Entrevista: a importância das rotinas escolares, segundo Doug Lemov

Entrevista: a importância das rotinas escolares, segundo Doug Lemov

Ao longo de cinco anos, o norte-americano Doug Lemov observou e filmou o trabalho de bons professores em sala de aula. O trabalho deu origem ao livro Teach Like a Champion, que no Brasil foi traduzido pela Fundação Lemann e ganhou o título de Aula Nota 10. Diretor de uma rede de escolas privadas nos Estados Unidos, a Uncommon Schools, Lemov sempre nutriu verdadeira obsessão em descobrir o que faz de um professor um docente de ponta – e é isso o que ele conta ao descrever casos práticos de 49 técnicas utilizadas por bons profissionais. A obra se tornou best seller por ir num sentido diferente ao das teorias pedagógicas e defendendo o uso de benchmarking entre os próprios professores para conquistarem o maior engajamento dos alunos.

No fim de 2017, o educador concedeu entrevista ao podcast do portal britânico Tes, no qual fala sobre a importância de estabelecer rotinas para aprender sobre comportamento – e que, assim, todo aluno prospere. “Às vezes, nossas intenções mais rigorosas na sala de aula são desfeitas pela falta de atenção aos detalhes mundanos de como as coisas devem funcionar corretamente”, diz Doug Lemov. Na conversa, ele detalha a teoria por trás de seu trabalho e discute o papel do conhecimento sobre o da informação. A seguir, a tradução e edição da conversa, feita com exclusividade pelo Desafios da Educação. Confira:

Você é cada vez mais citado nas escolas do Reino Unido por variados aspectos do livro Aula Nota 10 e suas outras obras. Para quem não o conhece ou não compreende inteiramente a sua filosofia, você poderia descrever qual o objetivo do seu trabalho e o que você busca alcançar?

Minha filosofia é de que professores, e em especial os melhores, são excelentes solucionadores de problemas. As salas de aulas são ambientes incrivelmente desafiadores. Garantir o sucesso escolar de todos os alunos é desafiador, mas principalmente com crianças desprivilegiadas e que enfrentam dificuldades de aprendizados. É um trabalho difícil. Tradicionalmente, professores recebem conselhos de quem está fora da prática diária da sala de aula. Isso porque ainda não temos a capacidade de pensar metodicamente sobre mensurar o que é aprendizado. Muitos conselhos têm sido motivados por ideologias. Meu objetivo é identificar professores de alto desempenho e estudá-los; descrever o que fazem e garantir que isso chegue a outros professores. Assim, professores aprendem com outros professores. A ideia principal é: professores são incríveis solucionadores de problemas, são algumas das pessoas mais inteligentes e importantes da sociedade. E nós deveríamos estar estudando-os para decidir e aprender o que eles devem fazer.

Uma das coisas que você identificou e ficou mais conhecido é o uso das rotinas de aprendizado. No Reino Unido, a maioria dos professores usa certos métodos ou hábitos peculiares para manter uma criança engajada. Mas cada vez mais professores adotam as rotinas que você identificou. O que faz com que essas rotinas tenham conexão com os professores? Essas rotinas foram identificadas a partir das observações de professores de alto desempenho?

Exatamente. Às vezes, as pessoas dizem “suas rotinas”, mas não as vejo como minhas. Penso em mim como descrevendo rotinas, buscando salas de aula de alto desempenho. Acredito que elas tocam os professores porque ensinar pode ser bem difícil, pois se trata de uma combinação do sublime e do mundano. Essas ideias não são opostas, mas sinérgicas. Para conseguir ter uma conversa profunda sobre a Guerra Civil Americana com todos os alunos atentos, eu preciso maximizar o tempo. Assim, não gasto 15 minutos para começar a lição. Preciso me certificar que os alunos entendem quando é o momento de falar e quando não é certo interromper. Se eu fizer uma pergunta, deixo-os pensarem e dou a eles uns minutos antes de pedir uma resposta – uma estratégia construtiva realmente importante. Não posso fazer isso se os alunos estiverem gritando na sala de aula. Às vezes, as nossas intenções mais rigorosas na sala de aula são desfeitas por conta de uma falta de atenção aos detalhes mundanos de como elas deveriam funcionar.

