Avaliação

Por que a OCDE “reprova” o modelo do Enade

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Aluno em ação: em relatório, OCDE apontou falhas na concepção, nos métodos de avaliação e no objetivo geral do Enade. Crédito: Luenne Neri/USP Imagens.

Em um recente relatório, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), uma das principais cúpulas de fomento ao crescimento econômico mundial, não poupou críticas ao modelo de avaliação do ensino superior brasileiro.

O parecer da OCDE é que o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) como um todo apresenta “significativas fraquezas”. A crítica vai desde a sua concepção até a avaliação dos resultados.

A prova, aplicada em todo país desde 2004, tem como objetivo avaliar o aprendizado e as habilidades de estudantes de universidades públicas e privadas. O que, para a OCDE, é algo irreal: “Nenhum teste padronizado é capaz disso”.

Em 2017, só 5,9% dos 10.570 cursos avaliados no Enade – bacharelados e licenciaturas na área de ciências exatas e afins, além de cursos superiores de tecnologia – conseguiram nota máxima. O desempenho no exame é medido por uma escala de faixa que vai de 1 a 5.

A maioria dos cursos brasileiros (39,1%) tem conceito 3, mediano; 28,1% dos cursos obtiveram nota 2; 21,9% tem conceito 4. Outros 5% tem conceito 1. Entre as graduações presenciais e aquelas ministrados a distância, 6,1% dos presenciais tiveram conceito 5. Na EAD, apenas 2,4% tem nota máxima.

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O ciclo do Enade é trienal. A cada ano uma área diferente é avaliada nas instituições. São 40 questões a serem respondidas, sendo 25% de formação geral, que leva em conta atuação ética. O resto do exame é composto por questões específicas relativas ao conteúdo do curso.

Os problemas do Enade

Segundo o relatório da OCDE, um dos problemas do Enade é a forma de participação dos alunos. Embora o exame seja obrigatório, o resultado obtido não tem peso sobre o histórico escolar. A organização afirma que grande parte daqueles que fazem a prova deixam questões em branco.

O relatório também aponta falhas na elaboração do exame, uma vez que os resultados não podem ser comparados entre diferentes edições. Assim, não é possível avaliar se um curso melhorou ou piorou de qualidade durante os anos. O relatório ainda faz críticas à maneira como o resultado é aplicado nas instituições, já que as faculdades e os professores não os aproveitam para identificar o que é preciso melhorar em seus cursos.

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Sobre a parte de formação geral, a OCDE lança mais dúvidas. Para a organização, é questionável que o exame exija que alunos de diferentes graduações saibam conhecimentos e tenham habilidades genéricas como as que são cobradas.

Além disso, afirma que o conteúdo pode engessar os cursos, uma vez que as graduações podem se inspirar na última prova para os planos de ensino – com foco tão somente em tirar uma nota melhor no Enade seguinte. Isso levaria os cursos a inibirem a inovação.

Outro ponto negativo é a forma como o desempenho dos alunos é avaliado. “As pontuações no Enade são simplesmente números. Não é possível saber se os alunos que estão em cursos que atingiram 50% ou 60% de acertos na prova apresentam desempenho bom ou ruim.”.

O relatório da OCDE sugere, por fim, uma reformulação completa do Enade, de modo que instituições de ensino superior e professores sejam capazes de solucionar fraquezas percebidas e evitem desperdiçar dinheiro público. Para a aplicação de 2017, por exemplo, o custo foi de R$ 118 milhões.

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