Startups de educação crescem 20% ao ano – e confirmam força do setor

Brasil já conta com 300 startups de educação. Foco é transformar metodologias tradicionais em novos paradigmas (Foto: Google/Divulgação)
Google Campus, em São Paulo: Brasil conta com pelo menos 350 startups que atuam em segmentos da educação. (FOTO: Google/Divulgação)

Não faz muito que as salas de aula se resumiam a alunos sentados em fileira, que anotavam o que o professor falava ou escrevia no quadro. A cena era vista desde o ensino básico até as universidades. Aos poucos, no entanto, esse cenário está ficando para trás. Novas tecnologias abrem espaço a modelos de ensino disruptivos, que possibilitam uma aprendizagem mais aberta, imersiva e colaborativa – um prato cheio para empreendedores que apostam em EdTechs, as startups de educação.

A maioria das EdTechs tem menos de uma década de atuação e conciliam o processo de aprendizado às últimas tendências da área. O objetivo é turbinar o estudo em escolas, cursos e universidades através de instrumentos e metodologias mais dinâmicas, criativas e atrativas. Entre as iniciativas de destaque estão aplicativos, plataformas online e de ensino personalizado.

“A nova geração de estudantes já está plenamente habituada às tecnologias”, observa Marlon Souza, CEO da Playmove, startup criadora da PlayTable, uma mesa digital equipada com jogos educativos e que auxilia na integração de crianças especiais. “Os alunos de hoje precisam de rotinas que envolvam a tecnologia, e não aquelas em que ela seja excluída.”

Como resultado, existem aproximadamente 350 startups de educação no Brasil, segundo a Associação Brasileira de Startups (ABStartup). Suas receitas crescem em média 20% ao ano – um dado bastante promissor, a julgar pelo crescimento quase nulo da economia nacional. No plano internacional, a conjuntura segue a mesma toada. De acordo com o banco inglês Ibis Capital, o mercado global de EdTech deve crescer 17% ao ano, chegando a um faturamento de US$ 252 bilhões em 2020. Até mesmo fundos de venture capital e empresas interessadas em incorporar novas soluções estão de olho nas projeções alvissareiras das startups de educação.

Mas o que reforça esse cenário? Um estudo da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, talvez dê algumas pistas.

Os pesquisadores concluíram que universitários submetidos a aulas convencionais são mais propensos à reprovação do que alunos que aderem a metodologias ativas e mais estimulantes. André Tanesi sabia bem disso, e por isso fundou a Descola, uma plataforma que oferece experiências de aprendizagem mais leves e informais.

Fundada em 2011, a startup de educação nasceu da percepção de um gap no mercado nacional. “Quando pesquisamos o que se fazia na área de cursos online, vimos uma oportunidade, porque os conteúdos eram muito densos, pesados”, diz o empresário.

Na Descola, cada curso tem sua própria metodologia de ensino. Os assuntos passam não só por abordagem teórica, mas também por exercícios práticos, casos de sucesso, referências de mercado e reflexão conceitual. Para isso, a startup se vale de novidades como internet das coisas, realidade virtual, design thinking e gamificação.

A gamificação, aliás, é encarada como processo transformador pela Playmove. Segundo o CEO da empresa, o método fortalece o processo de “aprender brincando”. Os jogos são criados a partir de matrizes curriculares e trabalham habilidades cognitivas e de coordenação motora – além de abordarem conteúdos que vão da alfabetização à matemática.

O desafio da consolidação

Como apenas 2% da educação mundial é efetivamente integrada ao universo digital, o mercado das startups de educação é visto como um enorme campo a ser explorado. Para isso, é preciso enfrentar desafios como a baixa velocidade da automatização no segmento – cinco vezes mais lenta do que setores como mídia e agronegócio. Uma das dificuldades diz respeito à burocracia estatal e à escassez de investimentos. Para Tanesi, da Descola, a disseminação de novas oportunidades deveria ser tratada de maneira prioritária pelas políticas públicas.

Em um recorte que considera alunos do primeiro ciclo do Ensino Fundamental brasileiro, o investimento per capita é de US$ 3,8 mil ao ano, menos da metade da média dos países-membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), onde o valor médio é de US$ 8,7 mil. Os indicadores são do estudo Education at Glance (Um Olhar sobre a Educação), divulgado em março.

