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Depois da proibição do uso de celulares nas escolas de educação básica, consolidada a partir de uma lei federal em vigor desde janeiro de 2025, o debate sobre a presença de dispositivos digitais em sala de aula avança para um território até então não regulado: a universidade.
Mesmo sem qualquer legislação que as obrigue a adotar medidas semelhantes, algumas instituições de ensino superior (IES) privadas passaram a restringir o uso de smartphones, tablets e laptops no início do ano letivo de 2026. A alegação é que os dispositivos vêm causando impactos negativos na qualidade das interações e no desempenho acadêmico.
Entre as instituições que decidiram estabelecer limites estão a Fundação Getulio Vargas (FGV), a Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e o Insper. Em todas elas, a adoção de diretrizes mais restritivas não foi apresentada como uma rejeição à tecnologia, mas como uma tentativa de organizar seu uso de forma intencional.
No caso da FGV, o cenário é de transição. A IES recomenda que o celular só seja utilizado quando houver vínculo direto com a atividade pedagógica proposta pelo professor. A direção sustenta que evidências acumuladas pela literatura educacional — e pela própria experiência acadêmica — indicam que o uso não orientado de dispositivos móveis compromete a concentração e empobrece as trocas em sala de aula.
A ESPM seguiu caminho semelhante, ainda que com nuances próprias. A instituição recomenda que os dispositivos permaneçam guardados durante as aulas, salvo quando explicitamente solicitados para fins pedagógicos, e reforça a orientação para que os aparelhos fiquem no modo silencioso.
Paralelamente, a IES incentiva o uso de cadernos e a prática de anotações manuscritas, argumentando que escrever à mão contribui para a consolidação do aprendizado e para o engajamento cognitivo dos estudantes. Além disso, reforça que a medida não deve ser interpretada como uma simples proibição, mas como parte de uma estratégia pedagógica alinhada a boas práticas observadas em ambientes de aprendizagem.
Outras universidades, como o Insper, sustentam que a medida também pode cumprir um papel formativo. “Ao restringir o uso não pedagógico do celular, estamos reforçando uma expectativa coerente com a formação que oferecemos: uma postura mais profissional em sala de aula, compatível com contextos de alta exigência intelectual e responsabilidade coletiva. Em síntese, a sala de aula é o primeiro ambiente profissional do estudante”, argumenta o presidente da IES, Gustavo Martins.
A adoção dessas restrições provocou reações distintas entre os estudantes. Para os recém-egressos do ensino médio, a adaptação tende a ser mais fácil, já que acabaram de sair de um ambiente escolar rigidamente regulado. Para os que associam a universidade a um espaço de maior liberdade individual, a medida reacendeu uma discussão antiga sobre a autonomia do aluno no ensino superior.
É justamente nesse aspecto que se baseiam os contrapontos mais contundentes. Na direção oposta às restrições adotadas por FGV, ESPM e Insper, instituições como a Link School of Business e a Faculdade Belavista vieram a público defender a permanência dos dispositivos eletrônicos em sala de aula.
O fundador da Link School of Business, Alvaro Schocair, afirma, em vídeo divulgado nas redes sociais, que a universidade não existe para prolongar a lógica do ensino médio, mas para antecipar a vida adulta. “Nosso papel é dar responsabilidade ao aluno e mostrar para ele o quão importante aquele tempo de dedicação e atenção dele naquele momento de sala de aula é importante”, argumenta.
Posicionamento semelhante foi adotado pela Faculdade Belavista, que oferece cursos de Direito e Economia e se destaca pelo modelo de turmas reduzidas e acompanhamento individualizado. Para a IES, a ampla restrição do uso de celulares reproduz uma lógica de tutela típica da educação básica e entra em choque com a missão formativa do ensino superior.
“Quando a universidade proíbe o celular, pode até reduzir um sintoma imediato, mas transfere o problema para o futuro. No mercado de trabalho não existe proibição, existe exigência de foco, responsabilidade, maturidade e autogestão”, argumenta Milena Seabra, diretora executiva da Bela Vista.
O contraste entre essas abordagens expõe um dilema atual do ensino superior: até que ponto cabe à universidade regular comportamentos para garantir condições adequadas de aprendizagem?
O fato de esse debate ganhar força um ano após a proibição na educação básica não é casual. Os resultados positivos observados em escolas que adotaram ambientes livres de telas passaram a influenciar gestores do ensino superior, mesmo na ausência de obrigação legal.
Esse movimento é alimentado por evidências recentes. A principal delas é uma pesquisa conduzida pela Frente Parlamentar Mista da Educação em parceria com o Equidade.info — iniciativa vinculada ao Lemann Center da Stanford Graduate School of Education —, segundo a qual mais de 80% dos estudantes relataram maior atenção em sala de aula após a restrição do uso de celulares.
Por outro lado, iniciativas em nível global como o Smile (Stanford Mobile Inquiry-based Learning Environment), realizada desde 2009, revelam que o uso pedagógico orientado de celulares produz efeitos positivos no processo de aprendizagem. No projeto da Stanford Graduate School of Education, dos Estados Unidos, o dispositivo deixa de ser um vetor de distração e passa a integrar metodologias ativas, com o professor atuando como mediador.
Mais do que uma disputa sobre o uso de dispositivos eletrônicos, o que está em jogo é a definição do papel da universidade em um contexto marcado pela hiperconectividade e pela disputa permanente pela atenção. Com o ano letivo está só no começo, este é um debate que promete ficar ainda mais “quente”, refletindo visões diferentes sobre autonomia e condições de aprendizagem no ensino superior.
Por Redação
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