Por que se fala tanto em competências para a educação?

Aprendizagem por competências combina habilidades cognitivas, sociais, práticas e emocionais para o pleno desenvolvimento do estudante (Foto: Visual Hunt)

Ensino fracionado em disciplinas e avaliações semestrais: eis a síntese da aprendizagem atual – ou, ao menos, como ela é amplamente conhecida. Trata-se de um método tradicional, que separa os conteúdos em blocos e avalia o desempenho do aluno de tempos em tempos. O modelo funciona, é verdade. Afinal, foram as melhores instituições de ensino que o consolidaram. O problema é que o mundo mudou, e as imposições e desafios atuais exigem novos paradigmas à educação.

A crítica que se faz ao ensino vigente é que ele isola as áreas do conhecimento. “O mundo evoluiu e os modelos educacionais não. O professor como o detentor do conhecimento, fazendo a transmissão de conteúdo nas aulas expositivas, não estimula o desenvolvimento das potencialidades do aluno”, avalia Gisele Pinheiro, diretora do Colégio Ampliação de Curitiba (PR), em entrevista ao jornal Gazeta do Povo.

O resultado é um aprendizado diluído em silos. O mercado se tornou tão competitivo de modo que o diploma, muitas vezes, já não é mais um diferencial. De mesma forma, dominar um segundo idioma deixou de ser pré-requisito. Deve-se ir além.

Nesse sentido, os profissionais precisam oferecer mais que conteúdo técnico, abrindo espaço para uma visão mais holística do conhecimento. Daí os motivos para que o modelo de ensino por competências chame cada vez mais atenção. Também conhecida como aprendizagem por competências, a metodologia ganha espaço porque se opõe ao tradicional ensino por disciplinas, conectando todas as áreas do saber.

Como diferencial, ela arbitra em favor do foco: em vez de enfatizar a teoria, a metodologia combina conhecimentos, motivações, valores, recursos, atitudes e habilidades para realizar ações mais eficazes. Além de pregar o fim da dicotomia entre conceito e prática, a principal vantagem do método é o encerramento das disciplinas desconexas.

Assim, os estudantes passam a ter aulas em módulos integrados a fim de estimular novas capacidades. Alguns estudos nacionais e outros internacionais têm definições distintas e ainda não é possível cravar um consenso sobre quais são exatamente as competências em questão. Mas algumas características se repetem com frequência. Confira:

  • Habilidades práticas: proatividade, comunicação e resolução de problemas.
  • Habilidades cognitivas: curiosidade, autonomia, reflexão e crítica.
  • Habilidades técnicas: capacidade para lidar com ciência, tecnologia, engenharia e matemática – as chamadas competências STEM, na sigla em inglês para Science, Technology, Engineer e Math.
  • Habilidades sociais: interação, cooperação e valorização.
  • Habilidades emocionais: capacidade de persistência e disciplina, entre outras.

Ao conjunto dos dois últimos tipos, dá-se o nome de habilidades socioemocionais, pois combinam aspectos da vida social e emocional.

Na prática

As competências servem para aprimorar o desempenho profissional, mas não somente isso. O estímulo às habilidades socioemocionais favorece um aprendizado útil para a vida e auxilia qualquer um a lidar com seus próprios desafios. Nos próximos anos, as competências deverão ser palavra de ordem.

No modelo por competências, parte-se de uma matriz curricular flexível. Nela, os professores trabalham as características que o mercado demanda para cada área específica do curso em questão. Se antes um aluno de Administração aprendia sobre fundamentos de gestão e de contabilidade, noções de orçamento, marketing e empreendedorismo em matérias desagregadas, agora ele cursa um único módulo onde se ensina como comandar uma empresa.

Assim, a aprendizagem por competências tende a ser guiada para estimular o indivíduo a lidar melhor com sua equipe, a gerenciar pequenas crises e a ter criatividade para não sucumbir frente à concorrência.

De onde veio

Embora a expressão seja recente, a utilização do ensino por competências não chega a ser novidade. O conceito foi cunhado em 1948, pelo psicólogo e professor da Universidade de Harvard, Robert White.

