Campus inovadores: o que eles têm?

Para inovar além da estética, as instituições precisam vencer barreiras culturais | Foto: divulgação

Prédios imponentes, com arquitetura estilizada, paisagismo impecável, totens de serviços ultramodernos e ambientes de fomento à criatividade ao melhor estilo Vale do Silício. Funcionalidades assim sugerem um modelo disruptivo de estrutura de campus. E, de fato, surgem cada vez mais espaços em universidades orientados a tornar a aprendizagem muito mais interessante e efetiva.

Antes de pensar somente na estética – ou mesmo em extravagâncias que podem nem ter tanta funcionalidade –, muitas instituições de ensino superior que se destacam pela inovação iniciaram sua jornada trilhando outro caminho: o do rompimento das barreiras culturais. Para especialistas, de pouco adianta um aparato high tech se as aulas ministradas forem predominantemente expositivas e seguirem métodos conservadores.

“A reconstrução do currículo, incluindo a definição das metodologias de ensino mais adequadas ao projeto pedagógico, é o principal elemento que qualquer universidade deveria considerar no processo de inovação”, explica Gustavo Hoffmann, diretor do Grupo A. A opinião de Hoffmann reverbera debates que estão cada vez mais em pauta ao redor do mundo. Nem por isso, no entanto, a infraestrutura construtiva das universidades deve ser deixada de lado.

De acordo com a reportagem  “O campus da inovação: construindo melhores ideias”, publicada recentemente pelo The New York Times, a arquitetura exerce um papel extremamente importante diante das demandas impostas pela academia do século 21. O texto lembra que muitas IES vêm optando por prédios mais despojados, alguns inclusive simulando ambientes de trabalho. Para determinados cursos, por exemplo, a proposta é de que o prédio tenha até mesmo aparência de fábrica – de modo a estimular os estudantes a terem ideias mais produtivas.

Com operações em vários de países, a Laureate International Universities, que tem sede nos Estados Unidos, é um exemplo de instituição que busca o ponto de equilíbrio entre espaço físico e projeto pedagógico. Em dezembro de 2017, a rede anunciou uma reestruturação curricular para a UniRitter, sua maior operação no Rio Grande do Sul. O projeto aumentou a oferta de disciplinas a distância e modernizou conteúdos, direcionando-os à realidade do mercado de trabalho. As mudanças foram implementadas em paralelo à abertura de um novo campus, instalado dentro do Shopping Iguatemi, o mais tradicional de Porto Alegre (RS).

Seguindo macrotendências globais, a estrutura tem salas multiuso com mobília adaptável a cada turma ou proposta de aula. Ao pensar no ambiente acadêmico como espaço de inspiração, a IES dispõe de laboratórios de livre acesso, inclusive com horários estendidos e sem necessidade de agendamento. A proposta segue os moldes de instituições norte-americanas.

Modelos inspiradores

Entre alguns desses exemplos, destaque para o campus Cornell Tech, empreendimento da Universidade de Cornell, em Nova York, orientado à inovação nas áreas de engenharia. “Estar em espaços interativos incentiva o pensamento expansivo, enquanto um aluno enclausurado numa sala é encorajado ao pensamento encaixotado”, afirma Dan Huttenlocher, diretor do Cornell Tech, ao NY Times.

A conveniência de estar em grandes centros também otimiza a mobilidade, facilitando o acesso dos alunos e contrariando preceitos modernistas em evidência ao longo do século 20. A nova lógica anda na contramão das ideias de urbanistas renomados, como Le Corbusier, que defendiam a organização de cidades de maneira setorizada – algo poucas vezes colocado em prática.

Outro exemplo de campus inovador vem da Austrália. Por lá, a Universidade de Wollongong ostenta uma das mais inovadoras e reconhecidas iniciativas de disrupção do planeta. O premiado Innovation Campus abriga diversos institutos de pesquisa, onde é desenvolvido conhecimento para parceiros comerciais e industriais. O diferencial está no acompanhamento ao vivo por parte dos parceiros de tudo que é feito por alunos e professores. Basta fazer um cadastro no site da IES para assistir às lives nos horários em que os grupos de trabalho estão nos laboratórios.

