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O que aprender com Israel – a startup nation

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O Instituto Weizmann de Ciências, localizado em Rehovot, é considerado uma das maiores instituições de pesquisa multidisciplinar do mundo. Crédito: divulgação.

Em 2018, tive a oportunidade de visitar Israel e participar das comemorações dos 70 anos de sua independência. Também aproveitei para conhecer o trabalho de algumas edtechs. Afinal, Israel é conhecida como “startup nation”: é o país que concentra a maior média de empresas de tecnologia por habitante, 1 a cada 1.400 pessoas.

A inovação destaca-se nos mais diferentes segmentos – da biotecnologia à segurança, dos equipamentos médicos às tecnologias sustentáveis. E, claro, na educação. Atualmente, mais de 500 empresas inovam na área educacional.

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Estar nessa posição é um feito incrível para uma nação com apenas sete décadas de experiência. Ainda mais se considerarmos a população extremamente enxuta (8,5 milhões de pessoas), o território diminuto (menor que o Sergipe), a geografia desértica e, claro, a tensão provocada por vizinhos abertamente declarados inimigos.

Afeitos ao risco, ao empreendedorismo e à inovação, os israelenses criaram até mesmo o seu próprio Vale do Silício. Trata-se do Silicon Wadi – em árabe, wadi significa “vale”. Próxima a Tel Aviv, na planície de costa mediterrânea, a região reúne toda sorte de startups, empresas de investimentos e indústrias de alta tecnologia.

Entre elas está a Qmarkets, multinacional desenvolvedora de softwares de gerenciamento de ideias e inovações. Em artigo publicado no site da empresa, o CEO e fundador, Noam Danon, afirma que na maioria das vezes as pessoas não se surpreendem ao saber que a Qmarkets tem sede em Israel.

“Mas de vez em quando encontro uma pessoa ou organização que hesita em trabalhar com uma empresa localizada no Oriente Médio, devido à percepção de riscos políticos e econômicos e, às vezes, até mesmo por conta do viés cultural”, explica Danon. A exceção, entretanto, não faz a regra. E há bons motivos para isso.

Segundo a edição 2019 do Relatório Global de Competitividade do Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês), Israel ocupa a primeira posição do ranking mundial de competitividade. Entre os fatores de destaque, estão a atitude em relação ao risco empresarial e o crescimento de empresas inovadoras.

O investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D), considerando a relação percentagem do PIB, também é o mais alto do mundo. Em 2018, os aportes em P&D superaram os US$ 13 bilhões – equivalente a 4,3% do PIB. Quanto à disponibilidade de capital de risco, a startup nation perde apenas para os Estados Unidos. Israel ainda fica na terceira posição (entre 140 nações classificadas) na quantidade de empresas que adotam ideias disruptivas.

A despeito de suas limitações, Israel ostenta mais empresas listadas na Nasdaq do que toda Europa, Japão, Índia, China, Coréia do Sul e Cingapura juntos. A bolsa de valores eletrônica, é importante lembrar, reúne as maiores empresas de alta tecnologia do planeta.

Serviço militar e imigração

No livro Nação empreendedora, os autores Dan Senor e Saul Singer analisam o que levou Israel a se tornar um fenômeno econômico e, mais do que isso, um país high-tech. De pronto, eles descartam o argumento de que questões étnicas ou religiosas possam favorecer o desenvolvimento. As virtudes e fatores determinantes, na verdade, estão no serviço militar obrigatório e nas ondas migratórias.

Servir às Forças de Defesa de Israel (IDF) é uma espécie de passaporte para a vida adulta dos israelenses – homens e mulheres. Mesmo após a conclusão do serviço, em entrevistas de emprego ou para se inscrever na universidade, os cidadãos costumam declarar a patente e a unidade militar a que serviram.

Senor e Singer argumentam que o serviço militar ajuda a criar “empreendedores potenciais” – ou seja, pessoas com capacidade para desenvolver uma grande variedade de habilidades e contatos. O tempo no Exército daria aos jovens atributos como a experiência de assumir responsabilidades.

Diferentemente de países como Brasil ou Estados Unidos, em Israel as IDF são conhecidas como um ambiente de pouca intervenção hierárquica – em que a capacidade criadora e a inteligência são colocadas à prova constantemente.

