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A quantidade de índices e métricas utilizados para avaliar a educação básica pode confundir até mesmo quem acompanha o setor de perto. Apesar da confusão entre siglas, cada instrumento tem objetivos, metodologias e recortes específicos, produzindo leituras distintas sobre a aprendizagem dos estudantes e o funcionamento dos sistemas de ensino.
Neste post, o portal Desafios da Educação mostra quais são as diferenças entre o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), e como os resultados desses indicadores podem ser utilizados pelo sistema educacional.
Como indica o próprio nome, o Saeb é um sistema de avaliação. Ele mede o desempenho dos estudantes por meio de provas padronizadas e produz informações sobre a aprendizagem em diferentes etapas da educação básica. Historicamente, seus principais componentes avaliam habilidades em Língua Portuguesa, com foco em leitura, e em Matemática, com foco na resolução de problemas.
Por meio de testes e questionários, aplicados a cada dois anos na rede pública e em uma amostra da rede privada, o Saeb permite ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) realizar um diagnóstico da educação básica brasileira e de fatores que podem interferir no desempenho do estudante.
Dessa forma, reflete os níveis de aprendizagem demonstrados pelos alunos avaliados, explicando esses resultados a partir de uma série de informações contextuais. A avaliação oferece subsídios para a elaboração, o monitoramento e o aprimoramento de políticas educacionais com base em evidências.
Já o Ideb não é uma prova. Trata-se de um indicador criado em 2007, com escala de 0 a 10, que combina dois componentes:
Fazer essa diferenciação é importante porque uma escola ou rede pode apresentar altas taxas de aprovação, mas ainda enfrentar dificuldades de aprendizagem. Da mesma forma, melhorar o desempenho dos estudantes sem garantir a progressão adequada também não representa, isoladamente, uma evolução consistente.
O último Saeb ocorreu em outubro de 2025. Os resultados das avaliações e as respectivas notas do Ideb foram divulgadas nesta quarta-feira, 5 de agosto.
Enquanto Saeb e Ideb analisam a educação brasileira a partir de parâmetros “caseiros”, o Pisa amplia o olhar, oferecendo uma perspectiva internacional.
Coordenado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) — e aplicado no Brasil pelo Inep —, o programa avalia, a cada três anos, estudantes na faixa etária de 15 anos em dezenas de países. O objetivo não é verificar apenas o domínio de conteúdos curriculares, mas também a capacidade dos jovens de aplicar conhecimentos e habilidades para resolver problemas em situações do cotidiano.
Leitura, Matemática e Ciências estão presentes em todas as edições, mas, a cada ciclo, uma dessas áreas recebe maior aprofundamento. Em 2025, Ciências foi a principal área avaliada, e a prova também analisou, pela primeira vez, a aprendizagem em ambientes digitais. Os resultados serão apresentados no dia 8 de setembro.
Os resultados do Pisa permitem que cada país avalie os conhecimentos e as habilidades de seus estudantes em comparação com os de outras nações, aprenda com as políticas e práticas aplicadas nesses lugares e formule suas políticas e programas educacionais visando à melhora da qualidade e da equidade dos resultados de aprendizagem.

A diferença entre os objetivos de cada indicador é um dos principais pontos de atenção para interpretar seus resultados. Segundo José Francisco Soares, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ex-presidente do Inep e especialista em avaliação educacional, o erro mais comum é tratar Saeb e Pisa como medidas equivalentes de um mesmo fenômeno, quando eles diferem na matriz de referência, no formato dos itens e na atualidade do que avaliam.
Soares lembra que desde que foi criado, em 1995, o Saeb preserva as mesmas expectativas de aprendizagem e o mesmo formato de teste. “Trinta anos depois, essas escolhas já não se sustentam: tivemos no Brasil a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) e, no plano internacional, mudanças que passaram a valorizar a capacidade de o estudante expressar seu raciocínio, não apenas escolher uma alternativa”, explica.
Já o Pisa existe desde 2000 e usa questões estruturalmente diferentes, como aponta o professor. “É de se esperar, portanto, resultados diferentes, como já ocorreu antes: estados e municípios com desempenho destacado no Saeb frequentemente têm desempenho discreto no Pisa. Isso não é uma contradição; é o resultado esperado de se comparar instrumentos que medem coisas distintas.”