Um livro que eu adoro, With All Due Respect, de Ronald Morrish, fala sobre como encontrar disciplina ensinando aos alunos a forma certa de fazer algo. Acredito que isso seja algo importante que negligenciamos na sala de aula. Um dos resultados disso é irritar-se com os alunos porque dizemos a eles “preste atenção”, mas eles não fazem o que pedimos. Assim, gritamos. Quando, na verdade, não está completamente claro que alguém já tenha falado com eles o que significa prestar atenção em sala de aula. Significa que você olha para a pessoa que fala com você, que você sente de forma relativamente atenciosa, que mostre que está prestando atenção e que faça anotações quando coisas importantes são discutidas. Esses hábitos de disciplina, ou seja, saber a forma correta de fazer algo, são críticos para os mais sublimes resultados educacionais. Um colega que realmente admiro, Doug McCurry, utiliza uma ótima frase: “quando os alunos não estão fazendo o que você pediu, a razão mais provável para isso é que você não os tenha ensinado como fazer”.

Você adotou essas rotinas de professores individuais? É uma espécie de resumo das rotinas que você viu dos professores de alto desempenho ou uma versão melhor de uma série de rotinas distintas que você juntou em uma única estratégia? Como esse processo funciona?

Escolhi algumas rotinas que achei poderosas e tentei enfatizar a ideia de que o que os grandes professores fazem é qualquer coisa que acontece regularmente em sala de aula. Você deve saber a resposta certa, você deve ensinar os alunos como fazer certo, você deve transformar em hábito. Assim, das coisas que você faz consistentemente: a) os alunos deveriam saber como fazer do jeito certo; e b) de maneira que eles não demorem a aprender. Você deveria ser o mais eficiente possível e passar o máximo de tempo possível no conteúdo do aprendizado. E finalmente de maneira que eles [os hábitos] quase se tornem uma forma de ritual zen. Ou seja, é pensar que “eu faço isso e isso me lembra de que estou ficando pronto para aprender, então eu mergulho no aprendizado”.

Excelentes professores transformam em rotina muito mais coisas do que eu descrevo no livro. Tentei escolher algumas rotinas importantes que representam pontos críticos para os nossos professores, e descrever como eles são em salas de aula hiperativas. Espero que quando os professores perceberem o poder das respostas certas, ensinando a forma correta, eles encontrarão outras coisas para transformar em rotina na sala de aula. E, a partir disso, criar procedimentos comuns. Uma das coisas mais incompreendidas é que as pessoas assumem que eu estou falando apenas de rotinas comportamentais, mas as rotinas acadêmicas são igualmente importantes. Provavelmente até mais importantes.

Uma das incompreensões sobre as rotinas e especialmente sobre parte do seu trabalho é que as pessoas acham que elas denotam certo estilo de ensinar. Mas na verdade você tem professores muito diferentes nos vídeos, com abordagens diferentes, mas que utilizam as rotinas de uma maneira muito particular.

Acho que realmente tento descrever detalhes bastante específicos das ferramentas que vejo os professores utilizarem. Mas elas são ferramentas. Então acho que é uma leitura errônea disso – algumas vezes deliberadas, outras acidentais – de dizer que existe um conjunto de ferramentas ou uma fórmula. Claro que não há uma fórmula. Apenas um tolo segura um martelo e pensa que tudo é um prego. Além disso, se você é um artesão, você tem uma caixa de ferramentas e seleciona a certa e como vai usá-la em uma determinada situação. Mas cada artesão tem uma diferente forma de usar um pincel. Então quando fazemos os workshops, tento mostrar três ou quatro exemplos de diferentes professores usando diferentes técnicas. A ideia de que isso apenas vai funcionar se falar com seu vernáculo pessoal como professor. Você adapta ao seu próprio estilo.

Você quer descrever algumas rotinas para que as pessoas entendam do que estamos falando?

Uma das minhas favoritas é o “hábito da discussão”. Essa é uma série de rotinas para o que os alunos deveriam fazer se você quiser uma discussão na aula. Ela começa com algumas coisas mundanas das quais as pessoas fogem. A primeira é o que chamo de rastreamento. É uma rotina onde olhamos e damos contato visual para quem estiver falando na sala de aula. A professora instaura essa rotina no primeiro dia ao dizer “rastreie-me”. Ela começa por lembrar os alunos que, sempre que estiver falando na frente da sala, eles deverão olhar para ela. Então, chama os estudantes e diz: “Contem-me sobre um livro que leram no ano passado e o que vocês amaram sobre o livro. Jake”. Ela explica aos alunos que, quando Jake estiver falando, todo mundo deve virar e olhar para ele. Porque o que estamos dizendo ao fazer isso é: eu me importo com o que você está dizendo, isso é importante para mim e estou comprometido com o que está falando. Ninguém diz algo arriscado, instigante, que revela os seus verdadeiros pensamentos, em uma sala onde pensa que todos o estão ignorando. Assim, se todo mundo estiver olhando em outra direção ou não está mostrando a Jake que sua voz importa, ele não irá compartilhar seus pensamentos mais poderosos.