“Os soldados IDF têm orientação mínima do topo, e espera-se deles que improvisem, mesmo que isso signifique quebrar algumas regras. Se você é um oficial júnior, você chama seus superiores pelo primeiro nome. Se você que eles fazem algo errado, você deve falar”, escrevem Senor e Singer.

A obra também propõe uma reflexão sobre o papel da imigração no crescimento econômico de Israel:

“Os imigrantes não são avessos a começar do zero. Eles são, por definição, o que chamamos de risk-takers. Uma nação de imigrantes é uma nação de empreendedores. Dos sobreviventes do Holocausto aos refugiados soviéticos, passando pelos judeus etíopes, o estado de Israel nunca deixou de ser uma terra de imigração: nove entre dez israelenses judeus hoje são imigrantes ou descendentes de imigrantes a primeira ou segunda geração. Esse aspecto demográfico específico é um grande incentivo para tentar a sua sorte, para assumir riscos, porque os imigrantes não têm nada a perder”.

Entre outros fatores, o uso intensivo da tecnologia e a adoção de políticas públicas favoráveis à expansão do ambiente empresarial, em especial ao fomento das startups, contam pontos preciosos no horizonte israelense. Para ter-se dimensão desse incentivo, basta lembrar da média de startups por habitante, 1 a cada 1.400 pessoas. No Brasil, esse número é de apenas 1 por 33 mil (quase 20 vezes menor).

Valorização do conhecimento

A pujança empreendedora nasce de um contexto estritamente ligado à cultura judaica, que prima pela valorização da educação e do conhecimento. Mesmo as camadas mais pobres da população são assistidas pelo governo por meio de educação pública, gratuita e de alta qualidade – inclusive universalizando o ensino da língua.

Esses valores judaicos, aliás, remontam aos primórdios e podem ser percebidos pelo exercício constante da reflexão. Para os judeus, nem mesmo a Bíblia tem crenças indiscutíveis. Peguemos o Talmud como exemplo: igualmente sagrado para o judaísmo, o livro reúne reflexões e discussões rabínicas a respeito de interpretações diferentes de passagens da própria Bíblia.

Atributos assim, somados à aceitação do erro como parte do processo, à escassez de recursos naturais e ao risco de ataques iminentes criam um ambiente único, altamente propício à inovação. E isso é facilmente percebido no ensino superior israelense.

Ensino superior planejado

O sistema de ensino superior israelense funciona com base em planos plurianuais acordados entre o Comitê de Planejamento e Orçamento (PBC) e o Ministério das Finanças. Cada plano determina os objetivos políticos e educacionais. Depois, são estabelecidos os orçamentos que devem ser utilizados para atingir as metas traçadas.

Em 2015, por exemplo, o governo investiu cerca de US$ 1,75 bilhão nas universidades do país, valor que corresponde a algo entre 50% e 75% dos orçamentos operacionais das instituições. A maior fatia do restante (de 15% a 20%) provém das mensalidades pagas pelos estudantes, com valores médios de US$ 2.750 ao ano.

O Sexto Plano de Ensino Superior (válido entre 2011 e 2016) previa um aumento de 30% no orçamento para o segmento, enfatizando a excelência na investigação – um trabalho cujos resultados saltam aos olhos.

Leia mais: 3 lições de Israel para o ensino superior

Pesquisa de ponta

Criado em 2011, o projeto I-Core (Centros de Pesquisa e Excelência de Israel, na sigla em português) deu origem a clusters interinstitucionais de pesquisadores em áreas específicas. Além disso, atraiu jovens cientistas israelenses que estavam no exterior para voltarem ao país e trabalharem em centros de pesquisa com infraestrutura de última geração.

Os tópicos de investigação de cada centro do I-Core são selecionados através de um processo cujas bases são sedimentadas de baixo para cima. Em vez de serem aplicados como decisão da cúpula governamental, partem de consultas junto a quem mais entende as dores da ciência: a comunidade acadêmica.

A ideia é garantir a reflexão das verdadeiras prioridades e interesses científicos dos pesquisadores. Aqui, é fundamental destacar que o I-Core é financiado não apenas pelo Conselho de Educação Superior de Israel, mas pelas instituições de ensino superior (IES) parceiras e, em especial, por investidores. No total, orçamento aproximado é de US$ 365 milhões – valor que permitiu o lançamento de 26 centros de pesquisa de excelência em território israelense.