Inovando a educação básica

Seguindo essa tendência de disrupção de espaços, uma escola localizada na zona rural de Formoso do Araguaia, no Tocantins, decidiu inovar sua arquitetura predial. Resultado: o colégio da Fazenda Canuanã criou um espaço moderno, considerando os recursos locais; e acabou levando o prêmio Building Of The Year 2018 de Melhor Edifício de Arquitetura Educacional do mundo.

Estruturada em tijolos de solo-cimento e painéis de palha trançada, a novíssima construção acomoda 780 alunos em turno integral, com amplos espaços e destaque para o conforto.

Mantida pela Fundação Bradesco, a escola existe há mais de 40 anos e acolhe alunos com idades de sete a 17 anos, matriculados nos ensinos Fundamental e Médio. Muitos deles vêm de regiões ainda mais remotas do que Formoso do Araguaia, mais 300 km distante de Palmas, e frequentam a instituição inclusive nos fins de semana. Apesar de contar com alojamento e alimentação, a estrutura não parecia exatamente um lar, pois os estudantes não se sentiam confortáveis nos ambientes totalmente compartilhados. Isso começou a mudar em 2016, quando o Instituto A Gente Transforma deu início à remodelação do prédio.

O trabalho foi conduzido pelo designer Marcelo Rosenbaum. A proposta era transformar a estrutura em uma casa de verdade, com ambientes reservados para a individualidade e a privacidade de seus moradores.

Para elaborar o projeto, os arquitetos pesquisaram a fundo a região, visitando as populações ribeirinhas, caboclas e indígenas, além da casa das famílias dos estudantes. Essa busca de referências revelou-se extremamente útil, pois o projeto adotou soluções sustentáveis empregadas por lá havia gerações. Entre elas, iluminação natural, madeiras laminadas e chão de cimento queimado.

 

Depois da reforma, concluída em 2017, a escola da Fazenda Canuanã redistribuiu os quartos radicalmente. Antes, cada cômodo abrigava 40 crianças, acomodadas em 20 beliches. Agora, os dormitórios comportam apenas seis estudantes. O conforto e a repaginação da estrutura surtiram resultados rápidos.

Os diretores e professores, por exemplo, atestaram uma melhora quase instantânea no comportamento e no desempenho das turmas. “Eles estão muito mais tranquilos, passaram a valorizar o silêncio e cuidam bastante da escola. Muitas dessas crianças moram com os pais em casas de apenas um cômodo e nunca haviam tido um quarto”, explica Rosenbaum,  em entrevista ao jornal Estadão.

Menos também é mais

Em uma corrente diferente, ainda que não menos efetiva, a Bentley University, em Waltham, Massachusetts, tem um dos mais renomados laboratórios de informática dos EUA. Em suas origens, o espaço de aprendizagem que prepara alunos ao mundo da tecnologia resumia-se a um porão sem janelas e com pouca iluminação. A sala, até então abandonada, chegava a lembrar as garagens onde surgiram alguns dos pioneiros do mundo da informática. Ao ver os alunos adotarem a sala por iniciativa própria, Mark Frydenberg, professor sênior de sistemas de informação mostrou-se inicialmente surpreso.

Hoje, no entanto, ele coordena o projeto iniciado com 40 computadores dentro do que ele mesmo classificou como uma espécie de “bunker”. Modernizado, o Computer Information Systems Sandbox converteu-se num ambiente amplo e mais dinâmico, onde notebooks podem ser conectados em supertelas para que os estudantes façam o monitoramento coletivo de cada projeto.

