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“Aulas e turmas são dispositivos pedagógicos obsoletos”, diz fundador da Escola da Ponte

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José Pacheco, criador da Escola da Ponte, modelo pedagógico que dá maior autonomia aos alunos. Crédito: divulgação.

Na cidade portuguesa de São Tomé de Negrelos, com cerca de 4 mil habitantes, fica uma escola da rede pública que virou referência mundial. Com quase 43 anos de operação, a Escola da Ponte ganhou notoriedade ao substituir o velho modelo pedagógico com carteiras enfileiradas, classes e quadro negro por um processo educativo centrado na autonomia dos alunos.

O criador da Ponte é o educador português José Pacheco. Em 2007, após três décadas na instituição, Pacheco saiu do projeto e se mudou ao Brasil. Começou a escrever livros, ministrar palestras e dar consultorias sobre a metodologia adotada na Ponte. Foi assim que surgiu a Escola Projeto Âncora, em Cotia (SP), por exemplo.

De Brasília, onde vive, Pacheco conversou com o portal Desafios da Educação sobre a metodologia da Escola da Ponte e compartilhou sua visão acerca do ensino brasileiro.

O senhor tem cruzado o Brasil apresentando o modelo da Escola da Ponte. Pretende inaugurar um projeto semelhante por aqui?
Mudei-me para o Brasil para aprender e para ajudar. Nunca me proporia a construir um projeto semelhante ao da Ponte aqui, até porque não acredito que projetos possam ser clonados.

A Ponte é uma escola europeia com mais de 40 anos. É um belo exemplar do paradigma da aprendizagem, mas é quase um fóssil – e eu busco inovação educacional genuinamente brasileira. Não tem sido fácil devido à burocracia instalada no sistema. Mas aconteceu o mesmo na década de 1970 com a Ponte.

E aparentemente deu certo – afinal, a escola virou um benchmark no setor. De onde nasceu a ideia da Ponte? A Ponte era uma escola como qualquer outra. Uma instituição pública degradada que albergava as chamadas “turmas do lixo”, majoritariamente formadas por jovens de 14 e 15 anos que não sabiam ler nem escrever. Eram alunos ditos indisciplinados ou deficientes, expulsos de outras escolas, com experiência de evasão escolar e que batiam nos professores.

Confesso que nessa época, em 1976, eu estava quase desistindo de ser professor. Sentia que, dando aula, eu excluía as pessoas. A Ponte surgiu, talvez, não por acaso. Mas para me dar uma última oportunidade.

O que aconteceu? Ali encontrei duas pessoas que também se perguntavam porque os alunos não aprendiam. Sabíamos que éramos profissionais competentes. Aí percebemos que se o modo como trabalhávamos não garantia aprendizagem a todos os alunos, deveríamos mudar o método de ensino. Do contrário, os jovens seguiriam analfabetos. E constatamos que se a escola negava a muitos seres humanos o direito à educação, ela também deveria mudar. Quando modificamos o modo de fazer, asseguramos a todos o direito de aprender e ser feliz.

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Como foi a implementação do novo modelo e a recepção de alunos e professores? Um projeto humano é um projeto coletivo. Sozinho, pouco ou nada se pode fazer. Então tomei consciência de que não conseguiria ensiná-los como havia aprendido e me especializei em alfabetização linguística. Constituímos uma equipe afinada e respeitamos aqueles que não quiseram mudar, apesar das críticas maledicentes que nos atingiam e perturbavam.

Na época, sequer conhecíamos a existência de técnicas como as de Piaget [Jean William Fritz Piaget, pensador suíço que estudou a formação do conhecimento]. Agimos por intuição pedagógica, movidos pelo amor que qualquer professor tem por seus alunos. Eles passaram a aprender a ler e a interpretar aquilo que liam. Eles se transformaram, desenvolveram autoconhecimento, reconheceram o outro e aprenderam.

Um projeto humano é um projeto coletivo. Sozinho, pouco ou nada se pode fazer.

Quais foram as mudanças estruturais nas instalações físicas da Ponte? A Ponte, há 40 anos, substituiu as salas de aula por espaços de “área aberta”. Depois, veio a aprendizagem em múltiplos espaços sociais (incluindo o edifício da escola) com o objetivo de se conceber novas construções sociais de aprendizagem. O novo modo de desenvolvimento curricular teve duas vias complementares de um mesmo projeto: um currículo subjetivo, a partir de talentos cedo revelados; e um currículo de comunidade, baseado em necessidades, nos desejos da sociedade do entorno.

Alunos da Escola da Ponte em atividade de leitura. Crédito: divulgação.

Se a Escola da Ponte não tem séries, nem salas de aulas tradicionais, o que ela tem? Tem excelentes resultados, atestados por sucessivos relatórios de avaliação externa. No Brasil, diria-se que é uma escola nota 10 no Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, elaborado pelo Ministério da Educação]. Ou seja, uma escola de excelência acadêmica com inclusão social.

Sobre as salas de aula, pergunto às pessoas por qual razão os alunos do século 21 devem ser agrupados em “turmas” e ensinados em salas por professores do século 20 que recorrem a práticas oriundas do século 19? A resposta é: aulas e turmas são dispositivos pedagógicos obsoletos.

Por quê? Por que usar 50 minutos de aula se a aprendizagem acontece nas 24 horas do dia? Por que 200 dias letivos, se educamos em todos os dias do ano? Nada se aprende de útil numa única aula.

A aprendizagem acontece quando é significativa. Não se aprende o que o outro diz; apreendemos o outro. Um professor não ensina aquilo que diz, ele transmite aquilo que é. Poderá acontecer aprendizagem em sala de aula se forem criados vínculos – e esses vínculos não forem apenas afetivos, também de domínio da emoção, da ética, da estética…

Por qual razão os alunos do século 21 devem ser agrupados em “turmas” e ensinados em salas por professores do século 20 que recorrem a práticas oriundas do século 19?

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O que é necessário para uma aprendizagem efetiva? As escolas carecem de espaços de convivência reflexiva. É preciso experimentar um novo modo de organização, em equipes de pessoas autônomas e responsáveis, todas cuidando de si mesmas e de todo o resto com o potencial da razão e da reflexão.

Crianças, jovens e adultos precisam de uma educação de boa qualidade e para isso precisamos de uma nova construção social de aprendizagem, que substitua a escola da aula e da turma. São muitos os caminhos, mas é urgente que os educadores compreendam o que significa o termo “currículo”. Que não percam tempo a tentar ensinar fora de tempo em que consiste um “ato ilocutório diretivo” ou o que é um “sujeito nulo subentendido”.

Quando fui aluno de escola “tradicional”, gastei um tempo precioso para decorar os afluentes da margem esquerda de rios e de outras lengalengas que, agora, me ocupam a memória de longo prazo. Não me fizeram mais sábio, nem mais feliz.

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