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Mais do que personalizar a aprendizagem, é preciso humanizar a educação

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As práticas do ensino personalizado podem ser bem-vindas em sala de aula. Mas os professores devem ir além. Crédito: Pexels.

Por Randy Weiner*

Em dez anos, eu tive o privilégio de participar de diversas arenas educacionais. Co-fundei uma escola charter [escola pública independente nos Estados Unidos, que adota uma lógica de gestão privada] e uma edtech, além de oferecer consultoria para escolas e gestores de aprendizagem personalizada.

Normalmente, ficaria muito engajado com a ideia de apoiar o desenvolvimento do conhecimento de alguém (além de aprofundar o meu próprio) e em internalizar diferentes perspectivas sobre como podemos atender melhor os alunos por meio de uma aprendizagem mais personalizada.

Mas talvez essa não seja a solução que precisemos agora. Atualmente, tenho sentido que, apesar de todas as boas intenções, estamos deixando passar um ponto importante. Não estamos vendo as pessoas na aprendizagem personalizada.

Na preparação para a edição 2018 do SXSW EDU [uma conferência internacional de inovação na educação], li sobre como a aprendizagem personalizada seria abordada no evento e experimentei um enjoo profundo. O desconforto que senti na boca do meu estômago veio da dificuldade de digerir as orientações (bem-intencionadas) sobre como implementar a aprendizagem personalizada em um momento em que os crimes de ódio têm aumentado ano após ano.

Pessoas privilegiadas – me incluo nessa – talvez tenham de apertar o pause na aprendizagem personalizada. Pelo menos por enquanto.

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O caminho para humanizar a educação

Eu não questiono o valor de buscar entender e praticar a aprendizagem personalizada da melhor forma possível. Acredito, no entanto, que agora não podemos fazer nada além do que mudar apenas as bordas da realidade de nossos alunos – especialmente neste momento em que os Estados Unidos parece estar fazendo mais para desumanizar as crianças do que já fez em 20 ou 30 anos.

Até que os adultos parem de assassinar nossos jovens simplesmente por serem o que são, precisamos focar em como humanizar, ao invés de personalizar, a noção que temos de nossos filhos e sua educação – assim como nossa percepção individual.

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As ideias que estruturam as práticas de aprendizagem personalizada são sempre bem-vindas em sala de aula, mas o nível de confusão que o termo gera sugere que talvez possa existir um melhor enquadramento linguístico que catalise impacto dessa alternativa. Talvez em um aceno ao que o termo representa, não existe uma única definição do que seja de fato a aprendizagem personalizada, algo que torna sua execução ainda mais desafiadora.

Os professores, muito compreensivelmente, questionam se a aprendizagem personalizada não se trata apenas de mais uma pedagogia do passado empacotada como novidade. Ou até mesmo até que podem adentrar nessa estrada sem de fato sabem aonde ela leva.

As definições do termo também raramente refletem o elemento principal do “personalizado”, que é o foco no indivíduo. Por exemplo, uma pessoa, por definição:

  • Não vai se preocupar com o conteúdo que está na sua “zona de desenvolvimento proximal”
  • Não necessariamente se conecta a um professor por estar em um grupo pequeno
  • Não prospera apenas porque lhe são oferecidos planos de aula diferenciados

Nenhum dos pontos acima são más práticas, tampouco são a priori práticas personalizadas ou humanizadas. E sem um foco humanizado podemos acabar desperdiçando o tempo dos alunos.

Fora isso, a palavra humanizar é universalmente mais compreensível do que a expressão aprendizagem personalizada. E mais importante, o oposto de humanizardesumanizar – pode ser entendido bem mais fácil também.

O conceito de humanizar faz mais sentido para nós. Sabemos como é uma experiência de desumanização e sabemos como enxergar um aluno como indivíduo, com todas as suas peculiaridades e complexidades únicas de personalidade. É uma mudança sutil na terminologia, mas que pode fazer mais professores reavaliarem suas práticas de maneira mais fácil, pensando em termos de humanização da aprendizagem versus personalização da aprendizagem.

Tome as duas assertivas a seguir como exemplo. Qual delas parece mais facilmente aplicável a todos os alunos?

