Competências em EAD: as exigências de uma nova era

Ao longo do tempo, o conjunto de recursos materiais e intelectuais empregados pelos sistemas de aprendizado sofrem modificações e atualizações. Logo, os meios utilizados pelos processos educacionais acabam entrando em constante evolução. Um professor do final do século 19, por exemplo, lidava com bases epistemológicas adaptadas ao contexto da época.

Esses pilares ganharam complexidade no decorrer das décadas seguintes, a partir de alterações socioeconômicas e do aprofundamento da teoria do conhecimento, refletindo no surgimento de abordagens pedagógicas mais abrangentes. Entretanto, nenhuma transformação se compara ao cenário inédito estabelecido nos últimos anos.

Nesse cenário, as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) implementaram um paradigma de ensino disruptivo, no qual o ambiente, as ferramentas e as relações entre os indivíduos foram alteradas. Uma metamorfose como essa, realizada em larga escala e de modo irrestrito, influencia as atribuições de quem participa do processo de ensino, impondo e alavancando o desenvolvimento de novas capacidades cognitivas, comportamentais e técnicas.

Tão apaixonante quanto complexo, o tema é abordado com detalhes pelo livro “Competências em Educação a Distância”, lançado pela editora Penso, em 2013. A obra traz uma análise das aptidões requeridas aos diferentes grupos envolvidos nas metodologias de ensino alicerçadas nos meios digitais. Entra em cena o debate quanto ao papel de professores, tutores, alunos e gestores nesse modo ultraconectado de ensinar e, claro, aprender.

Como as tecnologias da informação e comunicação impactam as ferramentas, as metodologias e as relações no ambiente educacional do século 21 (Foto: Freepik)
As tecnologias mudaram a perspectiva de ensino, ampliando o papel de alunos, professores e gestores. (FOTO: Freepik)

A receita do “CHA”

O livro é organizado pela professora Patrícia Behar, doutora em Ciência da Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenadora do Núcleo de Tecnologia Digital Aplicada à Comunicação (Nuted-UFRGS). Para o trabalho, ela contou com a colaboração de 14 docentes e pesquisadores de diversas áreas de conhecimento – da pedagogia à informática, passando por física e urbanismo.

A tela criada por esse mosaico heterogêneo de vozes buscou apresentar as competências basais exigidas pela educação a distância (EAD), além de demonstrar a aplicação específica dos conceitos e de seus desdobramentos em diferentes situações de aprendizado. O trabalho capitaneado por Patrícia Behar inicia pela conceituação de “competência”, termo apresentado como a conjugação de conhecimentos, habilidades e atitudes – expressos pela sigla CHA.

O conhecimento, por exemplo, é entendido não apenas como a informação ou o conteúdo é disposto ao aluno. Ao levar em conta a perspectiva da Inteligência Coletiva, cunhada pelo filósofo francês Pierre Lévy, o livro agrega as interações realizadas no espaço virtual aos elementos formadores desse arcabouço. “O conhecimento se constitui no espaço virtual pelas trocas entre o sujeito e o objeto, por meio das ferramentas digitais e dos conteúdos, bem como das interações formadas na rede”, escrevem os autores.

Outro fator importante é a diferenciação entre habilidade e competência. A habilidade se refere à destreza adquirida a partir da prática de um conhecimento (seja ele intelectual ou físico) num ambiente estabelecido e reconhecido. Já a competência se constitui na aplicação da tríade CHA a fim de solucionar um problema ou lidar com uma situação nova. Aqui, o fator atitude ganha importância. “Para haver competência, é preciso uma atitude em favor das ações de resolução, enfrentamento e superação”, diz um trecho da obra.

A concepção encontra relação direta com as novas metodologias de ensino. Afinal, são elas que colocam o aluno como protagonista ativo do aprendizado e empregam desafios e experimentos como gatilhos de evolução na trilha educacional. Além disso, os métodos colocam à prova a atuação de docentes, tutores e gestores, exigindo a construção de novas respostas às demandas igualmente inovadoras suscitadas pelo paradigma digital. A junção desses quatro atores pode ser expressa pelo termo “sujeito da EAD”.

Faces e domínios

A definição do sujeito da EAD deriva do conceito de sujeito psicológico, introduzido pela teoria epistemológica do cientista suíço Jean Piaget – e também se forma a partir das interações com o meio. O diferencial dessa elaboração está nas trocas realizadas entre o participante e o Ambiente Virtual de Aprendizado (AVA), o locus no qual a EAD se materializa.

Para tanto, os indivíduos envolvidos no processo são dotados das quatro facetas elencadas por Piaget – chamadas de sujeitos cognitivo, afetivo, social e biofisiológico – somadas ao caráter tecnológico (sujeito tecnológico). Cada persona dessas é responsável por uma instância em que as competências devem ser desenvolvidas.

“O sujeito afetivo é destacado quando o indivíduo deve dar conta do sentimento ou da emoção resultante de uma falha do computador, por exemplo. Já o sujeito cognitivo terá de entender por que o computador falhou”, explicam os autores. As competências elaboradas pelo sujeito da EAD terão de ser efetivadas em quatro domínios: tecnológico, sociocultural, cognitivo e de gestão.

O primeiro diz respeito ao controle e ao uso dos recursos tecnológicos da EAD – como os AVAs e outras ferramentas virtuais. Já o âmbito cultural exigirá a compreensão do contexto no qual o ator está inserido. Num modelo ubíquo e sem fronteiras como o da EAD, esse fator é especialmente importante na transmissão de conteúdos e na abordagem de tutoria, que devem levar em consideração a origem e as condições diversas dos alunos. O mesmo vale no sentido inverso, quando um estudante busca cursos e aprendizados elaborados em regiões ou países diferentes do dele.

As competências ligadas ao domínio cognitivo se reportam à capacidade de aprendizagem, coordenação de ações e organização de conteúdos. Por fim, a esfera da gestão exige competências em níveis administrativo e acadêmico que considerem as idiossincrasias do modelo EAD – seja na elaboração do plano pedagógico ou na condução da instituição.

Ao longo do livro, Patrícia Behar e os demais colaboradores aprofundam a forma como as competências são recrutadas nos diferentes domínios, dando relevo a questões teóricas e práticas de cada um deles. A obra destaca, ainda, a adaptação das competências em áreas específicas do ensino a distância.

As temáticas combinam assuntos universais – como as competências voltadas à elaboração de materiais educacionais em EAD – e pautas menos debatidas – casos do ensino digital para idosos e do aprendizado de música no ambiente virtual. Outro ponto importante é a diferenciação estabelecida entre competências e competitividade.

Pedagogia de objetivos

O livro deixa claro que a obtenção ou o aperfeiçoamento dos valores requisitados pela EAD não são destinados a uma pedagogia de objetivos, embora a delimitação de metas favoreça o terreno para a construção de competências. “A prática exige que os sujeitos negociem, argumentem, reflitam, coloquem-se no lugar do outro e cheguem a um denominador comum, enquanto lidam com os objetivos e desafios, desenvolvendo o CHA. Assim, as competências estão a serviço de uma perspectiva coletiva de construção e crescimento”.

O progresso de uma nova forma de ensinar e aprender por meio das TICs ainda exige um esforço de entendimento e de consolidação das bases teóricas e analíticas. Nesse sentido, o livro liderado por Patrícia Behar representa uma importante contribuição ao aprimoramento dos profissionais e à percepção do mercado em relação aos parâmetros implementados por um movimento que, cada vez mais, guiará os caminhos da educação.

Confira a série Competências na Educação