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Tecnologia assistiva promove acessibilidade e equilíbrio na aprendizagem

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Deficiente visual, Molina é professora da Universidade de Taubaté. Crédito: divulgação.

Luciane Molina nasceu com baixa visão e foi alfabetizada usando o recurso de letras ampliadas. Mas aos 13 anos sua visão piorou, obrigando-a a aprender em braille.

Em 2000, ao entrar na graduação de Pedagogia da Organização Guará de Ensino (OGE), no Ceará, Molina sentiu falta do recurso. A faculdade não tinha sistema de educação em braille. A solução foi frequentar as aulas com o suporte da mãe.

“Ela se matriculou no curso e me acompanhou em todos os dias de aula. Ditava a matéria do quadro para que eu escrevesse em braille e era minha escriba nas provas bimestrais. Também gravava em áudio os livros e apostilas”, relembra Molina. Os colegas também a ajudavam.

Hoje, quase duas décadas depois, Luciane Molina não só está formada como prestes a concluir o mestrado. Sua dissertação é sobre educação inclusiva. Desde 2017, também compõe o corpo docente da Universidade de Taubaté (Unitau), em São Paulo, como tutora de 13 cursos de licenciatura na modalidade EAD.

A mãe de Molina não precisou mais ajudá-la. Isso graças à evolução – ou revolução – da tecnologia assistiva. São recursos, produtos e serviços que ampliam as habilidades funcionais dos alunos com deficiência. Aqui, entram dispositivos e aplicativos com ferramentas de áudio-descrição capazes de reconhecer cores, converter textos impressos em voz e descrever cenas e rostos.

Boa parte dessas soluções é desenvolvida por inteligência artificial – mais precisamente por machine learning (aprendizado de máquina, em português). O trabalho é feito a partir de algoritmos, softwares e outras ferramentas digitais que permitem às máquinas entender, aprender, tomar decisões e assumir tarefas operacionais.

Leia mais: Chatbots na educação: um novo jeito de aprender e ensinar

Acessibilidade do conteúdo

A presença de pessoas com deficiência nas faculdades públicas e privadas do país cresceu 709% entre 2004 e 2017, quando ultrapassou a marca de 38 mil alunos.

Para efeitos de comparação, também em 2017 havia 827 mil matrículas desse grupo na educação básica. O avanço sugere uma tendência ao ensino superior – que deve receber mais estudantes com deficiência nos próximos anos.

Nesse sentido, as instituições precisam estar atentas às funcionalidades de seus ambientes virtuais de aprendizagem (AVA ou LMS, na sigla em inglês). Todo estudante com deficiência deve ser capaz de acessá-lo, visualizar os conteúdos e compreendê-los com a mesma eficácia de um colega sem limitações.

Ao ampliar a acessibilidade dos conteúdos, a instituição de ensino superior (IES) não só garante o direito básico à educação como diminui o risco de evasão dos estudantes deficientes.

Além do mais, a acessibilidade do conteúdo é um dos critérios avaliativos do Ministério da Educação (MEC). Caso não a ofereça, a IES perde pontos e corre até mesmo risco de não ter o credenciamento autorizado.

Para auxiliar na tarefa, o World Wide Web Consortium (W3C), principal organização da padronização da web, criou um conjunto de diretrizes chamado WCAG 2.0 (Web Contents Accessibility Guidelines). O documento é voltado para designers e desenvolvedores, mas também serve de guia à seleção dos softwares e hardwares de acessibilidade em sites e ambientes virtuais de aprendizagem.

O Hand Talk, por exemplo, foi eleito pela W3C um dos três melhores projetos para acessibilidade na internet. O app realiza tradução digital e automática para a Língua Brasileira de Sinais (Libras) de todo o conteúdo em áudio, texto, foto ou vídeo exibido na tela de um computador, tablet ou smartphone.

Hand Talk auxilia no aprendizado de deficientes auditivos. Crédito: divulgação.

A tradução é feita pelo Hugo, personagem esguio, de braços longos, mãos e cabeça grandes, características que facilitam a expressão corporal e facial – tão importante para a compreensão de deficientes auditivos. Caso o vocabulário não esteja incluso em sua programação, Hugo soletra a palavra.

A Sagah, desenvolvedora de conteúdo e tecnologia para instituições de ensino, foi uma das empresas que integrou o Hugo à própria plataforma.

“Pesquisamos e testamos diferentes tecnologias que pudessem ser integradas à nossa metodologia para proporcionar uma experiência completa de aprendizagem às instituições”, diz Daiana Rocha, gerente de produção de conteúdo digital da Sagah.

“Hoje, nossas unidades de aprendizagem são 80% acessíveis”, acrescenta ela, que é membro do conselho editorial do portal Desafios da Educação.

