CIAED 2026 destaca impacto da IA e descompasso entre formação e demandas do mercado de trabalho

Redação • 30 de abril de 2026

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    Com tantas mudanças ocorrendo no ensino — em particular no Brasil, que vive um período de implementação do novo marco regulatório da educação a distância (EaD) — o tema do 31º Congresso Internacional ABED de Educação a Distância (CIAED) não poderia ser outro: “Educação Digital, Híbrida e a Distância em Transformação”. O evento, organizado pela Associação Brasileira de Educação a Distância, reuniu educadores, gestores e estudantes de todo o mundo em João Pessoa (PB) de 27 a 30 de abril.


    Em meio à vasta programação de debates, mesas-redondas e trabalhos científicos, as plenárias internacionais abordaram temas como inteligência artificial (IA), formação de professores e os desafios da educação digital na América Latina. Na programação paralela, o destaque foi para a Expo-EaD, feira de produtos e serviços que registra participação crescente de expositores a cada ano.


    Como já é tradição, a Plataforma A esteve no CIAED, marcando presença em diversas atividades. A seguir, você confere um resumo dessa participação.


    Universidade x mercado: em podcast, especialistas discutem falhas da formação acadêmica


    A coordenadora de Negócios da Plataforma A, Raphaela Novaes, conduziu um episódio do podcast A Voz do Conhecimento, que contou com a participação do reitor da Universidade de Vassouras (Univassouras), Marco Antonio Soares de Souza, e da coordenadora de cursos semipresenciais e EaD da Universidade Iguaçu (UNIG), Claudia Antunes Ruas Guimarães. O tema do bate-papo foi “Ensino superior e a conexão com mercado de trabalho: a importância da prática integrada à teoria”.


    Novaes abriu a conversa com dados de uma pesquisa da consultoria Educa Insights: enquanto quase 70% dos estudantes egressos acreditam estar prontos para o mercado, apenas 39% das empresas compartilham dessa visão. O descompasso entre a academia e o setor produtivo acabou sendo o fio condutor do debate.


    Para o reitor da Univassouras, esse é apenas um dos indícios de que as IES estão atrasadas na adoção de novas tecnologias. "Hoje, o saber está na rede, na inteligência artificial, e o mercado chega nesse movimento antes da academia. Eu não tenho que ensinar o aluno o que ele vai fazer no mercado, tenho que ensiná-lo a formular as perguntas certas”, afirmou.


    Para Claudia Ruas, o problema atravessa quatro frentes: currículo, metodologia, cultura institucional e tecnologia. Segundo ela, o currículo precisa ser flexível para não nascer obsoleto — o que passa, fundamentalmente, por uma mudança cultural.


    “As organizações ainda são muito tradicionais, então a cultura institucional pesa bastante na possibilidade de transformação do currículo, das metodologias e do uso de tecnologias adequadas”, destacou a coordenadora da UNIG. “Se a cultura da instituição não estiver alinhada às demandas do mercado, ficará cada vez mais difícil para ela atuar.”


    Um dos pontos de maior convergência entre os debatedores foi a necessidade de rever a atuação docente. Em um mundo onde o conteúdo é commodity, o professor precisa ajudar o aluno a discernir e aplicar informações.


    Marco Antonio Soares foi enfático ao descrever essa transição: "Nesse novo cenário, o professor não é mais o detentor do saber. É preciso que comece a repensar seu papel no processo, para ser uma espécie de curador de conhecimento.”


    Projetos reais e impacto social


    As instituições representadas no debate buscam combater esse gap integrando teoria e prática desde o primeiro período. Na UNIG, isso se traduz em projetos integradores que geram produtos reais para a comunidade; na Univassouras, a prática em cenários reais, como um hospital próprio, é o DNA da formação.


    Nesse sentido, a professora Claudia Ruas reforçou a importância da experimentação, viabilizada por práticas virtualizadas, como simuladores e realidade aumentada. “O aluno pode errar, voltar, fazer de novo... Dessa forma, você permite que ele tenha autonomia na condução do processo antes de ir para o campo prático efetivo”, avaliou a educadora.


    Ao final do debate, prevaleceu a ideia de que o maior risco não está na transformação em si, mas na paralisia diante dela. A universidade deve assumir a liderança no desenvolvimento do pensamento crítico, ou corre o risco de se tornar irrelevante.


