Cecilia Waismann: atual sistema de ensino é entrave para educação digital

Vice-presidente da MindCet, Cecilia Waismann cita os desafios da educação digitalA carioca Cecília Waismann (na foto acima) vive há 38 anos longe do Brasil. Depois de se formar em Psicologia na PUC-RJ, viajou à Inglaterra para fazer mestrado e doutorado – e nunca mais voltou. Em solo britânico, trabalhou em projetos no campo da saúde mental. Posteriormente, já no ramo educacional, atuou na Espanha e em Israel, onde ocupa o cargo de vice-presidente da MindCet, um centro de inovação e tecnologia voltado à educação. “Tive sorte ao ser convidada para trabalhos muito apaixonantes”, diz ela, sobre a vida na Europa.

Em entrevista exclusiva ao Desafios da Educação, Cecília comenta as vantagens da tecnologia na educação – como chatbots, gamificação, realidade virtual e machine learning. A psicóloga também critica os atuais sistemas de ensino: “É um desafio para as crianças de hoje, expostas desde cedo a modelos digitais e autônomos, adaptarem-se a classes com processos de aprendizagem tão antiquados. Essa diferença é um problema global muito sério”. Confira a entrevista:

Como a tecnologia pode impactar a educação?
De forma revolucionária. Hoje, infelizmente, os alunos lidam com um sistema de ensino obsoleto. Isso ocorre na Finlândia, nos Estados Unidos, no Brasil e em qualquer outro país. São sistemas de ensino ultrapassados, que motivam o estudante a ficar desconectado durante a aula. Muita gente considera doença o déficit de atenção, mas eu encaro isso como reação saudável das novas gerações ante o sistema obsoleto de ensino. É um desafio para as crianças atuais, expostas desde cedo a modelos digitais e autônomos, adaptarem-se em classes com processos de aprendizagem antiquados. Para os alunos, esses sistemas são antinaturais. Essa diferença é um problema global muito sério.

E como a MindCet entra nessa revolução da educação digital?
A MindCet foi criada em 2013 como parte do Center for Israel Education, responsável por 80% do material educativo de Israel. Nosso núcleo foi pensado justamente para criar soluções que reduzam o gap entre o sistema educativo e o aluno. São modelos baseados na cultura do empreendedorismo e das startups, empresas que, com muita tecnologia, estão revolucionando a indústria – seja ela automobilística, petrolífera, têxtil e, claro, educacional.

Você poderia citar alguns projetos?
Para professores, temos um programa de entreperneurship e de implementação de tecnologia inovadora à prática diária. Mas nosso forte é atuar junto a empresas. Por exemplo: quando uma empresa desenvolve uma nova tecnologia voltada à gestão ou ao varejo, fazemos uma parceria para estudar a solução de modo a também aproveitá-la à educação. Fizemos isso com várias universidades e empresas como Microsoft, Google e Intel, entre outras.

“É lamentável, mas, de todas as indústrias do mundo, acho que a educação é a mais difícil para inovar”.

Nesse sentido, o projeto de chatbot desenvolvido com a Microsoft é muito interessante.
Esse projeto começou antes mesmo do MindCet, em 2007. A Microsoft estava desenvolvendo um chatbot para vender seus serviços. Daí surgiu a ideia de que a educação talvez pudesse se interessar. Naquela época, ninguém pensava nisso [chatbot para educação]. Então entramos no projeto e fomos explorando algumas possibilidades. Trouxemos dois empreendedores e desenvolvemos, em seis meses, uma solução educacional com chatbot. Ele ajuda os alunos a estudarem para provas e exames – já que disponibilizamos todo material educacional de que os alunos precisam na ferramenta criada pela Microsoft.

Na área de gamificação, o que vocês já fizeram?
Utilizamos a gamificação em um projeto para o Instituto Weizmann de Ciências em Israel, por exemplo. Foi um jogo digital para alunos de ensino básico, onde a criança aprende por meio de sistemas complexos e, consequentemente, desenvolve habilidades especificas da computação que são tão básicas e fundamentais aos estudantes da era digital.

Qual a relevância dos jogos no aprendizado?
Os jogos são de extrema importância para a formação do aluno. Muitos educadores estão apostando nisso. Outros, porém, resistem à inovação. E, quando resistem, não oferecem alternativa. Como resultado, as novas gerações vão buscar suas próprias soluções. É preciso oferecer alternativas educativas que respondam à necessidade do aluno da era digital.

Além dos games, fala-se muito em inteligência artificial – como o Watson, da IBM, para educação.
Esse é um projeto que estamos desenvolvendo com a IBM e que será apresentado na nossa conferência anual – chamada Shapping the Future, que ocorre em setembro, em Israel. Nessa edição, vamos focar no modo como a inteligência artificial (AI, na sigla em inglês) pode ajudar e mudar significativamente a maneira com que os alunos estão aprendendo. Não quer dizer que inteligência artificial seja a principal solução da educação digital, mas ela é importante – assim como chatbots, jogos e o uso do smartphone em sala de aula.

Voltando ao sistema educacional: não é paradoxal que um setor tão bem informado esteja ultrapassado?
É paradoxal a nível conceitual. Como pode o sistema que educa as crianças para um mundo digital ser o resistente a modelos adequados à inovação? O grande problema é que a maior parte do sistema educacional é público. São governos burocráticos e que gastam um pressuposto importante para manter toda a estrutura do jeito que ela é. Transformar essa lógica não é fácil, porque também envolve uma mudança de mindset de professores, diretores e pedagogos que dependem do sistema atual. É lamentável, mas, de todas as indústrias do mundo, acho que a educação é a mais difícil para inovar. A única solução que vejo é a colaboração. Aqui na MindCet, temos uma espécie de joint venture global, com muitas universidades a fim de apoiar e criar espaços livres onde startups tragam inovação para educação. Para mim, esse é o caminho.

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FOTO EM DESTAQUE: CECILIA WAISMANN, VP DA MINDCET. CRÉDITOS: MINDCET/DIVULGAÇÃO.