As universidades devem ficar reservadas a uma elite intelectual, que não é a mesma elite econômica.”

    O retorno financeiro, segundo ele, é maior para as pessoas e para o país quando os investimentos são direcionados à formação técnica.

    Caminho oposto

    A despeito da fala do ministro Rodríguez, o reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Marcelo Knobel, disse que a visão da instituição é “completamente diferente”.

    “Ampliamos nossas formas de acesso porque acreditamos que as universidades públicas devem procurar uma representação da sociedade dentro delas, além de dar oportunidade para quem não tem, simplesmente porque nasceu em determinado local ou com uma determinada cor da pele”, falou Knobel ao portal Cidade ON.

    "O Brasil tem avançado para ampliar o número de vagas no ensino superior. E o ideal é que as políticas de estado levassem a essa direção”, acrescentou o reitor.

    O Ex-ministro da Educação, o  professor Renato Janine Ribeiro segue a mesma linha. Ele compartilhou em sua página no Facebook uma reportagem do El País intitulada: “Quando os filhos dos mais pobres chegaram à universidade, a Espanha mudou”. “A melhor resposta ao ministro [Ricardo Vélez Rodríguez], que se opõe à inclusão social na universidade: ela melhora os países”, escreveu Ribeiro.

     

    Quem tem razão?

    A pergunta é do sociólogo Simon Schwartzman, membro titular da Academia Brasileira de Ciências e ex-presidente do IBGE. Em texto publicado em seu blog, Schwartzman apresentou um gráfico do Banco Mundial (configure-o abaixo ou veja aqui) mostrando que o único país com “universidade para todos” é a Coreia do Sul. Eles são seguidos pelos Estados Unidos, com cerca de 80% de acesso. E depois por países da Europa e da Ásia central (perto de 50%), chegando ao Brasil e à América Latina, próximo dos 40%.

    “Essas são taxas ‘brutas’, que comparam o total de matriculados com uma população de referência, dos cinco anos posteriores à educação média — ou seja, de 18 a 22 anos no caso brasileiro. No Brasil, quase 60% dos estudantes de nível superior têm 23 anos ou mais, e por isso a participação efetiva dos jovens é muito menor”, escreveu o sociólogo.

    O mais importante, no entanto, é que essas taxas se referem à “educação terciária”. Não diz respeito unicamente às universidades. Isso é indispensável entender, segundo Schwartzman.

    “Na Coréia, 32% dos estudantes de nível superior estão em cursos curtos de 2 a 3 anos. Nos Estados Unidos, 38%. Nos países europeus, com o chamado ‘modelo de Bologna’, a grande maioria dos estudantes se matricula em cursos de bacharelado de 3 anos, semelhantes aos ‘colleges’ ingleses, e depois continuam ou não estudando em cursos mais especializados.”

     

    Para Schwartzman, continuarão existindo universidades de pesquisa como a Unicamp, que continuarão sendo altamente seletivas mesmo com políticas de ação afirmativa como as que estão sendo adotadas. E existirão cada vez mais outras modalidades de educação terciária, profissionalizantes e inclusivas, como defende Ricardo Vélez Rodríguez.

    “A discussão não deve ser entre universidade para todos e universidades para as elites”, diz o sociólogo. “E, sim, em como superar um modelo antiquado de educação superior como o brasileiro que cresceu de forma caótica por não considerar a sério a necessidade e as implicações da diferenciação em uma era de educação superior de massas.”

    Por Redação

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