A neuroeducação como elo entre a medicina e o ensino

Ao combinar abordagens neurológicas e avaliações cognitivas, a neuroeducação se revela eficiente
Com abordagens neurológicas e avaliações cognitivas, neuroeducação se mostra eficiente. (FOTO: Freepik)

O respeito às particularidades do aluno é uma das características marcantes das novas metodologias de educação. No Ensino Adaptativo, por exemplo, a elaboração de abordagens customizadas se configura no principal vetor para o desenvolvimento do aprendizado individual. Os preceitos de filosofias educacionais como essas possuem pontos de conexão com outros campos científicos. A neurociência é um deles.

Derivada da biologia, a neurociência logo se difundiu para outros ramos do conhecimento – incluindo matemática, psicologia e pedagogia. O foco central da neurociência é compreender a influência do sistema neural no comportamento humano. As investigações desse tipo direcionadas ao ensino deram origem à neuroeducação, suas subespecialidades (como a neuropsicopedagogia e a neuropsicologia escolar) e obras como Neurociência e educação: como o cérebro aprende, livro de Ramon M. Cosenza e Leonor B. Guerra.

O objetivo geral da neuroeducação é compreender os mecanismos cerebrais subjacentes à aprendizagem e como eles podem otimizar as práticas de ensino. As ferramentas tecnológicas da área médica desempenham um papel fundamental nessa tarefa, através de recursos como ressonância magnética funcional e eletroencefalograma.

Neuroeducação pode ser fundamental para traçar perfis dos alunos, diz Vitor Hasse, da UFMG.
Neuroeducação pode ser fundamental para traçar perfis dos alunos, diz Vitor Hasse, da UFMG.

Em 2004, por exemplo, um grupo de médicos norte-americanos realizou um estudo de imagem com pacientes disléxicos e encontrou alterações nos padrões cerebrais após a aplicação de técnicas de melhoria de leitura. Os testes evidenciaram que a ativação cerebral dos pacientes se equiparou aos padrões de leitores típicos. Ou seja, a abordagem adaptada de ensino promoveu reflexos diretos no cérebro dos alunos.

“Além disso, os médicos encontraram uma ativação compensatória, decorrente de novas estratégias de leitura para pessoas com esse déficit específico”, escreve Vitor Haase, neurologista e professor do departamento de neurologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em artigo publicado na edição n° 51 da Revista Pátio Educação Infantil.

Neuropsicologia Escolar

A contribuição dada pela neuroeducação pode ser fundamental para traçar perfis cada vez mais fidedignos das capacidades e limitações dos alunos, levando em conta não apenas as habilidades cognitivas e comportamentais, mas também os fatores biológicos. Isso é o que Haase define como a função primordial da neuropsicologia escolar.

“Essa área pode identificar e explicar as razões pelas quais algumas crianças não aprendem na escola, além de auxiliar na formulação de estratégias pedagógicas eficazes para superar as dificuldades”, afirma o neurologista.

As técnicas de customização do ensino poderiam ganhar um reforço científico considerável a partir disso. A neuroeducação, porém, não se limita a apontar as causas das dificuldades provenientes de transtornos do desenvolvimento ou lesões cerebrais. O processo também abrange a dimensão ecológica do aluno.

O método pode determinar a aplicação de testes e hipóteses para excluir diagnósticos. Assim, os tutores e instituições podem encontrar a estratégia mais adequada para contornar ou sanar as dificuldades apresentadas pelo discente.

O direcionamento proposto pela neuroeducação reforça a inadequação dos currículos tradicionais de ensino, que procuram nivelar os alunos num mesmo molde de aprendizado. A padronização, aliás, pode complicar ainda mais as condições dos indivíduos com dificuldade de assimilação.

“Os comportamentos inadequados em sala de aula são frequentemente agravados pela sobrecarga cognitiva que muitos métodos de ensino impõem ao não considerarem as limitações da capacidade cognitiva humana e sua variabilidade interindividual”, reforça Haase.

Aos poucos, a ciência começa a ratificar a necessidade de uma mudança nos rumos da educação. E o norte dessa bússola aponta para as metodologias adaptativas e individualizadas de ensino, que priorizam a características intelectuais dos alunos no protagonismo no processo de aprendizagem.

Apesar disso, a adoção de técnicas e conhecimentos preconizados pela neuroeducação ainda é pouco viável na realidade brasileira – em razão do alto custo das tecnologias e da própria adaptação das instituições à proposta. A sugestão de Vitor Haase, portanto, é iniciar o processo pela aplicação das diretrizes da neuropsicologia em sala de aula. Essa abordagem pode ser responsável pelo enlace entre a neurociência e a pedagogia, abrindo caminho para a evolução dos métodos científicos de ensino.

A seguir, confira algumas contribuições da neuropsicologia no ambiente educacional.

  • Contribui para o diagnóstico médico, ajudando a identificar condições de saúde que podem afetar a aprendizagem escolar.
  • Permite caracterizar o perfil cognitivo do aluno em termos de processos emocionais, psicológicos e psicossociais, auxiliando o planejamento de estratégias educacionais de intervenção, aliviando a sobrecarga emocional do professor e promovendo o desenvolvimento do aluno.
  • Auxilia a identificação de comorbidades que tendem a agravar as dificuldades de comportamento e aprendizagem.
  • Facilita a identificação de estratégias restitutivas ou compensatórias que permitam aperfeiçoar os métodos instrucionais, principalmente através da estimação da inteligência.
  • Auxilia no estabelecimento de um prognóstico realista ao processo educacional, sem sobrecarregar o aluno e sem deixar de promover seu desenvolvimento.