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O ano era 2012 e pela terceira vez, o professor Ricardo Fragelli, da Universidade de Brasília (UnB), recebia a mesma aluna para a disciplina de cálculo.
“O histórico de notas dela ia de zero a três”, relembra o docente. “Ela tinha sérios problemas em casa, e no ambiente de prova sentia que as pessoas a estavam vigiando. Foi então que a psicóloga da universidade perguntou se eu poderia fazer alguma coisa a respeito.”
Fragelli, um desenvolvedor de diversos modelos de ensino e de aprendizagem colaborativos, decidiu customizar uma prova para a estudante. Ela realizou o exame fora da sala de aula, em um laboratório de pesquisas.
“Eu disse: ‘Você tem o tempo que quiser para fazer a prova. Se não se sentir confortável, dobre a folha e a leve pra casa. Encontraremos outro jeito de avaliar.’”
Não precisou.
A estudante fez a prova em uma hora e meia. E tirou nota 9. Portanto, dominava o conteúdo, constatou o professor. Mas realizar a avaliação em ambiente de pressão, vigilância e competição (entre alunos) era um sério problema, o principal embrião de sua repetência.
A reprovação é quase sempre frustrante — seja na sexta série, no ensino médio ou na faculdade. Além de atrasar a formação, a repetência pode desencadear sentimentos de inferioridade. O aluno começa a questionar o próprio potencial,
reduzindo ainda mais o desempenho e agravando os problemas extraclasse. Num desfecho trágico, opta pela evasão.
“Se o aluno não alcançou o desempenho esperado, não foi porque quis, mas porque não conseguiu. Dificilmente alguém quer falhar”, avalia
Maria Alice Carraturi, presidente da Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp) e ex-diretora de formação e desenvolvimento de profissionais na Secretaria de Educação Básica (SEB), órgão ligado ao Ministério da Educação (MEC).
A boa notícia é que, quanto mais conhecem os efeitos negativos da repetência,
menos os professores concordam com a prática. É o que mostra uma
pesquisa promovida pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).
Aqueles que são favoráveis à reprovação
acreditam que a meritocracia é um bom critério de distribuição do conhecimento. Esses professores são mais ligados às políticas de educação implantadas no país na década de 1990 ou acumulam menos experiência na docência.
O perfil de quem não concorda em reprovar é mais escolarizado. Segundo o Cenpec, ter feito mestrado ou doutorado e conhecer mais resultados de pesquisas sobre os efeitos sociais e emocionais da reprovação e os impactos sobre a trajetória do estudante colabora para o posicionamento.
Ana Valeria Reis é pesquisadora em metodologias ativas, aprendizagem ativa e resultados de aprendizagem. Para ela, o modelo avaliativo que aprova e reprova
ratifica a discriminação e endossa os critérios de seletividade em prol do aluno ideal.
“A pressão, o medo, o controle e o poder expressos nessas práticas retratam os mecanismos de uma sociedade que atua com princípios excludentes, antidemocráticos e desiguais”, avalia Reis, que também é professora da faculdade
Eniac, em Guarulhos (SP).
A educadora defende uma avaliação que, além de dados teóricos, quantitativos e classificatórios, contemple os múltiplos fatores que contribuem aos processos de aprendizagem.
Nessa lógica,
o bem-estar do estudante deve ficar atrelado ao ambiente em que aprende, à atenção que recebe do professor, à interação que se promove entre os colegas e ao poder que se atribui às qualidades, fraquezas e habilidades.
Para a estudante de Letras da Universidade Federal do Pará (UFPA), Paola Sarmento, a reprovação nem chega a ser o maior dos problemas. O pior, mesmo, é
a falta de incentivo e a sensação de abandono por parte da instituição.
Quando estava no segundo período, Sarmento fez fonologia e fonética do inglês — para ela, a disciplina mais difícil do curso até então. Apesar de não exigir conhecimento prévio do idioma,
a matéria não tinha preparação técnica para acolher e instruir os alunos com pouco conhecimento, segundo a estudante.
