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No ensino superior, empreendedorismo tem mais teoria do que prática

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Em meados de 2011, quando estruturava o currículo do novo curso de jornalismo do Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter), em Porto Alegre, Laura Glüer criou uma disciplina de empreendedorismo.

Então coordenadora da faculdade, ela sentia a necessidade de responder a uma demanda do mercado. “Era uma disciplina com conteúdo teórico e prático sobre os processos que envolvem o empreender”, relembra. Para ministrar as aulas, ela escolheu um professor com experiência em inovação e design thinking.

A ideia não sofreu resistência dos gestores – foi vista como inovação. Mas os alunos viam a proposta com ceticismo. O autêntico jornalista, afinal de contas, é aquela pessoa com bloquinho em mãos, farejando notícias e veiculando-as na TV, no rádio, na internet ou nas páginas de jornais e revistas. O mindset dos alunos passava longe do profissional familiarizado com planilhas de Excel, conhecimentos em gestão de pessoas ou habituado a termos como fluxo de caixa e capital de giro.

Mas a revolução digital já vinha transformando o mercado da comunicação. Com uma crise iminente – desde 2012, milhares de jornalistas foram demitidos dos grandes veículos brasileiros –, Glüer queria que os futuros profissionais enxergassem possibilidades além da carreira que haviam almejado. Uma mudança de cultura que não foi fácil.

“Apegados aos estereótipos da profissão, os alunos só se davam conta da importância do empreendedorismo mais ao fim do curso, ou quando já chegavam ao mercado”, afirma Glüer, que hoje leciona a disciplina no Sistema de Ensino Gaúcho.

Teoria demais, prática de menos

Criar disciplinas de empreendedorismo tem sido a tônica de outros cursos de jornalismo Brasil afora. E também nas faculdades de odontologia. E de engenharia, de recursos humanos e de pedagogia. Na verdade, a preparação ao mercado tornou-se um objetivo – e uma tendência – em todo o ensino superior. Até porque uma parcela crescente dos estudantes opta por empreender. Em 2017, a participação dos jovens de 18 a 34 anos em negócios em fase inicial subiu para 57%, ante os 50% do ano anterior, de acordo com o Sebrae.

“Se formamos alunos que podem ser profissionais liberais, então eles têm que entender de empreendedorismo”, defende Sandra Costa, vice-reitora da Universidade do Vale do Paraíba, no interior de São Paulo. “Do contrário, formaremos profissionais deslocados das tendências do mercado.”

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O Brasil conta com ilhas de excelência nesse sentido. Elas estão listadas no Ranking Nacional de Universidades Empreendedoras, organizado pela Confederação Brasileira de Empresas Juniores. O estudo aponta que a Universidade de São Paulo (USP) é a instituição de ensino superior (IES) que mais fomenta o desenvolvimento do empreendedorismo entre os estudantes.

O ranking lista 55 IES, uma parcela ínfima perto das 2.407 em atividade no país. Mas acaba por corroborar a impressão de que, no Brasil, a cultura do ensino empreendedor deixa a desejar. A percepção, segundo especialistas ouvidos pelo Desafios da Educação, é de que há motivação e inspiração de sobra. Mas a vontade esbarra na falta de professores com experiência e na ausência de disciplinas práticas, que envolvam estudos de caso e instruções financeiras e jurídicas.

Isso explica, em parte, a falta de ambição dos alunos. O estudo Empreendedorismo nas Universidades Brasileiras, realizado pela Endeavor e pelo Sebrae em 2016, mostra que apenas 28,4% dos estudantes universitários cursaram uma disciplina diretamente relacionada a empreendedorismo. Entre aqueles que não cursaram, um terço não o fez porque o curso não oferece a disciplina ou porque sequer sabe se ela está disponível.

Ainda conforme o estudo, apenas 50% dos cursos de engenharia e ciências sociais aplicadas (administração e outras) contam com disciplinas de empreendedorismo. Em outras áreas de conhecimento, a oferta é ainda menor – só 30% das graduações em ciências agrárias, da saúde, biológicas e humanas as têm.

