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Desafios da Educação entrevista: Dr. Francisco Botelho

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No dia 19 de março, foi realizado, em Brasília, o Encontro de Lideranças: Desafios da Educação, uma iniciativa da Blackboard Brasil e do Grupo A, com a parceria do Departamento de Comércio dos Estados Unidos e do Centro Universitário IESB. Mais de 80 lideranças da área da educação se reuniram para discutir os rumos do ensino no Brasil, com foco especial no uso de novas tecnologias.

Dr. Francisco Villa Ulhôa Botelho, Superintendente de Educação a Distância do IESB, foi um dos palestrantes do evento, compartilhando sua experiência na construção de um ensino flexível que atenda às demandas dos alunos multimídia. Além de ser uma das principais atrações do encontro, Botelho também nos concedeu uma interessante entrevista. Confira:

O Dr. Francisco Botelho durante o encontro em Brasília

Dr. Francisco Botelho fala sobre ensino flexível em Brasília. Crédito: divulgação.

Como você avalia o cenário atual da educação superior e da educação a distância no Brasil?
A sociedade brasileira está vivendo um momento promissor em termos de desenvolvimento econômico, fortalecimento da democracia e de um novo posicionamento do país na esfera global. Crescimento econômico, diminuição das desigualdades e estabilidade política são fatores extremamente positivos para os brasileiros, mas que precisam de solidez para se tornarem sustentáveis.

A área da educação permanece como o calcanhar de Aquiles do desenvolvimento brasileiro. Apesar de avanços significativos, ainda é na educação que o país tem os menores índices de melhorias. Um exemplo expressivo dessa realidade pode ser verificado no ensino superior: se, por um lado, em dez anos o Brasil dobrou o número de estudantes matriculados, por outro, o contingente em 2013 era de 6,4 milhões, o que representava apenas 15% da população com idade entre 18 e 24 anos, um índice muito inferior à meta estabelecida no Plano Nacional de Educação (PNE) para o período 2011-2020, que é de 33%.

Existe a necessidade de aumentar a oferta de ensino superior para tornar o nosso desenvolvimento sustentável, principalmente em carreiras em que a demanda está crítica, como médicos, engenheiros e professores. Ao mesmo tempo, urge cuidar da qualidade dessa educação, que hoje se traduz não somente pelo desenvolvimento de profissionais competentes tecnicamente para desempenhar funções exigidas pelo mercado de trabalho, mas, também, qualidade que é expressa na formação de cidadãos conscientes dos seus direitos e deveres, competentes para a pesquisa científica e para a inovação, tão necessárias para construirmos uma sociedade e um país mais ricos, independentes e com justiça social.

Na última década, é possível observar um amplo crescimento da modalidade de educação a distância (EAD), tanto em escala quanto em significado e reconhecimento por parte da sociedade. Essa mudança se deve especialmente às amplas possibilidades de interação e comunicação das tecnologias, que contribuem para a democratização do acesso ao ensino superior e melhoria de sua qualidade.

Observamos um amplo crescimento do ensino superior a partir de 2003. No entanto, proporcionalmente, a expansão da EAD foi muito mais significativa, especialmente de 2005 a 2009, o que está relacionado ao desenvolvimento socioeconômico brasileiro e ao processo regulatório do setor. Comparativamente, no período de 2002 a 2011, a modalidade presencial apresentou crescimento médio de 5,77%; enquanto na EAD o crescimento médio foi de 47,03%. Em 2002, as matrículas de graduação na EAD representavam 1,16% do total, 7,04% em 2007 e, em 2011, representavam 14,73% do total.

Entre os fatores que podem ter contribuído para o crescimento da EAD em taxas mais elevadas que a modalidade presencial entre 2002 e 2011, destacam-se a flexibilidade de espaço e tempo proporcionada pela EAD, a ampliação da capilaridade – pois as Instituições de Ensino Superior (IES) passam a chegar em regiões do país onde não chegavam antes -, e cursos com valores médios de mensalidade inferiores aos de cursos presenciais.

