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O que as pesquisam indicam sobre a carreira docente no Brasil

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Depressão, baixa remuneração, falta de valorização e alto índice de violência estão entre os problemas enfrentados pelos professores no Brasil. Crédito: Cecília Bastos/USP Imagens.

A nova série do portal Desafios da Educação, publicada em julho, foca no dia a dia do professor. As reportagens mostram desde caminhos para o desenvolvimento de competências técnicas, socioemocionais e digitais (cada vez mais valorizadas), até novas oportunidades – como o curador de conteúdo.

No entanto, a carreira docente no Brasil tem muitos gargalos. Desvalorização, baixos salários, capacitação defasada, alto índice de casos de depressão e ansiedade: o panorama não é nada favorável, de acordo com pesquisas e estudos.

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Carreira docente em baixa

Um levantamento realizado em 2018 pelo Ibope Inteligência em parceria com o Todos Pela Educação mostra que quase metade dos professores brasileiros, 49%, não recomenda a carreira docente.

São vários motivos para o descrédito, a começar pela graduação: o país ainda não consegue atrair os alunos com melhor desempenho do ensino médio para a licenciatura. Além disso, os cursos não são antenados à realidade – desconsiderando os atuais desafios da profissão.

Má formação

Um reflexo desse desprestígio: não é comum aulas de matemática serem ministradas por docentes sem formação na área.

De acordo com o Anuário Brasileiro da Educação Básica 2019, apenas 48,7% dos professores do 6º ao 9º ano do ensino fundamental tinham formação superior compatível com as disciplinas que lecionaram em 2018. No ensino médio, o valor foi de 56,3%.

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Os baixos salários também estão entre os gargalos do setor.

De acordo com um levantamento feito pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 48 países, os docentes brasileiros recebem remuneração equivalente a US$ 13 mil anuais – US$ 1.164 por mês. Na Dinamarca, país com os melhores salários, os professores chegam a receber US$ 42 mil anuais, o que equivale a US$ 3.570 mensais.

O levantamento também mostra que os professores brasileiros não têm ganho salarial ao longo dos anos trabalhados. Até mesmo na Hungria, penúltimo colocado, os professores do ensino fundamental iniciam recebendo US$ 14 mil anuais, mas após 15 anos recebem cerca de US$ 20 mil, podendo chegar a US$ 27 mil no auge da carreira.

“Estamos ficando para trás”, escreve Carolina Tavares, líder do movimento Profissão Professor, em artigo publicado no Anuário, ao comparar o Brasil a outros países.

No Chile, por exemplo, existem políticas para atrair os alunos do ensino médio com melhor desempenho, com o estabelecimento de uma nota mínima no “Enem” chileno para ingresso na licenciatura. São políticas que valorizam a carreira docente.

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Outro países da América Latina, como México e Peru, também apostam em políticas de atratividade e de reestruturação semelhantes.

Violência em sala de aula

O Brasil lidera o ranking da OCDE de violência contra professores. O levantamento foi divulgado em abril passado e toma como base dados de 2013. Naquele ano, 12,5% dos professores brasileiros tinham relatado ser vítimas de agressões verbais ou de intimidação de alunos pelo menos uma vez por semana.

Os pesquisadores ouviram mais de 100 mil professores e diretores de escolas do ensino fundamental e do ensino médio em 34 países. A média geral ficou em 3,4%.

Esse alto índice de agressão pode ser explicado pela falta de valorização pelo professor, onde o país também é líder.

Desvalorização

O Brasil é o país que menos valoriza os professores. Crédito: reprodução.

O estudo Global Teacher Status Index 2018, realizado pela Varkey Foundation, entrevistou mil pessoas em 35 países para comparar, em termos de valor para a sociedade, o emprego do professor a outras ocupações.

A China é o mais país que mais valoriza seus educadores. Por lá, a importância do professor é equiparada à dos médicos. Já aqui, em termos de status social, os professores foram comparados aos bibliotecários.

Fora isso, a pesquisa também avaliou o respeito dos alunos pelos professores. O Brasil foi último colocado: menos de 10% dos entrevistados acreditavam que os alunos respeitavam seus professores.

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Qualidade digital

De acordo com a pesquisa Professores do Brasil: Novos Cenários de Formação, publicada pela Fundação Carlos Chaga, em parceria com a Unesco, de 2005 a 2016 o total de matrículas em cursos de licenciatura a distância em instituições de ensino privadas aumentou 1500%, passando de 35 mil alunos para 560 mil.

No livro, os autores questionam a qualidade dos cursos de licenciatura oferecidos na EAD. Das 944 mil matrículas realizadas em IES privadas, em 2016, 36,6% foram na modalidade. Nas instituições públicas, a taxa foi de 5,4%.

Saúde mental

Por meio da Lei de Acesso à Informação, o SBT e o jornal Agora São Paulo publicaram recentemente dois levantamentos que dão dimensão sobre a saúde mental dos professores de São Paulo. E as notícias não são nada boas.

De acordo com o SBT, 45 professores da rede estadual pedem afastamento do cargo diariamente. As causas mais frequentes são ansiedade e depressão. A rede dispõe de 190 mil professores.

O jornal Agora, fazendo um recorte municipal, mostrou que na capital paulista o estresse, a depressão, a ansiedade e a síndrome do pânico estão entre os problemas psiquiátricos que levaram à concessão de 62 licenças, por dia, em média, entre educadores. A rede tem cerca de quase 63 mil educadores.

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Confira a série Formação de professores

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