O primeiro passo é todos olharem um para o outro para mostrar que estão presos na discussão e como a discussão importa. Você escuta melhor alguém quando está olhando para a pessoa. Uma discussão deve ser tanto sobre ouvir quanto sobre falar. Esta é uma rotina tão importante quanto a que faço para escutar ou a que faço para falar. Segundo passo: primeiro, olho para você para lembrá-lo que enquanto você fala eu estou escutando. Significa que a próxima etapa da nossa rotina é colocar a mão para baixo. Isso porque se minha mão está no ar enquanto você está falando na discussão, o que estou dizendo é que, na verdade, que não estou ouvindo. Estou tentando pensar no que eu quero dizer e ignorar o que você diz. Nesta segunda parte da rotina, levantamos nossas mãos quando queremos falar e abaixamos quando alguém está falando.

Na terceira parte da rotina, ensino aos alunos frases que eles podem usar para construir seu argumento a partir do que o outro estava falando. O que quero que os estudantes façam é, em vez de simplesmente fazer comentários desconectados em sequência, que eles fiquem com a ideia que está sendo discutida, desenvolvam e respondam um ao outro.

Então, o próximo estágio é dar aos estudantes frases iniciais como: “Existe uma outra evidência que eu gostaria de examinar”; ou “interpretei isso de forma diferente”; ou ainda começar com um rápido resumo, “eu concordo com você no pontos…”, então resumir o que foi dito para mostrar que escutei atentamente, mas discordo. Colocar essas frases iniciais na parede e fazer os alunos praticarem. Com o tempo, eles irão construir hábitos de responder uns aos outros de formas criativas que tornam as discussões mais coesas.

É possível ver como isso se torna um ponto de mudança. No começo parece anormal, mas com o tempo se torna mais natural aos alunos. E eles podem criar suas próprias frases iniciais. O que você diz é ter um hábito de fazer esses processos.

Claro. E porque você pode, não quer dizer que você deva fazer. Em alguns momentos, você pode permitir que os alunos respondam sem as frases iniciais. Em outros momentos, eles não precisarão rastrear. Mas acho que você quer construir sistemas padrão para socializar os estudantes a respeito do que é uma discussão. Se você disser isso, com o tempo, vira um hábito e eles vão entender o que fazem. Ironicamente, você precisará coordenar menos o tempo. Porque os alunos entendem, internalizaram e começam a adaptar-se sabiamente à situação que enfrentam na sala de aula. Já vi salas de aula tornando-se muito draconianas. Você sempre precisa usar frases iniciais. A ideia, no entanto, é que queremos incorporar o hábito de construir a partir do outro, escutar uns aos outros. Quero ensinar os alunos a fazer isso. A definição de disciplina é ensinar o jeito correto de fazer algo. Em muitas salas de aula, o que vejo não é uma discussão, mas sim uma briga. Uma vez que você já falou o que queria, não existe a expectativa de que vá ouvir ou aprender com os outros.

Isso se estende para uma das suas rotinas que vi, onde qualquer aluno na sala de aula pode ser apontado para responder a uma pergunta.

O nome dessa rotina é Chamada Fria. Acho interessante falar apontado porque as pessoas enxergam como algo negativo, mas vejo como uma rotina positiva. Chamada Fria é a ideia de que qualquer estudante pode ser chamado para responder uma pergunta a qualquer momento. Uma das características fundamentais de grande parte das salas de aula dos Estados Unidos e no Reino Unido é que os estudante decidem quando querem participar e quando não querem. Ou eles levantam a mão ou não levantam. Assim, muitos alunos podem decidir: “Hoje eu não vou participar”. A ideia é de que todo mundo deve participar.