O desenvolvimento da modalidade foi acompanhado por um processo de regulamentação que, em um primeiro momento, fortaleceu a expansão e, em um segundo, a conteve, criando barreiras e amarras burocráticas que reduziram as possibilidades de desenvolvimento e inovação. Esse marco regulatório está composto pela Lei do SINAES e nova regulamentação do Art. 80 da LDB (Decretos nos 5.622/05; 5.773/06; 5.800/06; 6.303/2007, múltiplas portarias, instrumentos, notas técnicas e despachos).

No contexto da expansão, cabe citar a Portaria nº 4.059, de 10 de dezembro de 2004, que autoriza a oferta de 20% da carga horária dos cursos superiores na modalidade semipresencial. Além de criar abertura para maior acolhimento e disseminação da EAD na educação superior, aponta para a integração entre a EAD e a modalidade presencial, que podem se beneficiar mutuamente, a partir das particularidades e possibilidades de cada uma.

Como parte do crescimento da modalidade, que teve a sua maior expansão por meio das instituições privadas, houve a criação da Universidade Aberta do Brasil, em 2005, com a ampliação da oferta de cursos de graduação por parte das IES públicas, especialmente nos cursos de licenciatura.

A desaceleração do crescimento da EAD, a partir de 2009, está relacionada à regulamentação excessiva e às exigências burocráticas estabelecidas, principalmente, para os processos de credenciamento de IES para oferta de EAD, de credenciamento de polos de apoio presencial e de autorização de cursos a distância, por meio da Portaria Normativa nº 40, de 12 de dezembro de 2007. Observa-se também que os instrumentos de avaliação definidos para a EAD ainda apresentam indicadores pouco coerentes com as especificidades, possibilidades e diversidade de modelos que podem ser aplicados à modalidade.

Nos últimos anos, estamos presenciando uma nova onda de crescimento da EAD. Chegamos a 1.113.850 estudantes de graduação em 2012, com um crescimento de 25% dos ingressantes em relação ao ano anterior.

Qual é, na sua opinião, o papel atual dos gestores das instituições de ensino superior?
Penso que os gestores não devem se ater aos resultados econômico-financeiros somente. A sustentabilidade das instituições de ensino superior a médio e longo prazo estará vinculada à efetividade dessas instituições para a sociedade e o país. Os gestores precisam pensar que suas instituições devem contribuir com o desenvolvimento socioeconômico da sua região. Isso pode ser traduzido por meio de um direcionamento focado na melhoria permanente dos processos formativos e da qualidade da educação.

Hoje, essa qualidade passa pela mudança de paradigma nos processos educacionais. Sair de uma educação centrada na entrega e transmissão de conteúdos para outra que valoriza o desenvolvimento da autonomia dos estudantes na construção da sua aprendizagem. Ainda temos instituições de ensino funcionando com métodos e currículos da década de 1960 ou 1970.

As tecnologias da informação e da comunicação (TICs) estão aí e não podem ser usadas para darem somente um verniz de modernidade aos processos educacionais, mas para oferecerem suporte à transformação nas relações entre os estudantes, os professores, os técnicos e os gestores; nas metodologias de ensino e aprendizagem; nos ambientes de aprendizagens e na gestão de todo o processo educacional.

Um exemplo desse descompasso entre o uso de novas tecnologias e processos pedagógicos ultrapassados pode ser observado na própria EAD. A modalidade possibilita o uso de maneira intensiva das TICs, no entanto, a prática dos principais ofertantes de cursos no Brasil se estrutura na repetição do modelo tradicional de ensino e de aprendizagem transposto para a EAD.

Além da preocupação com a qualidade da aprendizagem dos estudantes, os gestores que estão com o olhar atento aos processos de transformação da educação no mundo necessitam se preocupar em implementar ações de internacionalização e de inovação.