Além do Hugo, a empresa também adotou o Jaws, para deficientes visuais. O aplicativo é treinado para ler informações expostas na tela do dispositivo, reconhecendo comandos de voz feitos pelo usuário.

A Sagah utiliza o Jaws em seus ambientes virtuais de aprendizado. Crédito: divulgação.

“Quando empresas como a Sagah já oferecem esses recursos embutidos no conteúdo, a gestão fica mais fácil para as instituições de ensino, pois elas não precisarão fazer adaptações”, ressalta Daiana Rocha.

Mercado de tecnologia assistiva deve crescer

Não é que a tecnologia assistiva seja a panaceia para uma educação mais inclusiva e igualitária. Mas ela – juntamente com um bom plano pedagógico, que exige formação continuada dos professores e demais profissionais da instituição –, é um recurso indispensável caso o objetivo seja o de promover maior acessibilidade no setor.

Essa realidade, atrelada à tendência de crescimento de alunos com deficiência, faz com que cada vez mais empresas apostem no mercado. Segundo estimativa da consultoria Coherent Market Insights, o mercado global de dispositivos para pessoas com deficiência e idosos deve superar os US$ 26 bilhões até 2024 – o valor foi de US$ 14 bilhões em 2015.

Teclado em Braille auxilia os usuários que possuem deficiência visual. Crédito: Uniaraxá.

Em maio do ano passado, a Microsoft investiu US$ 25 milhões para desenvolver, ao longo de cinco anos, projetos de inteligência artificial para pessoas com deficiência.

Já em parceria com o grupo Unip-Objetivo, a multinacional investiu em ferramentas com legendas simultâneas em até seis idiomas e buscas indexadas ao conteúdo de videoaulas.

“Na prática, isso significa que se o aluno estiver buscando um trecho específico do vídeo, basta que pesquise por um determinado termo e ele poderá acessar o trecho que se refere ao tema”, explica Antônio Moraes, diretor de educação da Microsoft no Brasil.

Aqui, a acessibilidade não é vista apenas pela perspectiva das pessoas com deficiência. É um conceito que se aplica a todo estudante universitário. Não custa lembrar que só 22% dos brasileiros que chegam à universidade têm plena condição de compreender e se expressar, conforme a pesquisa Indicador de Alfabetismo Funcional, conduzida pelo Instituto Paulo Montenegro em parceria com a ONG Ação Educativa.

Ou seja, recursos que facilitam a rotina de estudos são um meio de prover maior acessibilidade à educação. O esforço também se aplica a alunos de outras nacionalidades, que vivem em áreas remotas, idosos ou mais atarefados.

A aposta das edtechs

A Samba Tech, companhia brasileira que fornece tecnologia para distribuição de vídeos na internet, lançou três ferramentas voltadas à acessibilidade: duas para pessoas com deficiência auditiva e uma para alunos com deficiência visual. Nesta, os estudantes têm total controle sobre o que assistem – com autonomia para iniciar, pausar, avançar ou retroceder o vídeo.

“Nossa tecnologia foi desenvolvida para suportar a distribuição desses vídeos com segurança e escalabilidade, e ainda agregar uma camada de inovação, interatividade e experiência do usuário, auxiliando as instituições de ensino e cursos livres com atração e retenção de alunos”, afirma Pedro Filizzola, CMO da Samba Tech.

Atualmente, 50% dos clientes da Samba Tech são da área de educação. Entre eles estão Kroton e Ser Educacional.

Já a Blackboard, cuja divisão brasileira oferece LMS para a Ser Educacional e outras IES, como Insper, Laureate, Ibmec, Cruzeiro do Sul e ESPM, adquiriu em 2017 a britânica Fronteer e seu carro-chefe, o Ally. O produto foi desenvolvido para ajudar instituições de ensino e professores a melhorar a acessibilidade dos conteúdos de cursos online.

O Ally gera arquivos em diferentes formatos, de acordo com a necessidade. Estudantes têm acesso a conteúdos em HTML responsivo, tagged PDF, áudio, ePub (de e-books) e braille eletrônico.

A solução também permite ao aluno scannear um livro físico e transformá-lo em um PDF acessível ou em áudio.

Por meio de machine learning, a tecnologia assistiva da Blackboard é capaz de identificar padrões e se adaptar às particularidades de cada usuário. Mesmo desenvolvido para pessoas com deficiência, o recurso também é útil a quem não tem limitações. O aluno pode escutar um artigo traduzido pelo programa – e estudar – enquanto dirige ou pratica exercícios físicos, por exemplo.

O Ally é compatível com o Blackboard Learn, Open LMS e com alguns outros LMS do mercado. O sistema já está disponível no Brasil.

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Confira a série Inclusão e acessibilidade no ensino superior

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