Se os indicadores não devem ser interpretados como uma medida única da qualidade educacional, podem, quando analisados de forma adequada, oferecer dados valiosos para orientar decisões dentro das instituições de ensino.
“Esses indicadores ajudam a escola a entender onde estão os principais desafios de aprendizagem. A partir deles, é possível rever metodologias, conteúdos, avaliações e estratégias de recuperação, além de planejar melhor a formação dos professores”, afirma a presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), Amábile Pacios.
Para Soares, é fundamental compreender a natureza das avaliações é essencial: Saeb e Pisa servem para verificar resultados de aprendizagem acumulados, mas não foram criados para orientar o dia a dia em sala de aula.
“Estudar os itens do Saeb ajuda gestores e professores a enxergar as limitações do que hoje é ensinado e avaliado na rede. Estudar itens como os do Pisa mostra um caminho ainda pouco explorado pedagogicamente: o de propor situações-problema que exigem raciocínio e argumentação, não apenas reconhecimento de uma alternativa correta”, argumenta.
Embora sejam frequentemente associados a políticas públicas, os dados produzidos por Saeb, Ideb e Pisa também ajudam a apoiar decisões de diferentes organizações do setor educacional.
Para mantenedoras e redes de ensino, os resultados permitem detectar padrões de desempenho e redefinir prioridades estratégicas. Uma rede que identifica dificuldades recorrentes em determinada habilidade pode, por exemplo, concentrar esforços em formação docente, materiais pedagógicos ou acompanhamento mais próximo das escolas.
As edtechs também encontram nesses subsídios uma fonte para o desenvolvimento de soluções educacionais. Ao perceber lacunas recorrentes de aprendizagem, elas podem criar recursos digitais e trilhas formativas mais alinhadas às necessidades das instituições de ensino.
Outro uso relevante é a análise de mercados. Regiões que apresentam indicadores abaixo das médias nacionais podem indicar uma maior demanda por tecnologias educacionais e consultorias pedagógicas.
Conforme Pacios, os resultados podem orientar decisões de gestão, como investimentos em formação, reforço de determinadas áreas, programas de leitura, acompanhamento da frequência e aproximação com as famílias. “O mais importante é que os dados saiam dos relatórios e se transformem em ações concretas, com acompanhamento ao longo do tempo”, observa.
Ideb, Saeb e Pisa oferecem evidências para compreender os desafios da educação e orientar decisões. O uso qualificado desses dados depende, no entanto, de uma leitura que vá além do óbvio.
Nesse sentido, os especialistas fazem um alerta: apesar da relevância dos indicadores, nem sempre eles refletem fielmente a realidade de uma instituição. “O principal cuidado é não reduzir a qualidade da educação a uma nota ou a um ranking. Os indicadores são importantes, mas não mostram tudo o que acontece dentro de uma escola”, diz Amábile Pacios.
Para a presidente da Fenep, é preciso considerar o contexto institucional, a realidade dos estudantes e outros aspectos da formação, como criatividade, pensamento crítico, convivência e cidadania. “O dado deve servir para orientar melhorias, e não apenas para comparação ou divulgação de desempenho.”
José Francisco Soares acrescenta que a análise da qualidade educacional deve ser vista à luz das finalidades previstas no artigo 205 da Constituição: o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
“Para que essas finalidades se cumpram, é preciso que o estudante tenha acesso à escola e nela permaneça, o que no jargão educacional se chama trajetória escolar regular. Essa informação deveria ser acompanhada junto com as medidas de aprendizado, e não tratada como um dado à parte”, acredita.
O professor entende que o monitoramento precisa dar mais atenção ao desempenho dos diferentes grupos sociais que compõem a sociedade brasileira, o que hoje não é contemplado pelo Saeb. “Tratar essas desigualdades como parte central do diagnóstico, e não como um recorte secundário, seria um grande avanço”, ressalta Soares.
Por fim, o ex-presidente do Inep considera que rankings e metas são úteis para a gestão, mas são apenas a ponta do processo. “Sem a leitura formativa dos resultados, ou seja, sem que a rede se pergunte o que cada item revela sobre o ensino e o que fazer a partir disso, eles se tornam números soltos, incapazes de orientar qualquer mudança real na sala de aula.”
Por Redação
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