Aprendizagem no ritmo individual leva a melhores resultados dos alunos

ou

É uma má ideia dizer aos alunos que eles podem não conseguir algo por serem quem são

A primeira pode ser implementada com naturalidade por alguns professores, mas também pode exigir uma bagagem complexa para outros, como analisar quais alunos estão progredindo muito rápido ou muito devagar.

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A segunda é mais parecida com um Juramento de Hipócrates educacional. Nós não devemos dizer às crianças que elas não podem fazer algo por causa de quem elas são – seja pela cor da pele, pela maneira como falam, por sua personalidade ou por qualquer outra desculpa inventada para a discriminação. Seria difícil (embora infelizmente não impossível) não criticar essa posição. Essa lógica pode ser muito benéfica, já que as necessidades dos alunos mais desfavorecidos começam surgem a partir de seu desejo de humanização.

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Outra coisa: é preciso mesmo explicar detalhadamente algo que chega a ser dolorosamente óbvio? Quando olhamos os Estados Unidos e vemos o futuro de tantos alunos – em especial as crianças negras – fadado às práticas desumanizadoras (intencionais e não intencionais) que acontecem todos os dias dentro e fora das salas de aula, essa simplificação quase soa como um insulto.

O impacto da boa relação entre professor e aluno é um tema amplamente pesquisado. E pode ser uma das melhores maneiras de explicar o impacto da educação humaniza na prática. Muitos creditam o sucesso da relação entre educador e educando à excelência do professor em questão. No entanto, suspeito que essa excelência só aconteça a partir do desenvolvimento de relações humanizadas com os alunos, criando a base para a educação que virá depois.

Há muito o que pode ser feito para melhorar a conexão entre professores e alunos. Podemos começar por pontos simples: o quanto de apoio os professores têm para se conectar de forma consistente e significativa com as famílias dos estudantes? Ou ainda: os professores chegam a pelo menos conhecer os pais dos seus alunos? O que é necessário para humanizar crianças que não se enquadram no padrão do corpo docente da instituição? É possível dizer que foi feito todo o possível para reconhecer a humanidade desses indivíduos?

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Acredito que a resposta para todas essas perguntas seja “não”. É leviano continuar lutando com o que é (ou parece ser) uma aprendizagem personalizado sem se concentrar na humanidade dos alunos.

Se for imprescindível, ainda podemos oferecer aos alunos essa mistura da salada de frutas que são os conceitos educacionais. O apelo para humanizar a educação não é uma desculpa para adiarmos a entrega de um “menu de conteúdo rigoroso, adaptável e consciente, com espuma infundida de aprendizagem socioemocional, servida sob uma cama do ensino STEAM, baseado na empatia dos estudantes”. Ainda há tempo de encomendarmos esse menu.

No entanto, é importante ressaltar que se olharmos com a devida atenção para as individualidades de cada aluno veremos que não estamos nos movendo rápido o suficiente. Ainda não entendemos como operacionalizar a aprendizagem personalizada em grande escala. E tudo bem. Concentrar nossos esforços em honrar a humanidade de cada aluno pode ajudar a fomentar melhores resultados.

Em contraste com a relativa opacidade da aprendizagem personalizada, algumas perguntas podem ser esclarecidas se estivermos humanizando a educação de um aluno:

  • Eu vejo meus alunos por quem eles são e podem ser? E eles percebem isso?
  • Eu fiz uma nova conexão ou aprofundei o relacionamento com os alunos?
  • Como cada um dos meus alunos saberia que eu realmente me importo com eles?
  • Eu demonstrei minha própria humanidade aos meus alunos?
  • Eu fiz alguma coisa para oprimir a humanidade de um aluno?

Ao humanizar a educação, podemos ter certeza de que também a personalizamos. O inverso não é necessariamente verdade e aí reside o problema. Vamos sair de nossas bolhas e ir direto ao cerne da questão: nenhuma quantia de aprendizagem personalizada vai conseguir preencher o buraco que criamos quando deixamos de reconhecer a humanidade de um aluno.

*Texto originalmente publicado pelo EdSurge, com tradução e edição do portal Desafios da Educação.


Sobre o autor

Randy Weiner é ex-professor do ensino fundamental, co-fundador da escola charter e CEO da BrainQuake, plataforma que desenvolve aplicativos e jogos para melhorar a proficiência dos alunos em matemática.

Redação
A redação do portal Desafios da Educação é formada por jornalistas, educadores e especialistas em ensino básico e superior.

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