Em 1970, pesquisadores em educação já falavam de uma metodologia em que o saber fazer (a técnica) deveria ser atrelado a um conjunto de conhecimentos (as habilidades). No entanto, a utilização e o estudo das competências como metodologia ganham força a partir da década de 1990 e da virada dos anos 2000 – principalmente nos Estados Unidos e em países da Europa que despontam na vanguarda da educação, como a Finlândia.

A Southern New Hampshire University é uma das IES de referência quando o assunto é competências. A instituição sediada em Manchester, nos Estados Unidos, foi uma das primeiras a receber financiamento público para criar um sistema de avaliações como base no desenvolvimento discente – suplantando o tradicional acúmulo de créditos. Na sequência, diversas escolas e IES ao redor do mundo começaram a utilizar o modelo de competências socioemocionais.

No Brasil, a primeira aparição prática das competências surgiu em 1996, com a publicação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). A determinação atribuiu ao governo federal a criação de competências e diretrizes para o ensino. Nos anos seguintes, outras resoluções federais foram criadas para mobilizar o estabelecimento de competências. Desde 2013 o Exame Nacional de Nível Médio (Enem) utiliza critérios que consideram as competências na resolução de suas questões. Assim, o sistema de avaliação não considera apenas o conhecimento teórico, mas a capacidade de interpretar e tentar solucionar problemas.

Atualmente, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) orienta a utilização do ensino por competências para o desenvolvimento educacional integral. A estratégia visa promover uma experiência escolar mais humanizada e acessível a todos.

Autoformação

Uma clara diretriz a respeito do que é e para que serve o aprendizado por competências aparece no Relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI. O texto indica a necessidade de uma educação em que a aprendizagem seja embasada em habilidades que tornem o indivíduo “apto para enfrentar numerosas situações, algumas das quais são imprevisíveis, além de facilitar o trabalho em equipe, que é uma dimensão negligenciada pelos métodos de ensino” (confira a íntegra do documento).

Para tanto, a matriz curricular das IES deve passar por um processo de desconstrução, em que o principal objetivo é tornar o aluno protagonista do ensino. Além disso, os professores continuam em sala de aula, mas agora treinam suas próprias habilidades sociais, emocionais e cognitivas.

Outra diferença é que eles trabalham em rede e atuam como facilitadores de aprendizagem. Nesse sistema, as provas mensais ou bimestrais podem ser substituídas por projetos de pesquisa.

De acordo com o pesquisador Thomas Armstrong, que desenvolve estudos em aprendizagem no American Institute for Learning, nos Estados Unidos, a observação dos alunos é o método mais eficaz para as avaliações. “Como o estudante funciona em grupos? Como ele se sai planejando um projeto individualizado? O exame da resposta dos alunos a esses e outros problemas dirá muito mais sobre sua maturidade socioemocional do que qualquer escala de classificação quantitativa”, avalia, em entrevista à revista Pátio.

A autoavaliação, assim como a avaliação por pares, é uma forma de garantir a visão total sobre a aprendizagem. Ela pode acontecer semanal ou quinzenalmente, sem ter de seguir uma regra. Aqui, o que importa é que todos estimulem sua capacidade de reflexão sobre o próprio aprendizado – um procedimento chamado de metacognição.

No livro Dez Novas Competências para Ensinar, publicado no Brasil pela Editora Penso, o suíço Philippe Perrenoud apresenta as abordagens necessárias para que os professores possam desenvolver as competências em sala de aula. Entre elas, estão:

  • Organizar e dirigir situações de aprendizagem
  • Conceber e fazer evoluir dispositivos de diferenciação
  • Trabalhar em equipe

Toda essa estratégia é ainda mais eficaz quando acompanhada de uma base tecnológica. Assistentes virtuais e o uso de LMS podem combinar outros modelos, como o ensino híbrido ou totalmente a distância, a fim de garantir mais autonomia ao aluno.

Ao ensinar por competências, as IES estarão mais preparadas para o grande desafio do ensino no século 21: formar indivíduos para atuar em um mercado complexo e em constante desenvolvimento.

Confira a série Competências na Educação