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Academia empreendedora

É nesse contexto que multinacionais como Apple, Google, Facebook, IBM, Intel, Microsoft e Motorola fincaram bandeira no país. Todas elas têm em Israel alguns de seus mais importantes centros de pesquisa e desenvolvimento. E esse movimento não acontece à toa.

A economia israelense sempre foi impulsionada por indústrias de base eletrônica, de computadores e tecnologias de comunicação – uma realidade provocada por mais de cinco décadas de investimentos em infraestrutura de defesa. Mas foi-se o tempo em que as empresas se limitavam à eletrônica e áreas afins.

O desenvolvimento do setor tem muito a ver com as organizações de alta tecnologia, que carregam consigo uma vantagem qualitativa: o fomento à abertura de spin-offs com soluções de softwares, comunicação e internet.

Ao que tudo indica, as próximas ondas tecnológicas deverão emanar de disciplinas como biologia molecular, biotecnologia, indústria farmacêutica, nanotecnologia, ciências materiais e química, por exemplo. Tudo em sinergia com o avanço das tecnologias da informação e da comunicação. Basta circular pelos campi das universidades, pelas sedes das empresas ou mesmo pelo Silicon Wadi para perceber que atividades disruptivas estão enraizadas nos laboratórios de investigação de base das universidades.

Entre as IES israelenses, aliás, é comum a presença de escritórios de transferência de tecnologia. De acordo com o Samuel Neaman Institute, vinculado ao governo federal, entre 2004 e 2013 a quota de aplicações de patentes pelas IES representou de 10% a 12% da atividade inventiva do país.

O Yeda Research and Development Company, escritório de transferência de tecnologia do Instituto Weizmann de Ciência, por exemplo, foi classificado como o terceiro mais lucrativo do planeta. Através da colaboração exemplar da universidade-indústria, o Instituto Weizmann e indústrias farmacêuticas Teva descobriram e desenvolveram o Copaxone, medicamento amplamente utilizado no tratamento da esclerose múltipla.

Outra iniciativa de importância é a MindCet, um centro de inovação e tecnologia voltado à educação. Criada em 2013 dentro do Center for Israel Education, responsável por 80% do material educativo do país, a MindCet desenvolve soluções para encurtar o gap entre o sistema educativo e o aluno. Para isso, toma como base a cultura do empreendedorismo e das startups.

O centro de inovação e tecnologia tem como vice-presidente a carioca Cecília Waismann, que há quase 40 anos vive fora do Brasil. Em 2018, ela concedeu entrevista ao Desafios da Educação, quando falou sobre as atividades da MindCet. “Nosso forte é atuar junto a empresas”, disse ela. “Quando uma empresa desenvolve uma nova tecnologia voltada à gestão ou ao varejo, fazemos uma parceria para estudar a solução de modo a também aproveitá-la à educação.”

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GPS da tecnologia israelense

Sem fins lucrativos, o projeto Start-Up Nation Central dedica-se desde 2013 a conectar o mundo a tudo que acontece no campo da inovação em Israel. Guy Hilton, que dirige a iniciativa, explica que a ONG funciona como um GPS no ecossistema de tecnologia local. O objetivo principal é conectar corporações, governos e organizações a soluções inovadoras desenvolvidas em Israel.

Em artigo escrito para a Forbes, Hilton explica que o Start-Up Nation Central parte da premissa dos chamados cinco “ingredientes únicos de Israel” – atributos elencados por Senor e Singer em Nação empreendedora. São eles: necessidades existenciais, espírito empreendedor, imigração generalizada, ênfase no aprendizado e dever militar.

“Acreditamos que as únicas áreas onde Israel não é limitado pelo tamanho são a qualidade das ideias e seu espírito inovador”, afirma Hilton.

Com a ferramenta Start-up Nation Finder, é possível encontrar projetos inovadores e informações críticas sobre mais de 5,5 mil empresas. O foco do buscador é criar um engajamento de líderes empresariais, governos, ONGs e instituições acadêmicas mundo afora, conectando-os às soluções e inovações para resolverem problemas.

Adriane Kiperman
Adriane Kiperman é diretora editorial do Grupo A Educação e membro do Conselho Editorial do portal Desafios da Educação e das Revistas Pátio.

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