Então, vamos voltar para as causas da Guerra Civil Americana. “Quais são as causas mais importantes da Guerra Civil Americana?”. Eu não espero você levantar a mão. Eu o chamo na expectativa que você estará pronto para se envolver e quer se envolver em uma verdadeira discussão na sala de aula. O resultado, espera-se, é que você esteja preparado porque sabe que existe uma possibilidade viável que alguém peça a sua opinião a qualquer momento. É também importante porque o meu principal trabalho como professor é verificar a compreensão. A tarefa mais difícil de ensinar é saber a diferença entre o que você ensinou e o que eles entenderam. Eu sei que eu fiquei em frente à sala de aula ontem e falei sobre as causas da Guerra Civil Americana por uma hora, mas isso não significa que os alunos aprenderam. Então, eu preciso ser capaz de saber o quanto eles entenderam. Se eu contar apenas com os alunos que levantam a mão para me dizer o que eles sabem, eu sempre terei uma visão distorcida do que aconteceu. Eu sempre pensarei que os dados são melhores do que são na realidade. Os estudantes que levantam a mão tendem a fazer isso porque eles acham que sabem. Então eu preciso ser capaz de chamar qualquer aluno a qualquer momento. Eu posso perguntar: “O que o Lincoln disse depois que a Carolina do Sul se separou? David?”. Agora eu sei o que David sabe e o que não sabe, em vez de contar com duas ou três crianças que levantaram a mão e me falaram. Dessa perspectiva, isso é fundamental.

A ideia da Chamada Fria é uma técnica incrivelmente inclusiva, levando em conta que seja feita de forma atenciosa e positiva, que mostre que eu realmente me importo com o que você pensa. É uma maneira de envolver estudantes que muitas vezes querem participar, mas não o fazem por diferentes razões. Eles podem estar inseguros em relação à sua ideia. Você pode ver que às vezes o aluno vai olhar para o professor para mostrar que eles estão pensando em algo, mas não estão prontos para levantar a mão. Às vezes, eu quero ouvir esse aluno. Outras vezes o aluno terá medo de falar. Eles se preocupam em não falar corretamente. Mas a única forma de melhorar é praticando. Ainda há os estudantes que não levantam a mão porque acham que já fizeram isso muitas vezes. É uma rotina poderosa e acredito que nas mãos dos melhores professores, com um sorriso e uma cultura inclusiva, pode ser algo muito positivo na sala de aula.

Agora que você explicou as rotinas é possível ver porque a estereotipação de algumas delas se dá como técnicas de comportamento draconianas ou erradas como técnicas de aprendizagem. Você acha que é necessária uma demarcação mais clara para o que é um sistema de rotinas de aprendizagem e o que é comportamental? Ou elas são a mesma coisa?

Essa é uma das partes frustrantes do meu trabalho. Eu estava em uma escola nos Estados Unidos em que não há rotinas, nem expectativas de como as coisas devem ser. É uma escola de cidade do interior com mais de 90% das crianças crescendo na pobreza. E nenhuma criança aprendeu coisa alguma o dia inteiro. Muitas vezes, são as pessoas que mais falam sobre o mal da ordem na sala de aula, que dizem que as rotinas são sobre como as pessoas se comportam. Trata-se de criar um ambiente de aprendizado onde todos tenham o direito mais completo de aprender, principalmente as crianças que crescem em lugares onde a escolaridade é mais difícil e o custo é mais alto.

Em muitos lugares, preciso argumentar quando dizem o tempo todo: “Você usa essas técnicas nos filhos das outras pessoas, mas você gostaria de usar nos seus próprios filhos?”. É claro que eu gostaria! Eu vejo o quanto de tempo é desperdiçado nas salas de aula e qual o custo disso.

O propósito das rotinas de cultura comportamental é montar a mesa para o ensino acadêmico. Você não pode ter uma refeição sem uma mesa para botá-la. E existem centenas e centenas de escolas onde a mesa não está montada. Em muitas das salas de aula que eu tentei descrever, se você entrar amanhã, verá a professora sentada em um canto lendo um livro com um grupo de alunos. Um outro grupo de alunos estará sentado em suas mesas, lendo uma história e escrevendo sozinhos, sem qualquer supervisão ativa aparente do professor. Eles serão autogerenciados e automonitorados. E a razão para esses professores poderem fazer isso é porque eles ensinaram aos seus alunos as rotinas. “Enquanto eu estou trabalhando com esse grupo, você irá até a sua mesa e irá pegar o seu livro e sua pasta. Você terá 30 minutos. Você trabalhará em silêncio lendo a sua história. Vamos praticar isso. Quando você terminar de ler, você pegará seu volume. Você escreverá frases completas e escreverá as suas respostas para a história. Vamos praticar isso!”. Isso é uma rotina acadêmica. Quando os alunos sabem o que fazer, quando eles são responsáveis por fazer corretamente, você pode dar a eles a liberdade para trabalhar independentemente e autonomamente.

Última pergunta. Você fala sobre a leitura como um processo empoderador e libertador. Não é apenas sobre acessar currículos, acessar a sociedade para a alfabetização. Onde você acha que o ensino da leitura é certo ou errado nas escolas? E onde você tenta levá-los a leitura?