É importante frisar que a formação de uma competência empreendedora vai além da grade curricular. Ela exige um ecossistema onde, além da sala de aula, a inovação seja fomentada em centros de empreendedorismo, rodadas com investidores, contatos e parcerias com empresas, incubadoras e aceleradoras de startups.

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Benchmarks mundiais

O estudo da Endevor e do Sebrae reforça que falta infraestrutura e conteúdo para que as universidades brasileiras capacitem alunos dispostos a criar negócios próprios. Sobre isso, o documento traz bons exemplos internacionais.

A Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, criou um guia estratégico em 2016, colocando o empreendedorismo como um dos temas da agenda da instituição. Para isso, a IES comprometeu-se em aumentar sua rede de parcerias e fortalecer conexões que apoiem de maneira concreta a atividade empreendedora dos alunos.

Outra iniciativa interessante é a da Universidade de Houston, também nos EUA, que criou programas de mentoria personalizados. Funciona assim: se o aluno tem bom conhecimento na área de finanças, ele é chamado para a mentoria em marketing digital a fim de ampliar e diversificar sua visão como gestor. Dessa forma, os universitários se tornam profissionais mais completos – mesmo que não queiram abrir um negócio. Entre os que têm vontade de empreender, 60% afirmam que o desejo surgiu depois da mentoria.

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Mas o maior case americano é o do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT. Lá, pelo menos 80 cursos são dedicados à promoção do empreendedorismo e da inovação. A educação empreendedora não ocorre só em uma ou duas disciplinas; ela é feita ao longo de todo curso.

“Se um aluno pergunta a você sobre financiamento, você não pode dizer que essa é uma matéria que só será ensinada dali a seis meses, porque muitas vezes ele está criando uma empresa e não tem tempo de esperar”, explicou Bill Aulet, diretor de empreendedorismo do MIT, em um congresso em Medellín, na Colômbia.

A pedagogia da universidade procura atender os mais diferentes perfis de seus clientes (alunos). Isso inclui gente que só está interessada em empreendedorismo, herdeiros de negócios familiares, intraempreendedores (empregados com comportamento empreendedor), alunos querem abrir uma startup, entre outros.

Resultado: em 2014, o MIT contabilizava 30 mil empresas ativas fundadas por ex-alunos ao longo das últimas décadas. Elas empregavam, juntas, 4,6 milhões de pessoas.

Cultura empreendedora

“Quando a gente pensa em empreendedorismo na IES, é mais do que sobre abrir um negócio ou não. É pensar como as relações de trabalho vão mudar, sendo cada vez mais por trabalhos e projetos do que por empregos fixos em uma empresa”, diz Rodrigo Capelato, diretor-executivo do Semesp.

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Segundo ele, a partir desse novo paradigma, o aluno vai ter que lidar com a carreira quase como se fosse uma empresa. “Ele terá que saber como se vender, como gerenciar as empresas que estão lhe contratando, ver toda a parte de fluxo de pagamento. O estudante vai ser a empresa de si mesmo.”

O detalhe é que essa dimensão ainda não parece palpável a muitos estudantes. Afinal, só três em cada dez universitários brasileiros sonha em empreender. “A maioria quer emprego estável, plano de saúde, passar num concurso público, entrar às 8h e sair às 17h”, diz Erwin Mádisson Jr., vice-reitor do Centro Universitário de Itajubá (Fepi), de Minas Gerais.

Se as IES brasileiras atuassem de maneira mais firme em relação ao empreendedorismo, talvez essa expectativa de carreira fosse diferente.

Confira a série Educação e trabalho

Foto em destaque: Alunos da disciplina de empreendedorismo na USP, IES mais empreendedora do país. Crédito: Marcos Santos/USP Imagens.
Leonardo Pujol
Leonardo Pujol é editor do Desafios da Educação e sócio-diretor da República – Agência de Conteúdo.

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