Competências STEM: a nova fronteira do ensino e da aprendizagem

Com o trunfo da aprendizagem multidisciplinar, metodologia STEM ganha cada vez mais adeptos. (Foto: Visual Hunt)

Ao longo da década de 1990, especialistas alardeavam nos Estados Unidos a existência de uma crise no mercado de trabalho. O motivo era a escassez de pessoas qualificadas para ocupar cargos estratégicos em profissões relacionadas às Ciências Exatas – como engenharias e informática. De fato, naquele momento os estudantes pareciam não demonstrar muito interesse em carreiras científicas, especialmente em razão de um modelo de ensino visto como simplista e pouco estimulante.

É dessa demanda que desponta o conceito de STEM Education. Popularizada a partir dos anos 2000 pela Fundação Nacional da Ciência, agência governamental norte-americana que promove pesquisa e educação em ciência e engenharia, o acrônimo sintetiza as palavras Science, Technology, Engineering and Mathematics. Ou, em bom português, Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática. Considerado um novo jeito de ensinar Ciências, o modelo despontou como uma resposta ao modelo educacional conservador e fragmentado.

“O STEM é uma mudança de paradigma na educação”, afirma Antônio Moraes, diretor de Educação da Microsoft Brasil, em entrevista ao Desafios da Educação. Com um modelo de ensino baseado em projetos, o STEM propõe o engajamento dos estudantes em atividades que conduzem a uma aprendizagem mais prática, que foge de métodos conteudistas e pouco envolventes. “O STEM coloca os estudantes no centro do aprendizado, permitindo que eles questionem, interajam e construam o mundo que eles enxergam”, avalia Moraes.

Ao preconizar a conexão de quatro áreas macro, o modelo trabalha o aprendizado integrando as competências relativas às diferentes áreas. Aqui, o foco é conectar os diferentes conhecimentos em favor da resolução de problemas do cotidiano.

Com o mercado de trabalho exigindo interdisciplinaridade, o STEM ganha espaço nos currículos graças ao potencial inovador que ele carrega. Hoje, dizem os especialistas, é menos importante saber o que o aluno sabe e mais importante saber o que ele é capaz de fazer com o conhecimento adquirido.

“A educação em STEM não apenas prepara nossos futuros médicos, pesquisadores, cientistas e designers, ela é importante para todo o tipo de profissão”, diz o diretor da Microsoft. Por isso, aproximar empregadores de universidades, além de desenvolver currículos acadêmicos que levam em conta o conhecimento prático, também é um dos propósitos do STEM.

“Se o trabalho muda, a educação tem que mudar”, avalia o educador Rui Fava, que lançou recentemente o livro Trabalho, Educação e Inteligência Artificial: A era do indivíduo versátil. Em entrevista ao Desafios da Educação, Fava, que é sócio fundador da Atmã Educar, empresa de soluções inovadoras para o segmento educacional, afirma que os currículos das IES são feitos para um tipo de trabalhador que em breve deixará de existir. “Todo o trabalho preditivo está sendo substituído pelas máquinas”, observa.

Iniciativas em andamento

Ainda que tenha se disseminado nos Estados Unidos nos anos em que Barack Obama esteve à frente da Casa Branca – o ex-presidente chegou a dizer que o aprendizado STEM era uma prioridade no país –, o modelo ainda é tratado como novidade no Brasil. Em solo americano, o Comitê de Educação em Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (CoSTEM) criado em 2011, procura criar estratégias de investimentos para programas e atividades em apoio a essa nova modalidade de ensino. Só em 2012, por exemplo, o movimento fez com que o governo destinasse US$ 3,1 bilhões aos programas de educação STEM.

Enquanto isso, algumas iniciativas se consolidam no Brasil. Uma delas é da própria Microsoft, criadora do Hacking STEM, programa de aulas gratuitas que é totalmente baseado na metodologia. A avaliação da gigante tecnológica é de que a falta de investimentos vista na maioria dos países cria déficits no mercado de trabalho – como o que se desenhou nos Estados Unidos duas décadas atrás.

Outra ação de destaque remonta ao ano de 2009, quando a ONG Educando lançou o STEM Brasil, plataforma que se dedica à formação de educadores em Física, Química, Biologia e Matemática. No caso, toda metodologia se baseia em projetos e tem como público alvo professores de escolas públicas de Ensino Médio. Até agora, a solução treinou mais de 4 mil docentes, oriundos de aproximadamente 500 instituições, e impactou quase 500 mil estudantes. “O objetivo do STEM Brasil é incentivar o professor a despertar a sua paixão nos alunos”, afirma Kelly Maurice, diretora executiva da Educando.

Apesar dos números relevantes, levar o modelo para dentro da sala de aula não é nada fácil. Na visão de Luciano Sathler, diretor da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed), as propostas precisam ser compatíveis com o contexto local, a disponibilidade de recursos técnicos e o estafe de suporte. “É importante propiciar capacitação suficiente aos profissionais e apoio administrativo e político, assim como liberar tempo para implementação”, explica.

Para o educador, é possível desenvolver o STEM tomando como base cinco modelos de aprendizagem. Conheça melhor cada um deles:

  • Jogos educativos: modelo em que os alunos podem interagir com videogames ou simulações baseadas em ambientes imaginários ou reais. Além disso, o recurso inclui projetos em que os próprios discentes podem criar os jogos.
  • Laboratórios: permitem que os alunos simulem experimentos científicos e utilizem laboratórios a distância, por meio da internet. Facilitam o acesso a mais equipamentos experimentais e com maior sofisticação do que uma escola costuma fornecer.
  • Colaboração da tecnologia: ajuda a melhorar a interação, o engajamento e a aprendizagem dos alunos. É ela que proporciona condições para o desenvolvimento da metacognição, da flexibilidade e da diversidade na experiência educacional.
  • Avaliação formativa em tempo real: facilitado pela tecnologia, o recurso permite a interação instantânea e trocas entre professores e alunos por meio de clickers, computadores, tablets, smartphones e todo tipo de tecnologia interativa.
  • Alinhamento curricular baseado em competências: pode promover uma avaliação mais precisa da variedade de competências incluídas nos currículos e padrões da educação STEM.

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