Essa escassez de recursos para a educação contribui com a criação de uma massa de adultos pobre intelectualmente. Exemplo disso é o fato de que metade da população brasileira com idade entre 25 e 64 anos não completou o Ensino Médio – e 17% desse público sequer concluiu o Fundamental.

“O Brasil é um país muito grande, e um dos setores mais importantes é a educação, onde há muitos desafios a resolver. Mas onde há desafios há oportunidades”, diz Guilherme Junqueira, CEO da Gama Academy, em entrevista ao portal StartSe. Especializada em ensino corporativo, a startup de educação desenvolve programas educacionais para profissões do futuro.

Outro problema está na resistência dos próprios alunos, professores e gestores educacionais às novas práticas. “Existe um receio em relação à eficácia dos novos modelos de ensino, mas isso é comum em qualquer área que esteja passando por transformação”, salienta Souza, da Playmove. Segundo ele, é preciso confiar no futuro da educação, onde a tecnologia é parte integrante do processo de aprendizagem – e não algo extra.

A linha de pensamento é seguida pela Qranio, uma das startups de educação que mais se destacam no país. O criador da empresa, Samir Iásbeck, costuma dizer que sempre se incomodou com o ensino tradicional visto em sala de aula. Por isso, resolveu empreender através de uma plataforma de aprendizagem baseada em gamificação.

Apontada em 2015 como “app do ano” pelo Facebook Start, a solução funciona como um jogo em que o estudante se cadastra, responde perguntas, acumula pontos e troca por premiações. Com 1,2 milhão de usuários, a Qranio fornece soluções customizáveis para empresas como o Grupo Pão de Açúcar (GPA) e a Lilly.

Startups de educação para ficar de olho

Resultado de uma parceria entre as revistas Pequenas Empresas & Grandes Negócios e Época Negócios, o ranking 100 Startups to Watch, divulgado em abril, funciona como um radar para investidores. A lista conta com empresas de todas as regiões do Brasil e de diversos segmentos, inclusive de educação. Confira as EdTechs presentes:

12 minutos
Fundada em 2016, a startup desenvolve microbooks com as ideias de livros de negócios e desenvolvimento pessoal. Detalhe: o conteúdo é feito para ser consumido em 12 minutos via plataforma online, em texto ou áudio. O lucro vem de assinaturas anuais, que dão aos usuários acesso ilimitado aos conteúdos.

Agenda Edu
Propõe-se a ser uma ferramenta de comunicação e engajamento entre pais, alunos e escolas. Criada em 2014, oferece, por exemplo, um chat onde os professores tiram dúvidas a respeitos das crianças – o que vai de um remédio ingerido a quem irá buscá-la na escola.

Dentro da História
Com base pedagógica, a editora online possibilita que crianças se tornem personagens de aventuras e jornadas em livros e histórias personalizadas – partindo da criação de um avatar e de experiências interativas. Após a etapa de customização, o avatar é inserido num roteiro e enviado para impressão. Com o processo de criação finalizado, gera-se um livro com material sustentável.

Eadbox
startup de educação desenvolve softwares que permitem a pessoas e empresas ofertar cursos de ensino a distância.

Estante Mágica
Cria projetos pedagógicos para alunos de Educação Infantil e Ensino Fundamental I. Funciona assim: a escola acessa ao site da startup, onde encontra propostas de conteúdo para desenvolver em sala de aula. O professor sugere o tema que servirá de base para que os alunos criem suas histórias. Na etapa seguinte, os pais recebem um convite para escrever uma pequena biografia dos filhos, que será incluída na publicação. Por fim, os textos e desenhos são digitalizados em formato de e-book e podem ser adquiridos impressos.

Me Salva!
Uma das startups de educação focadas em videoaulas online. A Me Salva! ajuda estudantes de todo o país em diferentes momentos da vida escolar, como Ensino Médio, vestibulares e a preparação para o Enem. A plataforma já teve mais de 28 milhões de acessos e 142 milhões de aulas assistidas. Leia uma entrevista exclusiva com o fundador da empresa, Miguel Andorffy.

Quero Educação
Especializada em marketing educacional, a empresa trabalha para ampliar o acesso à educação de qualidade. O principal produto é o Quero Bolsa, site que oferece informações sobre cursos, instituições de ensino, comparar preços e conseguir bolsas de estudo de até 70% em mais de mil instituições parceiras. A startup já ajudou a matricular mais de 200 mil estudantes no ensino superior.