    “Não tenham medo da mudança. Tenham medo de não mudar, de não inovar, de não entender esse novo aluno que está na sala de aula e esse novo mercado que está se construindo. Se a universidade não assumir esse papel de protagonismo nesse processo, ninguém mais irá”, concluiu Soares.

    

    Você pode assistir ao episódio completo do podcast no vídeo abaixo.

    Avaliação em tempos de IA e os desafios da elaboração de questões


    Produzir boas questões discursivas — especialmente no padrão do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) — está longe de ser uma tarefa simples. O tema foi um dos pontos centrais da oficina “Avaliação em tempos de IA”, apresentada pela coordenadora de Qualidade de Conteúdo Digital da Plataforma A, Ana Paula Gorri, e pelas designers educacionais Camila Fonseca e Paula Teles de Menezes[1] .


    Elaborar esse tipo de questão exige domínio de conteúdo, clareza na escrita e critérios muito bem definidos. O problema é que muitos itens acabam sendo genéricos ou mal formulados, comprometendo o processo avaliativo.


    Ferramentas baseadas em inteligência artificial permitem gerar rapidamente versões iniciais de questões discursivas, com estrutura organizada e até sugestões de resposta e critérios de correção. Isso ajuda a ganhar tempo e dar mais consistência ao processo. Mas há um limite evidente: sem orientação clara, a IA tende a reproduzir falhas já conhecidas, como superficialidade e falta de foco.


    O papel dos prompts


    O que faz diferença não é a ferramenta, mas o comando dado a ela — o chamado prompt. Quando o professor define com precisão o que quer avaliar, o contexto da questão e os critérios de qualidade, a IA tende a produzir resultados mais úteis.


    O modelo que começa a se consolidar é uma combinação entre geração automatizada e revisão humana. A IA apoia a construção inicial, mas a validação continua sendo responsabilidade do docente.

    No fim das contas, a tecnologia expõe um déficit antigo: a falta de formação específica para elaborar avaliações de qualidade. Além disso, as instituições precisam organizar seus processos avaliativos e definir melhor o que esperam dos estudantes.


    A oficina funcionou trouxe várias dicas — desde um passo a passo para a construção de diversos tipos de prompts até orientações sobre o uso correto da IA na educação, com inclusão e equidade.


    Trilhas de aprendizagem: da curadoria de conteúdo à construção de experiências

    

    “Como montar trilhas de aprendizagem engajadoras?”


    Esse foi o tema de um minicurso conduzido por Raphaela Novaes e Laysla Carvalho, analista de Produto da Plataforma A. A proposta partiu de um deslocamento importante: sair da lógica de organização de conteúdo e avançar para a construção de experiências de aprendizagem mais estruturadas e envolventes para o estudante.


    Muitas IES ainda organizam seus cursos como sequências lineares de materiais. Isso reduz o papel do estudante ao de um mero consumidor de conteúdo, com pouca clareza sobre o percurso e seus objetivos.

    O conceito de trilha, por outro lado, pressupõe intencionalidade pedagógica e coloca o aluno no centro do processo. A curadoria deixa de ser apenas seleção de materiais e passa a envolver critérios como clareza, progressão entre etapas e conexão com situações reais.


    Engajamento como estratégia


    O discurso sobre engajamento costuma induzir a erros comuns, como a ideia de que a simples inserção de elementos interativos garante melhores resultados. No minicurso, a discussão foi além das ferramentas e se concentrou no desenho da experiência de aprendizagem.


    “O aluno não lembra só do conteúdo. Ele lembra de se sentir perdido, motivado, desafiado, acompanhado ou entediado”, ressaltaram as educadoras.


    Nesse modelo, o conteúdo deixa de ser o ponto de partida e passa a ser um componente dentro de uma jornada maior, organizada em três momentos: preparação do estudante, desenvolvimento com progressão e consolidação do aprendizado.


    Na prática, implementar trilhas de aprendizagem ainda esbarra em dificuldades estruturais das IES, como currículos rígidos e pouca formação docente em design educacional. Sem enfrentar esses desafios, a tendência é de que o conceito de trilha seja absorvido apenas como discurso, sem uma mudança efetiva.

    Ao final do minicurso, os participantes foram convidados a construir o esboço de uma trilha de aprendizagem, aplicando os princípios discutidos ao longo da atividade.


    Continue acompanhando o portal Desafios da Educação. Em breve, traremos a segunda parte da nossa cobertura do CIAED 2026.

    Por Redação

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