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Cristovam Buarque: federalização para elevar a qualidade na educação

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Na visão do senador, a federalização das escolas de nível fundamental e médio pode colocar o Brasil entre os países mais desenvolvidos do mundo (Foto: Max Aquino ASCOM- SCB)

Na visão do senador, a federalização das escolas de nível fundamental e médio pode colocar o Brasil entre os países mais desenvolvidos do mundo (Foto: Max Aquino ASCOM- SCB)

Em seu segundo mandato como senador, pelo PPS, Cristovam Buarque é um dos principais defensores de pautas relacionadas à educação no Congresso Nacional. Autor de mais de dez livros sobre o assunto, o ex-governador do Distrito Federal e ex-ministro da Educação acumula outras profissões. Além de economista, é engenheiro mecânico e professor da Universidade Federal de Brasília (UnB), onde também foi reitor.

Em seu mandato como governador, Cristovam Buarque foi pioneiro ao implementar o programa Bolsa Escola, que concedia recursos financeiros a famílias de baixa renda para manter crianças e jovens estudando. Em 1995, o programa tornou-se o Bolsa Educação, um precursor do Bolsa Família – estendido ao Brasil inteiro.

Hoje, uma de suas maiores bandeiras é a defesa da chamada federalização do ensino, que tem como objetivo passar às mãos da União a gestão de escolas administradas por estados e municípios. Em entrevista exclusiva ao Desafios da Educação, o senador detalha o assunto e analisa a cenário nacional de ensino e desenvolvimento socioeconômico. Confira:

O estímulo cognitivo é um dos pontos-chave para o desenvolvimento emocional e intelectual das crianças. De que maneira a educação contribui com esse processo?
Contribui, sobretudo, na primeira infância. A educação tem que começar na gestação, com atendimento à mãe e com boa alimentação. Sabemos que certas técnicas, como colocar o bebê para ouvir música antes de nascer, favorecem a cognição. Depois, a educação durante os três primeiros anos de vida, um período que exige cuidado especial com estímulos pedagógicos para desenvolver a capacidade cognitiva. Isso precisa, de novo, ser acompanhado de boa alimentação e cuidado médico.

A educação básica tem cumprido seu papel no que diz respeito ao desenvolvimento cognitivo dos estudantes?
Certamente não. Digo isso por duas razões: a fragilidade do ensino escolar em relação ao professor, aos equipamentos, ao tempo de permanência na escola e também ao conteúdo. Para estimular a capacidade cognitiva precisa-se de um conteúdo com mais perguntas e menos respostas, com mais estímulo e menos condução. Nossas escolas são ruins do ponto de vista estrutural e são ruins do ponto de vista do método pedagógico para promover a cognição.

LEIA MAIS: Ineficiência na educação básica compromete desenvolvimento cognitivo de crianças no Brasil

A ciência e a tecnologia reúnem algumas das principais profissões do futuro. Como fomentar o interesse dos alunos por essas áreas?
Com assunto interessante e bons equipamentos. Ensinar ciência atrai jovens. Eles gostam porque são curiosos, mas nós evitamos. Nossa escola ensina a mesma coisa há 100 anos. As crianças são digitais; a sala de aula é analógica. Então os equipamentos ajudam a segurar o aluno na sala. Esses dias, vi um professor de Português dando aula pelo celular e atraiu muito mais atenção do que no quadro negro. Em outra ocasião, consegui a doação de lousas inteligentes para uma escola de uma área muito precária em Planaltina, no Distrito Federal. O professor escolheu alunos de 14 e 15 anos que estavam quase abandonando a escola e os colocou nessa sala que tinha a lousa. Nenhum saiu.

Quais são os desafios da educação básica para promover uma educação que propicie o conhecimento científico e tecnológico no Brasil?
Muitas escolas públicas são administradas por prefeituras pobres, mas a educação é uma questão nacional, e não municipal. Deve ser uma preocupação do presidente, não do prefeito. O primeiro desafio é, portanto, sair da municipalização para a federalização. Isso requer uma profunda mudança política.

Quais seriam, na prática, os diferenciais da federalização?
É possível implementar uma carreira nacional para professores. Além disso, podemos estabelecer critérios nacionais de escolha de estrutura das escolas. Não podemos aceitar que um prefeito escolha um prédio velho, pinte e coloque na fachada o nome da mãe dele, que foi professora, e diga ‘isso é uma escola’. Não pode, isso não é uma escola. Nós precisamos estabelecer critérios. Se temos critérios para dizer o que é um banco e o que é uma quadra de futebol, também precisamos de critérios para dizer o que é uma escola.

Atualmente, qual país pode ser considerado uma referência em educação básica?
Temos dois tipos de referências. Um deles é o exemplo da França e da Alemanha, que fizeram revoluções educacionais – mas pertencem a um tipo de realidade que não é a nossa. Outra referência é de quem fez revolução educacional no século 20, nos anos 1970. São os casos de Irlanda, Finlândia e Coreia do Sul.

Como eles fizeram essa virada?
Há algum tempo fiz uma viagem à Irlanda, onde havia acontecido um grande acordo político na cidade de Cork [um dos principais centros educacionais do país]. Na ocasião, líderes de todos os partidos, juntamente com lideranças sindicais e empresariais, se reuniram e colocaram a educação como uma prioridade na região – independentemente de qualquer outra coisa, de troca de governos etc. Aí eu quis conhecer Cork. No caminho, percebi que as estradas eram muito ruins e perguntei ao embaixador: ‘por que um país que é referência em educação tem estradas péssimas?’. Ele respondeu ‘justamente por isso’. Quer dizer, eles investiram em educação e, por isso, não fizeram estradas. Enquanto isso, nós fizemos estádios de futebol para a Copa do Mundo.

Quão longe estamos de chegar ao nível desses países no que diz respeito à educação?
Se começássemos hoje o processo de federalização, em dois anos já teríamos cidades com esses padrões. É isso que a China está fazendo. Eles não são referência em educação, mas têm duas cidades que estão entre as melhores do mundo. O Pisa [Programa Internacional de Avaliação dos Alunos, realizado trienalmente pela OCDE] elegeu Hong Kong e Xangai entre as melhores cidades do planeta. Em dois anos, já teríamos 100 cidades. Mas, no total, serão necessários mais 30 ou 40 anos para que todas as cidades brasileiras tenham educação de primeira qualidade.

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