Por que depressão e ansiedade afetam cada vez mais universitários

Estudantes depressivos: mesmo quando problema é reconhecido, foco costuma ser no tratamento, não na prevenção (FOTO: Visual Hunt)

O medo do futuro e a pressão por bom desempenho educacional estão deixando os universitários mais vulneráveis psicologicamente. Foi o que apontou uma pesquisa da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes).

Divulgado em 2016, o estudo indicou que sete em cada dez alunos de instituições federais no Brasil sofrem de algum tipo de dificuldade mental ou emocional – como estresse, ansiedade ou depressão. O levantamento incluiu dados de quase 940 mil graduandos, de 62 instituições, com idade média de 24 anos.

Esses transtornos não são exclusividade dos estudantes brasileiros. Uma meta-análise de 195 pesquisas realizadas em 47 países, também publicada em 2016, mostra que a proporção de diagnósticos de depressão ou sintomas depressivos entre alunos de Medicina no mundo (incluindo no período da residência) é de 27%. Por aqui, os graduandos de Medicina com indícios de depressão chegam a 41%, de acordo com estudo da psicóloga Fernanda Mayer, da Universidade de São Paulo (USP). Já os estudantes com sintomas de ansiedade representam quase 86%.

A saúde mental de muitos pós-graduandos também está afetada. Conforme uma pesquisa com 2 mil estudantes de 26 países, publicada na revista Nature Biotechnology, em março de 2018, mestrandos e doutorandos têm seis vezes mais chance de sofrer ansiedade e depressão do que a população geral.

Apesar de as pesquisas retratarem realidades específicas – alunos de instituições federais, de Medicina e de pós-graduação –, a ansiedade e a depressão na universidade é uma constante. Tratam-se de males que acometem cada vez mais estudantes, independentemente do nível de graduação. Entre as razões que desencadeiam os transtornos estão a “pressão sofrida pelos jovens, as altas expectativas e a falta de preparo psicológico para a vida acadêmica”, segundo análise de Leila Tardivo, professora associada ao Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP, em entrevista à Gazeta do Povo.

Riscos da depressão na universidade

Além de insegurança, dificuldade de concentração, cansaço e irritabilidade, entre outros sintomas, há uma crescente preocupação dos educadores em relação a pensamentos sobre a possibilidade se suicidar – a chamada ideação suicida. Os números, de fato, assustam. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio gera 800 mil mortes por ano no mundo e é a segunda maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos – justamente a faixa etária de estudantes prestes a entrar na faculdade ou que já estão cursando.

“A responsabilidade sobre o início da vida adulta, a solidão e a necessidade de começar uma nova rede de contatos são fatores que geram angústia”, afirma Neury Botega, psiquiatra da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e um dos maiores especialistas em suicídio do país. “Além disso, o estudo é mais competitivo, com matérias difíceis e provas que geram momentos de tensão”, acrescenta o autor de obras como Comportamento suicida e Crise suicida: avaliação e manejo.

Para evitar que os jovens cheguem ao limite, escolas, faculdades e universidades podem revisar a rotina, as metodologias de ensino e promover mais discussões sobre temas como depressão, estresse e suicídio. “Há cinco anos era um tabu falar dessas coisas”, diz Botega. “Vejo o debate com bons olhos. Se não falarmos disso, a impressão é de que o problema não existe.”

Na prática, não só existe como chama atenção. Na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e na Universidade Federal do ABC (UFABC), por exemplo, cinco alunos cometeram suicídio entre 2012 e 2017. No mesmo período, foram registradas 22 tentativas entre alunos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Neste mês de julho, uma estudante de Medicina da Unioeste, de Cascavel (PR), deu fim à própria vida.

O suicídio nunca é a solução. A orientação em casos de pensamentos suicidas é buscar atendimento o mais rápido possível. A alternativa é entrar em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV). O serviço é sigiloso e funciona 24h. Os voluntários do CVV prestam apoio pelo site, via chat, ou pelo telefone 188.

Além disso, há os serviços de apoio ao aluno oferecidos pelas próprias instituições. Várias delas, na tentativa de reduzir a incidência de transtornos emocionais, têm investido em atendimento psicológico tradicional e até mesmo em terapias alternativas com música e meditação.

Um estudo publicado em abril pela UFSCar avaliou os efeitos da meditação e do treinamento cognitivo-comportamental em estudantes de graduação e pós-graduação. Antes do experimento, quase 77% dos participantes apresentavam sinais de ansiedade, estresse ou depressão. Após oito semanas de exercícios, o índice caiu para 40%.

A Universidade Federal Fluminense (UFF), do Rio de Janeiro, disponibiliza atendimento com psicólogos e oficinas com técnicas de meditação e atenção plena – também conhecida como mindfulness. Já o Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), na capital paulista, oferece sessões semanais em que discentes, funcionários e público externo utilizam recursos sonoro-musicais, corporais e vocais para relaxar. A Universidade de Brasília (UnB) lança em agosto a primeira turma de felicidade, disciplina com 240 vagas e que pretende mergulhar na psicologia para esmiuçar áreas como autoconhecimento, afeto, solidariedade e respeito às diferenças.

Iniciativas como essas têm ajudado uma série de estudantes a se reestabelecerem emocionalmente. O risco é que, ao focar mais no tratamento do que na prevenção do mal, as IES podem não atender o problema em sua raiz – como recomendam especialistas. “As soluções não podem vir apenas do lado da saúde mental”, defende Stuart Slavin, professor da Universidade de Saint Louis, em artigo publicado no Journal of the American Medical Association. “A situação precisa ser vista como um problema de saúde ambiental.”

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Foto em destaque: Estudante. Créditos: Visual Hunt.