Metodologias de Ensino

“Ensinar é o trabalho mais difícil do mundo”, afirma Thakur Powdyel

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O Butão, um pequeno país asiático situado ao leste do Himalaia, é frequentemente associado à ideia de felicidade. Isso porque foi a primeira nação a implantar um indicador além do Produto Interno Bruto (PIB) para analisar seu progresso. Um indicador bastante peculiar, diga-se de passagem.

Esse parâmetro é o de Felicidade Interna Bruta (FIB), criado pelo ex-ministro da Educação Thakur Powdyel. Com o índice, o governo analisa os impactos de suas ações na felicidade geral da nação antes de tomar decisões.

A partir desse conceito foi realizada a reforma educacional Educating for Gross National Happiness, que instituiu as Escolas Verdes no país. Essa nova metodologia busca promover uma educação holística e integrativa baseada na Mandala de Sherig, que inclui oito níveis de consciência a serem trabalhados.

Powdyel acaba de lançar o livro Minha Escola Verde  pelo Penso, selo editorial do Grupo A. Em entrevista ao Desafios da Educação, o educador fala mais sobre a FIB e a proposta das Escolas Verdes.

Como surgiu a ideia de criar as Escolas Verdes?

Se uma nação tem um grande sonho ou um Norte para guiá-la na direção em que se deseja ir, é importante que os subsistemas dessa nação façam sua parte na internalização e promoção desse sonho ou objetivo. A visão de Felicidade Interna Bruta foi o Norte do Butão enquanto levamos nosso país adiante.

Ao contrário do modelo de progresso convencional e reducionista baseado no PIB, o caminho único inspirado na Felicidade Interna Bruta busca o bem-estar de todas as formas de vida dentro de fronteiras planetárias de apoio mútuo. É um chamado para buscar o equilíbrio entre as necessidades do corpo e os anseios profundos da alma.

Instituir e perseguir o caminho das Escolas Verdes como instrumento de florescimento humano e social de acordo com a visão nacional abrangente era, portanto, a garantia do tempo e o apelo do momento. Nossa abordagem tinha que ser objetiva, valiosa e condizente com a visão do país. Daí, Escolas Verdes.

Felicidade Interna Bruta

Thakur Powdyel. Crédito: Acervo Pessoal.

Quais foram os aspectos mais importantes para o sucesso da reforma Educating for Gross National Happiness?

A iniciativa de reforma educacional nacional do Butão, lançada em 2009, foi um apoio para a visão holística de desenvolvimento do país pela Felicidade Interna Bruta.

A estratégia que o Ministério da Educação adotou na implementação do programa foi chamada de Nurturing Green Schools for Green Bhutan. A publicação de Minha Escola Verde, traduzida para 18 de algumas das maiores línguas do mundo, incluindo o português, foi um grande passo na concretização da visão da iniciativa reformista.

Como representado na Mandala de Sherig, a educação deve ser vista em oito níveis de consciência – ambiental ou ecológica, social, cultural, intelectual, acadêmica, estética, espiritual e ética ou moral – que, juntos, constituem a arquitetura de um sistema educacional sólido que vai além de preparar jovens homens e mulheres apenas para atender às demandas impiedosas do competitivo mercado de trabalho.

Foi, portanto, importante trazer todas as partes interessadas a bordo e capacitá-las com o conhecimento e as habilidades necessárias para lidar com as reivindicações de todos os domínios vitais em todo o sistema educacional.

As ideias de Felicidade Interna Bruta e de escolas verdes podem ser aplicadas em qualquer parte do mundo?

Enquanto existir amor à vida em suas infinitas formas, enquanto os seres humanos olharem para a educação como um processo gentil para levar a mente humana a olhar para e pelo amor – que é verdadeiro, bom, bonito e útil –, a visão de Escolas Verdes será relevante e necessária para o mundo, independentemente do local ou do tempo.

Quais são os principais benefícios em oferecer uma educação holística, compreendendo diferentes aspectos além do intelecto?