Em síntese, os gestores devem estar fortemente interessados se estão formando bons professores, médicos e engenheiros; formando profissionais e cidadãos conectados com as boas práticas locais e internacionais; se estão gerenciando a aprendizagem dos estudantes para poder corrigir no processo os pontos frágeis; como estão gerenciando a informação, a produção do conhecimento e a inovação na organização. Essas perguntas/preocupações precisam fazer parte do cotidiano da gestão nas instituições de ensino superior.

Que avanços as novas tecnologias trouxeram e qual a importância da inovação para o futuro da educação?
A divulgação do conhecimento produzido e o acesso à informação, que se constituem pilares da educação moderna, acontecem de forma cada vez mais ágil e, com isso, os critérios de perenidade e permanência dos conhecimentos produzidos e das informações acumuladas somam-se ao critério da atualidade. O novo conhecimento produzido está disponível em quantidade, profundidade e agilidade para quem desejar apropriar-se dele.

O uso das TICs e o acesso à rede mundial de computadores têm provocado mudanças de paradigmas. Frente à possibilidade de pesquisa em amplas fontes digitais, de comunicação e de trabalho cooperativo, de publicação e de simulação, as maneiras de ensinar e aprender estão se modificando radicalmente.

Nesse contexto, a EAD está cumprindo um papel importante. Ela muitas vezes é apresentada como simplesmente uma modalidade a mais de educação formal, no entanto, a configuração da sociedade atual demanda determinadas especificidades da ação educacional que encontram grande consonância na EAD. A necessidade de educação continuada, de atualização permanente de informações e de produção de novos conhecimentos exige processos educacionais flexíveis e dinâmicos, que rompam com as dificuldades impostas pelas barreiras do espaço e do tempo. Esse é o campo da EAD. Assim, a EAD ou as suas metodologias de ensino-aprendizagem caem como luvas para as necessidades da sociedade contemporânea.

Qual é o maior diferencial do EAD.IESB e quais são os números desse sucesso?
O modelo de Educação a Distância do IESB não está focado na entrega da informação e sim na aprendizagem do estudante. Nesse sentido, os cursos são desenhados valorizando estratégias pedagógicas sustentadas na interatividade e no desenvolvimento da autonomia dos aprendizes.

Na EAD.IESB não se trabalha com tutores. Quem estabelece a comunicação e a interação com os estudantes são os próprios professores. Os mesmos dos cursos presencias, mas cuidadosamente escolhidos e formados para trabalhar com EAD. Esse diferencial revela a preocupação com a qualidade, um processo que envolve professores e estudantes formando efetivas comunidades virtuais de aprendizagem.

Podemos resumir a caminhada e os indicadores de sucesso da EAD no IESB por meio da seguinte linha do tempo:

1998
Em parceria com a UnB, o IESB lançou seu primeiro curso a distância de pós-graduação lato sensu na área de Avaliação Institucional.

2000
Iniciou o Programa de Aprendizagem Independente (PAI), voltado para uso de novas tecnologias na educação superior.

2001
Capacitação docente para o projeto “Sistema de Acompanhamento Educacional”.

2002
Como evolução natural do Programa de Aprendizagem Independente, o IESB adquiriu, em junho de 2002, o Sistema Blackboard LS. Ao longo do tempo, foram se ampliando os usos do Blackboard:

2004
Oferta de duas disciplinas na modalidade a distância para os cursos presenciais, com adesão de 120 alunos.

2005
Há a ampliação para 5 disciplinas e 1.200 estudantes do presencial atendidos em disciplinas na modalidade a distância.

2010
São ofertados 4 cursos de pós-graduação lato sensu, atendendo a aproximadamente 400 alunos.

2008
Foi publicada a portaria do MEC que credencia o IESB para oferta de cursos de pós-graduação lato sensu na modalidade EAD.