A leitura é uma mistura de uma batalha de sobrevivência. O seu maior inimigo é provavelmente o celular. Toda vez que um aluno senta para ler um livro, tem um aparelho brilhante com sinos e assobios que busca distraí-lo constantemente e que pode canalizar qualquer informação. Uma das maneiras que nos colocamos para perder essa batalha é que deixamos a leitura se tornar um exercício solipsista. Os professores não leem mais em voz alta para os alunos nem com os alunos. E eu acho que uma das formas de construir uma cultura de amor à leitura é com professores que leem em voz alta, trazendo vida para o texto, dando vida a história e deixando os alunos participarem disso; sentindo alegria ao ler um texto com expressividade e com significado; rindo juntos nas partes engraçadas e vendo os outros alunos fazendo isso também.

As histórias começaram como um fenômeno cultural compartilhado, muito antes de serem escritas. Uma das formas de manter essa tradição viva nas salas de aula é através da leitura em voz alta para e com os alunos. E isso não é algo que acontece mais. Não acontece mais porque, em muitos casos, as pessoas não acreditam mais que os alunos deveriam ler textos compartilhados pela turma. Você deve ler seu próprio texto. Você escolhe o seu livro e escreve o que quiser sobre o livro. Um problema real é que começamos a acreditar que a leitura é um conjunto de habilidades, e que ler é sobre perguntar e responder perguntas sobre o texto, e pode ser qualquer texto. Acredito que o texto importa profundamente. Eu quero comparar as estruturas narrativas do livro que estou lendo com outro livro que todo mundo leu. Nos Estados Unidos, quase não existe um livro que eu possa presumir que todo mundo na classe tenha lido. Assim, eu não posso falar sobre as similaridades e diferenças dos textos. A escolha do que lemos é vastamente subestimada por escolas e professores. Muitas escolas e professores enxergam a leitura como um conjunto de habilidades, que é preciso praticar para fazer inferências sobre o texto. Mas os alunos não podem fazer inferências porque eles não entendem que uma inferência é fazer uma conexão entre o que está escrito no texto e o conhecimento que eu tenho. Na maioria dos casos onde os alunos não fazem uma inferência não é porque eles não sabem o que é uma inferência – da mesma forma que quando os alunos não conseguem extrair a ideia principal do texto, não é porque eles não sabem o que é extrair a ideia principal. É porque eles não conhecem o contexto, não conhecem o vocabulário usado, não experimentaram textos complexos o suficiente em voz alta, para serem capazes de processar com suficiente memória ativa para pensar sobre o texto.

Nós, muitas vezes, pensamos que os problemas de leitura são problemas de habilidade, quando, na verdade, são problemas de conhecimento. Um exemplo: eu estava com a minha filha mais nova, lendo um dos livros de Little House On The Prairie [Os Pioneiros], uma série literária sobre o oeste americano no fim dos anos 1800. A mãe da personagem principal diz para ela: “É noite de quarta-feira. Nós vamos para a cidade para tomar banho”. E isso é para ser um sinal de que algo muito importante vai acontecer. Então, perguntei para a minha filha como ela sabia que um evento especial iria acontecer. Ela adivinhou todo o tipo de coisa, mas não sabia. Ela é uma ótima leitora. A razão para ela não entender é porque ela não sabia o fato de que, no século 19, no oeste americano, você tomava banho apenas aos sábados para ficar pronto para a igreja, que era aos domingos. Isso porque a água era cara e você precisava buscá-la do poço. As pessoas tomavam banho uma vez por semana na época. Assim, tomar banho numa noite de quarta-feira era algo muito incomum. A minha filha poderia ter praticado fazer inferências milhares de vezes, com milhares de livros diferentes e, mesmo assim, ela não conseguiria fazer aquela inferência específica. Essa inferência é sobre conhecimento. Geralmente, nós subestimamos sistematicamente a importância do conhecimento na educação. Passamos a acreditar no argumento falso de que na era do Google, quando você pode pesquisar qualquer coisa, o conhecimento não importa mais.

Conhecimento é diferente de informação. Você precisa de conhecimento para ser capaz de processar informação. A falta de um conhecimento sistemático é uma das maiores causas para os problemas de leitura. Ajudaria os alunos se pedíssemos mais perguntas sobre o texto baseadas no conhecimento do que fazer as perguntas de sempre. Isso porque eles conseguiriam construir seu conhecimento com o tempo, tornando-se melhores leitores. Eu acho que essa é uma das principais razões pelas quais lutamos para progredir com os alunos, pois ainda vemos a leitura como um conjunto de habilidades formalistas. Eu acho que a pesquisa é bem clara que esse não é o caso.