Sobre alfabetização e linguagem oral na educação de adultos

Sobre alfabetização e linguagem oral na educação de adultos

O Desafios da Educação publica um trecho de A linguagem oral na educação de adultos, clássico do autor argentino Erasmo Norberto Ferreyra e publicado no Brasil pela editora Penso. O livro evidencia que, apesar dos esforços e resultados obtidos, a alfabetização deve continuar sendo uma prioridade. E não só para os países subdesenvolvidos.


O ser vivo destaca-se dos seres inanimados por um fenômeno particular que só ele é capaz de produzir: sua capacidade de relação com a origem e meio onde desenvolve sua existência.

Nada que exista no universo está isolado. Através da inter-relação e da interação dos menores elementos, movidos por uma força vital transcendental e extramaterial, gera-se a vida.

Biologicamente, a harmonia interna, própria da célula e de sua combinação evolutiva com outras unidades, conforma um maravilhoso mundo de comunicação e de comunhão simbiótica que se torna possível pela ação de relações táteis ou corpóreas, entre outras. Essas combinações engendram comunidades de tecidos que se correspondem num “diálogo vital” e que, por sua vez, vinculam-se constituindo os distintos órgãos. Estes se inter-relacionam e chegam, assim, a integrar um ser vivo mais complexo: vegetal, animal ou humano.

A biologia nos diz: “A comunicação e a inter-relação se dão em todos os estratos da vida: desde os grandes biomas, que são associações inter-relacionadas de ecossistemas, até as moléculas básicas para a vida, que condicionam os mecanismos vitais. Os exemplos são conhecidos por todos: os ecossistemas existem graças à interação dos fatores ambientais com as comunidades de animais, vegetais e microrganismos que neles habitam: os vegetais e os animais necessitam-se mutuamente para existir e, entre os indivíduos, podem ser encontrados verdadeiros códigos de comunicação (sinais) que indicam perigo, alimento, reconhecimento sexual ou preponderância de um dos indivíduos sobre outro.

Dentro do corpo dos organismos, as células estão profundamente interconectadas: o sangue que, além de transportar nutrientes e substâncias mensageiras (os hormônios), elimina os resíduos das células, converte-se no canal natural da comunicação intercelular.

Os animais superiores desenvolvem, além disso, especializados sistemas nervosos que coordenam e ampliam a intercomunicação celular e, ao mesmo tempo, adaptam o organismo ao meio ambiente externo.”

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O equilíbrio da natureza sustenta-se sobre vários eixos que se manifestam na interação dos seres vivos constituídos em sociedades, nos distintos sistemas que a compõem e nos períodos ou ciclos de nascimento, vida, morte e transformação, que caracterizam o constante suceder da vida.

A vida é assim quando há uma participação concreta com o entorno e uma correspondência estreita de vínculos entre os seres de uma mesma espécie e destes com os de outras.

A busca de alimentos, a perseguição de animais selvagens, a defesa ante estes animais, a seleção de parceiros, o estabelecimento causal de associações com outros organismos em forma de simbiose, de parasitismo ou qualquer relação social… tudo depende da contínua relação e comunicação acerca do que ocorre nos arredores.

O homem é um microcosmo que mantém uma relação íntima com o mundo que o circunda.

No âmbito das relações e das “práticas sociais” que os seres realizam, ganha sentido o conceito de comunicação. “A vida do homem é encontro ou não é nada”, afirma Martín Buber.

Considerações sobre alguns conceitos

O significado da relação humana é um “conceito ativo” que se estabelece por meio de conexões e “vínculos” entre os seres humanos. Tais vínculos podem ser favoráveis ou desfavoráveis, intensos ou meramente superficiais; podem provocar desde a união até o rechaço e conduzir tanto à vida como à morte, passando por todas as etapas intermediárias.

Em realidade, a relação é uma circunstância fortuita, involuntária e não provocada, que chega a vincular seres, espécies diferentes e até os próprios ambientes que estes povoam, pelo único fato de compartilhar a existência num mesmo tempo e espaço.

Os exemplos de relação são cotidianos: duas pessoas vinculadas por exercer idêntica profissão, por trabalhar na mesma fábrica ou por sofrer igual situação, podem desconhecer-se, carecer de comunicação entre si.

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Este enfoque supõe que a comunicação seja um fenômeno de relação. Isso não significa que relação implique necessariamente comunicação entre as partes. Exemplos eloquentes e muito comuns são aqueles casais relacionados através do matrimônio e que, por causa de desavenças, malograram seu nível de comunicação. Os soldados de distintos grupos inimigos estão relacionados pelo fragor da luta, sem se supor por isso que, em realidade, haja comunicação entre eles.

A comunicação se gesta, nasce, cresce, evolui e transforma as pessoas e seus entornos a partir do fenômeno de relação. Não obstante, aparece como num “segundo estágio”, localizada num nível “superior de evolução” do homem e sujeita à ação das qualidades mais altas deste.

A comunicação aqui é concebida como conceito fundamentalmente interativo, interrelacional. Não está entendida como indivíduos isolados, cabos por onde circula corrente eletromagnética e telas cheias de informação somente, senão que se trata da comunicação concreta tal como existe em sistemas humanos que operam de forma natural, em interação contextual e geral.

A comunicação, disse Jean Cazeneuve, é um fenômeno psicosociológico de infinita complexidade.

A atualização do homem efetua-se na cultura e efetiva-se pela comunicação, único meio possível de intercâmbio cultural. O homem se faz na cultura e toda cultura é comunicação. O homem é enquanto tal, na medida em que se comunica. O amor, a religião, a educação são comunicação. A primeira forma de comunicação humana é a que estabelece o feto no ventre materno, que se efetua em forma cinésico-tátil.

Recordemos Umberto Eco: … “diversos estudos semio-antropológicos demonstram que toda cultura é comunicação e que existe humanidade e sociabilidade somente quando há relações comunicativas”. … “toda cultura deve ser estudada como um fenômeno de comunicação”. Contudo, destaca que “… não quer dizer que a cultura seja somente comunicação, senão que esta pode ser melhor compreendida se examinada desde o ponto de vista da comunicação”.

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Ficha técnica

Título: Linguagem Oral na Educação de Adultos
Autor: Erasmo Norberto
Editora: Penso
Ano: 2011
Nº de páginas: 304
Preço médio: R$90

FOTO EM DESTAQUE: ALUNOS NA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. CRÉDITO: USP IMAGENS/DIVULGAÇÃO.