Empregabilidade

Por que a instituição de ensino deve entender a “contratação às cegas”

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Escritório da Nubank no Brasil. Crédito: Divulgação.

O ensino por competências ainda engatinha no Brasil. Mas, a julgar pelo debate e pelas pesquisas recentes, a metodologia tende a ganhar força no país. Motivo: é cada vez mais difícil aproximar os estudantes de uma boa colocação profissional sem que os currículos dos cursos contemplem as habilidades exigidas pelo mercado.

A novidade é que a contratação baseada nas competências do candidato, antes restrita às fases finais do processo de recrutamento, agora entra cena nos primeiros contatos entre a empresa e o postulante à vaga. Também chamada de “contratação às cegas”, ela começa a partir de testes práticos realizados pela internet. Dados como nome, idade, endereço e local onde estudou, ficam para depois.

Há duas razões preponderantes para o fortalecimento da contratação às cegas.

A primeira é porque as organizações procuram alto rendimento. Por isso, as avaliações focam mais nas habilidades técnicas e aptidões do candidato, aumentando assim a chance de a empresa fazer escolhas mais certeiras nas admissões. “A empresa quer qualidade na contratação e um time com experiências diversas”, explica Larissa Armani, especialista em programas de recrutamento do Google, em entrevista ao Valor. A multinacional possui um comitê de contratação às cegas.

Leia mais: Países precisam aperfeiçoar ensino por competências, indica estudo

O outro motivo é que, além de garimpar profissionais mais competentes, a contratação às cegas ajuda a reduzir a influência de preconceitos inconscientes nas decisões. Assim, é possível assegurar que mulheres e homens tenham as mesmas oportunidades, independentemente de raça, gênero ou orientação sexual.

Na Nubank, empresa de tecnologia financeira que atua na emissão de cartões de crédito, a contratação às cegas existe desde março de 2016. O método é aplicado para a seleção de engenheiros de software e de soluções móveis, onde a maioria dos postos é ocupada por homens.

Karen Zanlutti, 35 anos, foi contratada como engenheira de software a partir do modelo. Conforme relatou à Folha de S. Paulo, em vez do currículo, sua primeira avaliação levou em conta o desempenho na hora de escrever um código. Seus futuros colegas analisaram o exercício sem saber nada sobre ela. “Sabiam do que eu era capaz. Não tinha ninguém me julgando, e a pressão foi menor. Em várias situações em minha vida senti que precisava me provar muito para ser ouvida”, disse.

Para Rodrigo Madeira, gerente de novos negócios no Grupo A Educação, a técnica é importante para desconsiderar preconceitos e dar mais igualdade ao quadro de colaboradores. Porém, os departamentos de recursos humanos precisam entender que a contratação às cegas não é um fim em si mesmo.

“A contratação às cegas serve como excelente filtro inicial, mas o desafio é fazer com que tenha o mesmo peso nas demais etapas de seleção”, diz Madeira, que também é responsável pela Symplicity, plataforma global de empregabilidade que integra instituições de ensino, empresas, estudantes e ex-alunos. “Apesar de valorizar as habilidades técnicas, a contratação às cegas precisa de uma etapa presencial para que a contratante identifique se o perfil do candidato se encaixa na cultura da empresa.”

O executivo diz que o movimento, assim como o ensino por competências, ainda é incipiente no Brasil. Mas está cada vez mais institucionalizado no exterior, sobretudo na Europa. Na França, por exemplo, há uma lei que obriga organizações com mais de 50 funcionários a adotarem o recebimento do currículo às cegas.

A medida francesa busca evitar que históricos profissionais de estrangeiros, agora recorrentes em função dos novos fluxos de imigração, sigam para o lixo antes de chegarem às mãos das chefias, segundo o Valor.

O novo modelo de currículo também evita informações como endereço, idade, origem, gênero e foto. Até o e-mail para contato é diferente: tem apenas as iniciais do candidato para dificultar a identificação.

Além da França, empresas na Espanha, Reino Unido, Finlândia, Holanda e Suécia abraçaram a prática voluntariamente. O Brasil, aos poucos, caminha na mesma direção. Mais um motivo para que as instituições de ensino superior valorizem a diversidade e o desenvolvimento de competências.

Leia mais: Por que se fala tanto em competências para a educação? 

Leonardo Pujol
Leonardo Pujol é editor do Desafios da Educação e sócio-diretor da República – Agência de Conteúdo.

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