Países precisam aperfeiçoar ensino por competências, diz estudo

Universidade de Auckland, da Nova Zelândia: país é um dos líderes no ensino por competências. (FOTO: Visual Hunt)

O desenvolvimento de novas tecnologias criou um novo conjunto de desafios para a educação. Agora, predomina o entendimento de que os profissionais de um futuro nem tão distante terão de desenvolver habilidades que superam o conhecimento técnico. Entram em cena qualidades como capacidade de relação interpessoal, efetividade na resolução de problemas e desenvolvimento de pensamento crítico, por exemplo.

Diante desse cenário, uma equipe de pesquisadores tentou responder a seguinte pergunta: os países estão prontos para incluir esse novo conceito de aprendizagem nas salas de aula? O resultado está no Índice Mundial de Educação para o Futuro, publicado pela The Economist Intelligence Unit, braço de inteligência do periódico britânico. Foi o primeiro estudo internacional de avaliação da eficiência dos sistemas educacionais em relação às demandas do futuro.

De acordo com o documento, dos 35 países avaliados nos quesitos de políticas públicas, ensino e socioeconômico, 17 têm algum tipo de estrutura adaptada ao ensino por competências. Ou seja, as ações das demais nações ainda é insuficiente para inserir os jovens em um novo mercado de trabalho.

Nessa conjuntura, o Brasil está longe de ser uma referência no processo de adaptação às novas habilidades. O país figura na 22ª posição geral, com 55,2 pontos. Apesar de um ambiente socioeconômico favorável, segundo o relatório, o país deixa a desejar em questões como formação, treinamento e valorização de seus professores. “Milhões de jovens não estão sendo ensinados com habilidades efetivas e relevantes. Isso os deixa despreparados para os complexos desafios do século 21. O desempenho de vários países nesse índice indica que há muito espaço para melhorias”, afirma o estudo.

Apesar do alerta, é possível ver avanços significativos em países como a Nova Zelândia – líder do índice global com 88,9 pontos. A Finlândia também está um passo à frente no processo de adaptação ao ensino por competêcnias exigidas pelo mercado. Assim como Canadá e Suíça. Na América Latina, o estudo enaltece estratégias de ensino promovidas por Chile e Argentina.

Por outro lado, o estudo indica que Holanda, Coréia do Sul, Itália e EUA ainda precisam aperfeiçoar os currículos. Isso porque, segundo Linda Darling-Hammond, educadora de Stanford, muitos governos discutem políticas públicas que contemplam novas habilidades educacionais, mas poucos tiram os projetos do papel. “Há muita retórica em torno das habilidades do século 21, mas raros são os governos que realmente sabem o que isso significa para o ambiente e escolar e redesenham os sistemas educacionais”, critica.

Países com sociedade livres e democráticas, segundo a Economist Intelligence Unit, tendem a preparar melhor suas novas gerações para o ensino por competências. Indicadores de corrupção e liberdade de imprensa também são fatores decisivos.

Adaptação precisa ser rápida

O documento ressalva: se os currículos não contemplarem as habilidades que os empregadores vêm exigindo, os alunos ficarão distantes de uma boa colocação profissional. Em uma projeção ainda mais pessimista, os países poderiam sofrer com a fuga de empresas de tecnologia e formariam uma mão de obra pouco qualificada.

Tony Wagner, da Universidade de Harvard, chama atenção para cinco habilidades que precisam despontar nos adultos do futuro:

  • Interdisciplina criativa e analítica;
  • Capacidade empreendedora;
  • Liderança;
  • Habilidades digitais e técnicas;
  • Conscientização global.

Para Richard Levin, da Coursera, a tecnologia está afetando todo tipo de trabalho. Mas dominar as ferramentas digitais, porém, não é suficiente para preparar os alunos. É necessário priorizar a aprendizagem personalizada, na qual os estudantes trabalham em um ritmo apropriado para suas habilidades.

Junto das competências humanas, que convergem com aspectos emocionais, o conteúdo técnico ensinado em sala de aula deve ser cada vez mais híbrido. É o que defende David Hung, do Instituto Nacional de Educação de Cingapura. Segundo ele, a prioridade de ensino das habilidades técnicas deve estar voltada para línguas e as disciplinas STEM (leia mais aqui XXX). Dominado esses conteúdos, os alunos têm a capacidade de se adaptar a diferentes situações de mercado. “Queremos que pessoas que estudam história, por exemplo, tenham habilidades matemáticas. E que matemáticos e físicos entendam de história”, exemplifica.

Elevar o “status” do professor

Conforme o levantamento da The Economist, independentemente da política educacional há um protagonista em comum no processo: o professor. Um sistema de ensino eficiente depende diretamente de professores habilidosos e altamente capacitados. O corpo docente deve estar disposto e capaz de enfrentar o desafio de preparar os alunos para um futuro em constante evolução tecnológica. “As paredes da sala de aula devem ser quebradas”, sustenta o estudo.

Com a popularização dos dispositivos móveis, a aprendizagem não cessa após o fim da aula. Fora da escola, não faltam ferramentas para enriquecer o conhecimento. E os professores têm a missão de incorporar o espírito dessa nova fase, em que o processo de aprendizagem acontece 24 horas por dia. Os alunos precisam enxergar a aprendizagem como um processo orgânico, e não uma prática confinada aos ambientes de ensino.

Países que valorizam financeiramente seus professores têm avanços consideráveis, mas um contracheque encorpado não é a solução para todos os problemas. Segundo o setor de inteligência da The Economist, os governos poderiam direcionar recursos extras para fomentar aulas mais personalizadas. E, com isso, aumentar o prestígio – e a qualidade – da profissão.

Veja alguns resultados do Índice Mundial de Educação para o Futuro

Resultados gerais (sobre 100 pontos)

1º – Nova Zelândia (88.9)
2º – Canadá (86.7)
3º – Finlândia (85.5)
4º – Suíça (81.5)
5º – Cingapura (80.1)
6º – Reino Unido (79.5)
7º – Japão (77.2)
8º – Austrália (77.1)
9º – Holanda (76.2)
10º – Alemanha (75.3)
22º – Brasil (55.2)

Ambiente de política educacional

1º – Cingapura (88.2)
2º – Nova Zelândia (87.5)
3º – Canadá (87.0)
4º – Finlândia (85.3)
5º – Reino Unido (78.3)
19º – Brasil (56.8)

Ambiente de ensino

1º – Nova Zelândia (88.4)
2º – Canadá (87.1)
3º – Suíça (87.1)
4º – Japão (86.9)
5º – Coreia do Sul (82.0)
25º – Brasil (47.8)

Ambiente socioeconômico

1º Finlândia (99.5)
2º Nova Zelândia (92.2)
3º Reino Unido (88.1)
4º Austrália (86.5)
5º Suíça (86.2)
14º Brasil (71.3)

Foto em destaque: Universidade de Auckland, na Nova Zelândia: país lidera índice de educação medido por braço de inteligência da The Economist. Créditos: Divulgação.

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