Ensino Básico

Em expansão no Brasil, pedagogia Waldorf completa 100 anos. Sem aderir ao digital

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pedagogia Waldorf

Na contramão do ensino reforçado por computadores e smartphones, instituições de pedagogia Waldorf valorizam aspecto manual. Crédito: Colégio Micael/divulgação.

Contrariando uma tendência mundial, pelo menos 250 escolas brasileiras evitam o uso de computadores e outros recursos tecnológicos em sala de aula. Se for para ensinar e aprender por meio de telas, que sejam as de pintura.

“Temos um currículo diversificado que vai além do convencional, ampliado por meio das artes, da música, do teatro e de trabalhos manuais que contribuem para a formação da criança”, diz Denise Seignemartin, presidente da Federação das Escolas Waldorf no Brasil (FEWB), principal representante das instituições de pedagogia Waldorf.

O método de ensino, baseado nas ideias do filósofo austríaco Rudolf Steiner (1861-1925), completa 100 anos em 2019 e permanece fiel à linha original – de trabalhar o desenvolvimento da criança (físico, social e individual) por meio de atividades manuais e do contato com a natureza.

Aqueles que endossam a abordagem dizem que os computadores inibem o pensamento criativo, o movimento, a interação humana e os períodos de atenção.

Expansão das escolas Waldorf

Hoje, as 250 unidades Waldorf não chegam a representar 0,2% do setor – segundo o Censo Escolar da Educação Básica de 2018, o Brasil tem 184,1 mil escolas. No entanto, desde que foi criada, em 1998, a FEWB registrou um crescimento superior a 200% no número de estabelecimentos dedicados à pedagogia.

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Escola Waldorf Rural Turmalina, em Paudalho, Pernambuco. Crédito: divulgação.

Atualmente, 88 são ligados à federação e mais 170 estão em processo de filiação. (A primeira escola foi criada em 1956, em São Paulo.) Distribuídas por 21 estados brasileiros, essas instituições agregam 16 mil alunos e cerca de 1,7 mil professores.

Em nível global, 3,1 mil instituições de educação infantil, fundamental e médio apostam na pedagogia Waldorf.

“Esse crescimento ocorre porque, em diferentes partes do mundo, os pais reconhecem que há desafios contemporâneos complexos a serem enfrentados – e que a escola precisa estar conectada a essas questões”, afirma Seignemartin.

Leia mais: Metodologia Waldorf se expande e ganha primeira faculdade no Brasil

Escola que enxerga o ser humano

Para a empresária Camile Lewczynski, as crianças de hoje passam tempo demais dentro de casa, em espaços reduzidos e sem contato com a natureza. O mesmo acontece nas instituições de ensino.

Mas não na escola Querência, localizada na zona sul da capital gaúcha. Lá, explica Lewczynski, suas duas filhas podem brincar ao ar livre, usufruir do jardim, explorar o terreno e, sobretudo, se autoconhecer. “Isso é muito mais importante do que a pressa para absorver conteúdo.”

O que também chama atenção de Lewczynski é a grade curricular da escola – que oferece aulas de marcenaria, línguas, educação física e outros temas que estimulam a cognição, além da parte emocional e física da criança.

A não exigência de provas também é um ativo, na opinião da empresária. “Como a criança vai ser avaliada por uma prova, se naquele dia ela brigou com o pai ou não conseguiu dormir direito? Acredito numa escola que enxergue o ser humano como um ser integral e não como alguém que precisa decorar um conteúdo para fazer uma prova amanhã”, diz Lewczynski.

Fabiane Gali, também de Porto Alegre, concorda. Suas três filhas nasceram de parto humanizado e ela decidiu que a educação das meninas deveria seguir a mesma ideia: sem pressa e respeitando o tempo de cada indivíduo.

A pedagogia Waldorf fez muito sentido para ela. Tanto que se juntou ao marido e a outros pais para fundar quatro escolas do gênero.

“A gente acredita que essa é uma educação adequada para os tempos de hoje, porque respeita o ser humano e seu desenvolvimento. É uma pedagogia que integra o pensar, o sentir, o querer e ainda trabalha com propósito de vida”, afirma Gali.

Leia mais: Ambiente aberto à criatividade é um dos desafios da educação contemporânea

Na raiz do método

A metodologia Waldorf segue os princípios da Antroposofia. Nela, o ensino é direcionado ao entendimento holístico de questões materiais, emocionais e espirituais do ser humano – indo além da mera transmissão de conhecimento.

O conteúdo, aliás, é transmitido de acordo com a fase de desenvolvimento do estudante, de modo que ele possa distinguir dentro de si as experiências para as quais está apto a viver.

Ao entrar na escola, a criança é estimulada pela curiosidade e alcança pouco a pouco o domínio da linguagem, da escrita, dos números e da ciência. A alfabetização só acontece após os sete anos de idade, quando se entende que a criança atingiu maturidade para tal – o Ministério da Educação (MEC) defende a introdução ao processo de alfabetização antes desse período, até os sete anos.

A julgar pelo histórico, a abertura crescente de escolas Waldorf é iminente tanto no Brasil quanto no mundo. A FEWB oferece às atuais instituições apoio jurídico, formação docente e tutoria para as novas unidades, além de mobilizar os pares para a realização de encontros e congressos.

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