2013
Foi criada a escola EAD.IESB, inaugura-se um novo momento na educação a distância do IESB.

  • Um novo modelo para EAD para garantir maior qualidade aos cursos e atender à demanda mundial por educação inovadora e flexível.
  • Planejamento da oferta de cursos/disciplinas para avançar nos 20% das disciplinas dos cursos presenciais, em cursos de graduação e pós a distância.

2014
Foi publicada a portaria do MEC de credenciamento institucional do IESB para oferta de cursos a distância.

  • As matrículas pulam de 1.300 para 6.000 nas disciplinas virtuais de EAD para os cursos presenciais.
  • Inicia-se a oferta de 6 cursos de graduação e dois de pós a distância.

Durante todo esse período, o IESB recebeu inúmeros prêmios:

1998
Prêmio de excelência concedido pela DID (Divisão de Desenvolvimento Instrucional da Associação Educacional dos Estados Unidos): prêmio concedido ao curso EAD com melhor desenho instrucional do ano nos EUA e Brasil – Curso de Avaliação Institucional.

2003
1º colocado no concurso nacional Blackboard / ABED: Concurso nacional promovido pela Blackboard e pela ABED (Associação Brasileira de Educação a Distância), para o desenvolvimento de materiais para EAD – Disciplina: Física I.

2004
1º colocado e 3º colocado no concurso nacional Blackboard / ABED: Concurso nacional promovido pela Blackboard e pela ABED (Associação Brasileira de Educação a Distância), para o desenvolvimento de materiais para EAD – Disciplinas: Direito Ambiental e Jornalismo.

2005
Referência Nacional em EAD – E-Learning Brasil: Prêmio concedido pela ABRH (Associação Brasileira de Recursos Humanos) e pela ABED (Associação Brasileira de Educação a Distância) – Disciplinas em cursos de graduação presenciais.

Os alunos que aderem à educação a distância encontrarão mais facilidade ou maior dificuldade em se inserir no mercado de trabalho? Por quê?
Já tivemos no passado preconceito em relação aos estudantes que se formaram por meio de cursos a distância. Creio que isso já acabou ou são muito poucos os empregadores com essa visão retrógrada.

Na verdade, a tendência do mercado de trabalho no Brasil é acompanhar o restante do mundo, por exemplo, o posicionamento dos empregadores ingleses que valorizam muito bem os egressos da Open University (informação que consta das pesquisas dessa Universidade com egressos) porque acreditam que esses estudantes desenvolvem competências que nem sempre os dos cursos presenciais adquirem, isto é, a competência da autoaprendizagem, da solução autônoma dos problemas, etc.

Outra evidência de que os empregadores aceitam bem os estudantes de EAD é o fato das grandes empresas construírem suas universidades corporativas ou centros de treinamento e formação baseadas em EAD. Elas usam a EAD internamente para o treinamento e desenvolvimento de seus colaboradores porque acreditam na efetividade da modalidade.

Na sua visão, quais são os três pontos essenciais para que sejam superados os desafios educacionais no Brasil?
Penso, primeiramente, que as políticas públicas devem ser orientadas por uma visão não segmentada da questão educacional. A educação deve ser tratada de maneira sistêmica, integrando sinergicamente todas as ações no sentido da construção de caminhos efetivos e sustentáveis.

Nessa perspectiva, a indicação de três pontos torna-se somente um exercício de identificação de questões importantes a serem tratadas na formulação dos planos educacionais. Aderindo ao exercício e reconhecendo que os pontos a serem indicados já são observados nas ações governamentais, mas que precisam ganhar amplitude, poderíamos citar:

  1. ampliação e democratização do acesso, principalmente nos níveis médio e superior da educação;
  2. busca permanente da melhoria e da qualidade da educação em todos os níveis;
  3. fomento da inovação.

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Redação
A redação do portal Desafios da Educação é formada por jornalistas, educadores e especialistas em ensino superior.

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