Ela explica: “A professora era impaciente e não gostava da turma porque tinha mais alunos do que a sala comportava.” Em muitas aulas, a solução era dividir um computador, que deveria ser de uso individual, entre três ou quatro pessoas.
Muitos dos colegas de Sarmento eram fluentes na língua inglesa — e isso se mostrou um problema. “Eu estava no nível intermediário e havia [na sala] quem não soubesse nada”, ela diz. “Os que dominavam a língua achavam graça de nós e faziam piada. Ficávamos acanhados.”
O mal-estar em sala de aula levou Sarmento à reprovação na segunda prova da disciplina.
Foi quando a estudante se sentiu desestimulada a continuar.
“Ao me sair péssima [na prova], desisti da disciplina antes de termina-la – e não fui a única. No fim, os aprovados foram os que eram fluentes na língua”, conta Sarmento, que cursou a disciplina posteriormente com outro professor. E foi aprovada.
É necessário que o professor reconheça seu papel no contexto da reprovação, diz Carraturi, da Univesp. “Ele é quem decide se o aluno prossegue ou não os estudos. É uma avaliação delicada, pois tanto uma quanto a outra decisão pode acarretar prejuízos para o aluno.”
Se por um lado
a reprovação pode desencadear sentimentos de inferioridade, agravar desafios extraclasse e resultar em evasão, por outro,
a aprovação de um aluno com baixo desempenho também pode afetar sua competitividade.
“Há cada vez mais profissionais aceitando tarefas e ocupações inferiores porque obtiveram o diploma por obter, sem desenvolver as competências que o mercado exige”, explica Carraturi. Sem contar que, por ser fácil demais passar, os jovens podem não se comprometer efetivamente com as aulas.
Reprovar pode não ser a solução. E aprovar quem não aprendeu pode ser pior ainda.
Doutora em Educação pela PUC-Rio,
Andrea Ramal diz que fazer os estudantes repetirem o ano, o semestre ou o módulo para ver
os mesmos conteúdos, com a mesma metodologia e os mesmos professores, é uma atitude ultrapassada. Para ela, a prática, além de antiquada, é cômoda, cara e ineficiente.
Em um
texto publicado em seu blog, Ramal conta que na Finlândia os professores são orientados a dedicar mais tempo aos estudantes com dificuldades. Assim, a taxa de reprovação é de 2%. Em Hong Kong, quando um professor tem mais de 3% dos alunos com baixo desempenho, uma comissão avalia o trabalho do docente.
“Já o Brasil é um dos países que mais reprovam”, escreveu ela. “São quase 3 bilhões de dólares/ano gastos além do necessário, só nos anos finais da escolaridade.”
“O pior”, continua, “é que, como mostram as pesquisas qualitativas e quantitativas, há grande relação entre repetência e evasão” — este é um dos
principais desafios do país. Não só por prejudicar a qualificação dos brasileiros, mas também
por ferir, no setor privado, a saúde financeira das instituições.
Nos Estados Unidos, os dilemas da repetência também existem. Recentemente, um professor universitário
escreveu anonimamente ao jornal The New York Times, queixando-se do problema.
“Como muitas escolas em busca de dinheiro, minha universidade aumentou substancialmente o número de matrículas. Para isso, tem admitido mais e mais alunos que não estão academicamente preparados para a faculdade. Meus colegas acabam reprovando uma proporção extremamente grande deles. Outros professores, para evitar isso, simplesmente permitem que todos passem”.
Segundo o professor, que ministra aulas em uma universidade estadual (nos Estados Unidos, a maioria das universidades públicas é estadual e paga),
o governo reage dizendo que o corpo docente deve dar mais auxílio aos alunos enfraquecidos.
“Isso não é possível, dado o alto número de alunos despreparados”, rebate o professor. “E a maioria dos alunos não está suficientemente motivada ou não tem tempo para comparecer ao horário de expediente. O que é uma estratégia ética para um membro do corpo docente nesta situação? Eu costumava amar ensinar. Agora, simplesmente não sei o que fazer.”
Nos Estados Unidos ou no Brasil, eis uma questão que merece ser reavaliada.
Por Fernanda La Cruz
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