Temos medo de deixar os alunos cometerem erros?

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Sabe-se que os alunos têm medo de errar, às vezes um medo enorme. E então o professor aproveita a oportunidade para explicar o grande potencial de aprendizado que existe nos erros.

Mas será que os professores também não estão com medo de deixar os alunos cometerem erros? É apenas um problema de os alunos não quererem estar errados, ou a necessidade de os professores controlarem a experiência de aprendizagem mantém os estudantes longe dos erros?

Conheça 7 formas de dar feedbacks aos alunos de forma a incentivar seu aprendizado.

Um estudo detalha os desafios de assistentes de ensino de biologia quando eles passam a ter que mudar suas abordagens com os alunos. Segundo a pesquisa, os instrutores “se sentiam responsáveis por proteger e controlar a experiência de ensino dos estudantes”. Em vez de permitirem que eles fizessem suas próprias descobertas em laboratório – já que o aprendizado pelo erro é uma prática inerente à ciência –, os instrutores forneciam informações e orientações, evitando a tomada de decisões experimentais. Embora os resultados sejam específicos do campo da ciência, é difícil que eles não estejam relacionados também a outras áreas do conhecimento.

Você pode ver o estudo completo aqui, em inglês.

É importante saber se isso é algo generalizado ou não por alguns motivos. Primeiro, em alguns aspectos, os custos do fracasso em sala de aula são mais elevados do que simplesmente um erro no laboratório. Se um experimento científico dá errado no laboratório profissional, o cientista começa de novo. Isso faz parte do trabalho. No laboratório de sala de aula, se uma experiência dá errado (ou, mais genericamente, quando aprender dá errado em qualquer sala de aula), há uma consequência primordial. O aluno recebe uma nota baixa, e isso é motivo de preocupação para a maioria dos professores.

Outra razão é a pressão do tempo. Sendo ainda mais claro, o professor não tem tempo para erros, especialmente os “erros burros”, aqueles que os inexperientes cometem. Então ele “guia” a aprendizagem – em vez de esperar que o aluno busque as informações, ele as recebe. Em vez de dar aos alunos espaço para fazer perguntas irrelevantes e ponderar várias alternativas, o professor diz quais são as questões certas.

Então, como o estudo com os assistentes dos laboratórios de biologia indicou, há ainda o temor do que o fracasso faz aos estudantes. Talvez ele irá acabar com qualquer pequena motivação que tinha para acertar no laboratório, no curso ou na disciplina. Talvez eles não sejam capazes de lidar com a frustração que vem com os retrocessos. Ou talvez eles vão ficar loucos e usar toda essa raiva nas avaliações dos professores no final do curso.

Os professores talvez também tenham um medo sutil do erro no que se refere às “verdades” em seus campos de atuação. Certa vez, observei uma renomada professora de Inglês rebater um aluno que propôs uma teoria “radical” para explicar uma ação de determinado personagem em um romance de Toni Morrison. “Não”, a professora exclamou “não é isso que os críticos literários dizem.” Os alunos disseram que não se importavam com o que os críticos literários pensam. “Mas vocês devem!”, ela gritou, frustrada. “O que vocês pensam não está certo. Estudiosos passaram anos estudando este livro.” E ela estava certa. O que os alunos propuseram não era uma possibilidade viável, mas ela não podia deixá-los ficar com aquele pensamento errado por duas razões. Ela não queria que os alunos terminassem o estudo do romance, do curso ou do campus pensando algo tão errado.

Mas ela também sentiu a necessidade de proteger o que foi determinado como certo e verdadeiro pelos especialistas. Ela poderia ter questionado a proposta dos alunos e incentivado sua aprendizagem, mas, em vez disso, entrou em pânico, assumiu sua autoridade e disse que eles estavam errados. Eles cometeram um erro, mas ela tirou deles a oportunidade de aprender com ele.

O exemplo ilustra outra razão que pode deixar os professores relutantes em permitir que os alunos falhem: o medo do que acontece depois do erro. O professor vai conseguir alcançar o aluno e fazê-lo acertar? Aprender com os erros não é automático, então não há garantias de que a segunda tentativa trará resultados melhores. Como é possível ajudar os alunos a superarem o erro tendo tirado algum aprendizado da experiência?

As apostas são altas quando você está ao lado de um estudante que está prestes a errar. Há razões para ter medo, mas esses motivos contam mais do que os benefícios de deixar os alunos aprenderem fazendo?

O que você acha? Você já encontrou uma maneira de dar aos seus alunos o tempo e espaço necessários para fazer e aprender com seus erros?

Artigo original da PhD Maryellen Weimer, traduzido e adaptado de Faculty Focus.