Ineficiência na educação básica compromete desenvolvimento cognitivo

O estímulo à criatividade e à imaginação são ferramentas para o desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes
O estímulo à criatividade e à imaginação são ferramentas para o desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes (Foto: Visual Hunt)

Estimular a ciência e desenvolver tecnologias competitivas é uma tarefa extremamente complexa, é verdade. Os resultados, porém, falam por si. Países que investem pesado nessas áreas dificilmente não se destacam entre os mais desenvolvidos do mundo. São os casos de Suécia, Estados Unidos, Singapura e Finlândia, bandeiras carimbadas entre os mais inovadores do Índice Global de Inovação, elaborado pela Universidade Cornell, de Nova York, Estados Unidos. No mesmo ranking, o Brasil aparece apenas na 69ª posição, na metade de baixo de uma tabela que analisa 127 economias – atrás de países como Barein, Panamá e Vietnam.

Especialistas são unânimes ao dizer que a educação pode impulsionar o avanço na ciência – especialmente nas fases iniciais do ensino. Através do desenvolvimento cognitivo, crianças aprendem a raciocinar e associar acontecimentos – ações mentais que treinam memória, atenção, imaginação e linguagem. Como resultado, esse processo cria um terreno favorável ao conhecimento.

O problema, no Brasil, reside no fato de que o desenvolvimento cognitivo não costuma ser encarado como prioridade. “A educação brasileira desestimula crianças e jovens, e vai minando as potencialidades naturais do ser humano de criatividade e iniciativa”, explica Isaac Roitman, doutor em Microbiologia, professor emérito da Universidade de Brasília (UnB) e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Segundo ele, o estudante sai da educação básica sem preparo cognitivo para ingressar no ensino superior. “Como consequência, temos um contingente de recursos humanos que despreparado para o mercado de trabalho, especialmente no desenvolvimento científico e tecnológico”, avalia. Roitman detalha o assunto no artigo Queima cognitiva das crianças brasileiras: pior que a da Amazônia, assinado em parceria com físico-químico Sérgio Mascarenhas, presidente de honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e também membro da ABC.

Os autores relacionam os danos ambientais causados pelas queimadas à falta de investimento no desenvolvimento cognitivo no Brasil – onde a educação é tão prejudicada quanto o meio ambiente. Aqui, não faltam indicadores para atestar a dura realidade. Em 2017, por exemplo, o Ministério da Educação teve um corte de R$ 4,3 bilhões em seu orçamento. O último levantamento do Programa Internacional de Avaliação dos Alunos (Pisa), realizado em 2015, evidencia o baixo desempenho dos alunos brasileiros em ciências (63º posição) e matemática (65º posição).

Em matemática, inclusive, os estudantes apresentaram um dos piores resultados do Pisa: 377 pontos, contra uma média global de 490. O ranking, elaborado a partir de testes de aprendizagem com estudantes de 15 e 16 anos, posicionou Singapura, Japão e Estônia como os primeiros colocados não apenas nas disciplinas, mas também em engajamento e motivação nas ciências.

Mudança de rota

Para Roitman, a escola precisa ser um espaço lúdico, um ambiente que encante o estudante. Além disso, ela deve manter uma relação permanente com a família e a comunidade em que está inserida. Para que o desenvolvimento cognitivo – e a capacidade de conhecimento decorrente desse processo – seja estimulado, as escolas devem oferecer conteúdos adaptados à pedagogia contemporânea, além de espaços que estimulem a aprendizagem.

“Preparar os alunos para fazer ciência implica em preparar o professor. Ele não pode apenas repassar conhecimento, suas aulas devem ser expositivas, ligadas à solução de problemas. Em todas as atividades, o exercício do pensar deve predominar assim como se desenvolver a autonomia e o senso crítico”, avalia Roitman. “É igualmente importante estimular a curiosidade, ter acesso a laboratórios, feiras de ciência, olimpíadas e museus.”

A neurociência estabelece que o desenvolvimento na primeira infância – fase que compreende crianças de 0 a 3 anos de idade – favorece o estímulo às conexões de neurônios. Essas simples ligações acabarão fazendo a diferença no processo cognitivo ao longo da vida. No campo pedagógico, o auge do estímulo acontece entre os 3 e os 14 anos.

“As primeiras experiências precisam ser boas do ponto de vista psicológico. A criança precisa ter sucesso para continuar aprendendo. Ninguém quer continuar estudando quando fracassa uma vez”, afirma a pedagoga Beatriz Dorneles, professora titular na Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e no Programa de Pós-graduação em Educação da instituição.

LEIA MAIS: A neuroeducação como elo entre a medicina e o ensino

Segundo ela, crianças mais escolarizadas tem melhor poder cognitivo quando comparadas a crianças que abandonaram os estudos precocemente. E isso também se deve ao método de aprendizagem: metodologias ativas têm mais sucesso que as passivas. “Podemos resumir o desenvolvimento cognitivo em duas necessidades: diversidade de estimulação e interação com diversos meios de aprendizagens”, salienta Beatriz, que é doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano na Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutora pela Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Aprender com quem sabe

A reformulação da educação básica desponta como solução para problemas de desempenho e evasão. A Escola da Ponte, criada em Portugal há 40 anos, é um dos maiores exemplos de ensino público de qualidade. Com método de ensino baseado na educação inclusiva, alunos dos 5 aos 13 anos estudam em uma estrutura sem muros ou salas. O objetivo do projeto é a construção de autonomia e solidariedade a partir de uma convivência ética e cidadã.

Iniciativas de educação inovadora se repetem mundo afora, como a Saunalahti School, na Finlândia – onde um prédio de 10.000 m² funciona durante dia e noite para oferecer biblioteca e serviços médicos a alunos e ao público externo. Seguindo essa tendência de disrupção pela infraestrutura, a Fazenda Canuanã, na zona rural de Formoso do Araguaia, no Tocantins, criou uma escola moderna e sustentável. Como resultado, a construção venceu o prêmio Building Of The Year 2018 de Melhor Edifício de Arquitetura Educacional do mundo.

Para multiplicar esse feito, um dos caminhos possíveis é a federalização das escolas – solução mais adequada, na opinião do educador e senador Cristovam Buarque (PPS). “A educação é uma questão nacional, não é municipal. Deve ser uma preocupação do presidente da República, não do prefeito.”

A federalização é um projeto que pode criar uma carreira nacional para professores e, ainda, estabelecer critérios para abertura de novas escolas. Em dois anos, defende Buarque, esse modelo poderia criar pelo menos 100 escolas de referência. “Projetos que não deixam a desejar em relação às melhores escolas do mundo”, garante o senador. Confira a íntegra da entrevista aqui.