No caso da Bentley, a reformulação de um espaço tornou as aulas mais colaborativas e, consequentemente, conferiu maior engajamento aos alunos. Gustavo Hoffmann, do Grupo A, afirma que esse círculo virtuoso acaba se tornando o grande diferencial das IES de sucesso. “Os alunos precisam ver significado no que fazem. Trazer o mundo real para a universidade acaba sendo uma boa forma de engajamento do estudante, que passa a perceber claramente o propósito do desenvolvimento de determinadas competências”, diz ele.

Uma sala repleta de gadgets pode ser deslumbrante à primeira vista, mas sem utilização prática seu efeito pode ser inócuo. Por isso, diversas universidades criam espaços de aprendizagem que simulam oficinas, onde nem sempre a tecnologia impera. Na InovaLab@POLI, a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), além de máquinas de ponta, os cursos de engenharia dispõem de equipamentos manuais. Isso mesmo: em plena era da automatização, laboratórios de prototipagem colocam nas mãos dos estudantes ferramentas que incentivam a investigação e a experimentação.

Já o curso de engenharia da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, encontrou na inclusão o caminho para novas soluções. Em 2016 a IES reservou 37% das vagas do curso para mulheres. “É importante ter uma massa crítica de mulheres envolvidas. A engenharia é muito masculina”, declarou, à época, Troy D’Ambrosio, diretor executivo da instituição. O campus de Utah, que já era conhecido por ser altamente inovador – abrigando inclusive residências estudantis ao estilo loft e prédios multidisciplinares – precisava apenas de uma mudança de perspectiva.

Resultados sob análise

Ainda que projetos inovadores estejam na agenda de milhares de IES, as propostas precisam ir além de sua colocação em prática – afinal de contas, é preciso mensurá-las. Para Hoffmann, os resultados devem ser considerados de uma ponta a outra da cadeia. Ainda que seja algo comum em países como os Estados Unidos, no Brasil a realidade ainda é bem diferente.

Por aqui, entram em cena variáveis como: compreender a relevância para o aprendizado; a satisfação dos gestores com o custo-benefício do investimento em inovação; e a confiança do aluno de que aquelas ferramentas serão de fato úteis. “Deveríamos incluir mais indicadores no processo de ensino-aprendizagem, mais evidência nesse processo”, diz o diretor do Grupo A.

Nesse sentido, a Faculdade Dom Bosco, de Porto Alegre, buscou aperfeiçoar suas metodologias de ensino através do programa Science, Technology, Humanity, Engineering and Mathematics da Universidade de Harvard, participando inicialmente como ouvinte. Conhecido no Brasil como Consórcio STHEM, a iniciativa reúne cerca de 50 IES brasileiras e regularmente organiza fóruns, congressos e debates sobe inovação na educação.

Com base nos métodos do grupo, a Dom Bosco lançou o Núcleo de Apoio e Inovação Pedagógica – NaeIP.  E não demorou até que a IES colhesse os resultados na aprendizagem e recebesse um convite para integrar o Consórcio como membro – e não mais como ouvinte. “Recebemos em primeira mão todos os processos de inovação pedagógica de Harvard e podemos moldá-las para aplicar aqui”, destaca Letícia Garcia, coordenadora do NaelIP.

Muitas possibilidades

O caminho para a adoção de campus inovadores deve seguir, claro, ritmo e potencial de investimento condizentes com cada IES. Não faz sentido pensar em soluções altamente tecnológicas se os alunos estiverem imersos na rotina de metodologias conservadoras. “Sala de aula presencial deveria ser utilizada predominantemente para a resolução de problemas e desenvolvimento de atividades construcionistas”, analisa Hoffmann. “A partir disso, as universidades poderiam começar a pensar em espaços inovadores.”

Não à toa, a recomendação do especialista é de que as instituições usem como ponto de partida a adaptação de espaços e ferramentas para só então descobrir novos usos para a realidade acadêmica. Uma ideia simples de colocar em prática é identificar alunos-líderes e convidá-los a participar de projetos-piloto de inovação no campus. Depois, esses estudantes poderão influenciar os colegas de modo integrá-los no processo – dando legitimidade às mudanças culturais comentadas no começo da reportagem.