Eu sou um esperançoso, talvez o último soldado solitário a resistir, de que a educação é um setor nobre do bem público.

O processo de ensino e aprendizagem, em essência, deve ser um meio para engajar os educandos, em todos os níveis de seus estudos. Principalmente, para cultivar a nobreza da mente, do coração e das mãos – preparando, assim, nossos jovens para liberar a nobreza de pensamento, sentimento e ação para a sociedade em geral após a formatura.

Infelizmente, no entanto, os modelos atuais de educação perderam imensamente a nobreza e a graça, seguindo uma abordagem altamente mentalista, utilitária e limitada. Ela ignora os outros elementos vitais que nos tornam o que somos – dotados de uma consciência bem desenvolvida como seres humanos.

Minha Escola Verde é um caminho para a educação holística, se esforçando para restaurar o processo de ensino e aprendizagem na sublime tradição que busca harmonizar a necessidade de aguçar cérebros e habilidades com o imperativo de construir fé e caráter. Tal abordagem integrada redime a convencional, a qual muitas vezes está à mercê da mente tiranizadora. Essa abordagem míope desse setor tão vital para o bem comum poderia explicar porque o mundo está no estado em que se encontra. Daí surge o apelo urgente para restaurar a educação à sua função central para o florescimento humano e social.

Qual é o papel da herança cultural de um país na formação dos seus cidadãos?

A cultura é a manifestação dos objetivos e do ser subjetivo de uma nação e de uma comunidade. A cultura é também uma expressão da forma como eles são e da maneira que temos de ser. Isso se manifesta por nosso corpo, discurso e pensamento – em nossa linguagem e literatura, costumes e trajes, arte e arquitetura, comida e bebidas, músicas e danças, esportes e jogos, crenças e superstições, perspectiva e visão de mundo.

A cultura é para um povo o que a fragrância é para uma flor – ela fala sobre o senso de identidade nacional, sua singularidade, seu respeito próprio e sua integridade. É um ponto de referência para o povo, dá a eles o senso de quem são e ao lugar a que pertencem. É, portanto, extremamente importante fazer da valorização de diferentes expressões culturais uma parte vital da aprendizagem através de uma perspectiva intergeracional.

Aprender a entender e apreciar as nuances culturais, pontos e contrapontos, expressões tangíveis e intangíveis, signos, símbolos e marcos que fizeram parte da evolução dos povos e das nações são um indicador importante de civilização. A educação não pode se dar ao luxo de perder esse domínio vital.

Para uma Escola Verde, é importante que o professor seja um exemplo de ser humano. Qual é a importância de assegurar a saúde mental desses profissionais nesse contexto?

Com todas as tecnologias de ponta, símbolos de inovação implacáveis e abordagens inteligentes, a presença do professor humano ainda é fundamental no modelo de aprendizagem da Escola Verde. Para esclarecer, verde é uma cor, mas, mais do que isso, é uma metáfora. Verde representa tudo e qualquer coisa que apoie e sustente a vida em toda a sua infinita variedade – humanos, animais, plantas, pássaros, répteis, insetos e todas as outras formas de vida em todos os reinos.

Portanto, a abordagem da Escola Verde é a favor da vida. Implementar uma metodologia de ensino holística, integrada e abrangente pode colocar uma grande pressão nos professores. No entanto, uma vez que esses profissionais estejam dispostos a descobrir a alma do seu papel, o ensino se torna uma cura, uma missão libertadora e gratificante dedicada a tornar o mundo um lugar melhor. Nós precisamos empoderar nossos professores para chegarem a esse nível de realização da sua missão.

Ensinar é o trabalho mais difícil do mundo. Mas também é a missão mais bonita.

Destina-se a capacitar os alunos, melhorar as sociedades e transformar as nações. À medida que os professores redescobrem seu momento de verdade e encontram seu lugar seguro dentro do que chamo de Triângulo Nobre – formado pelo amor aos alunos, paixão pelo aprendizado e convicção do poder do conhecimento –, os professores serão uma força poderosa na tarefa de tornar o mundo um lugar mais bonito e gracioso.


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