Ensino Superior

Qual a importância dos rankings acadêmicos? Entrevista com Adolfo Ignacio Calderón

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Quando o debate é sobre qualidade no ensino superior, os rankings acadêmicos – ou universitários – são argumentos valiosos. Além disso, esses levantamentos influenciam as escolhas de futuros alunos, orientam políticas governamentais e balizam movimentos do mercado e da sociedade civil.

Para entender a importância e o funcionamento dos rankings acadêmicos, o Desafios da Educação entrevistou o professor do programa de pós-graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), Adolfo Ignacio Calderón.

Calderón desenvolve uma série de pesquisas sobre os rankings acadêmicos, além de ser um dos fundadores da Rede Brasileira de Pesquisa em Rankings, Índices e Tabelas Classificatórias na Educação Superior (REDE RANKINTACS) e membro do conselho consultivo do Ranking Universitário Folha.

Confira, abaixo, a entrevista completa:

O que, de fato, são os rankings acadêmicos ou universitários?

Poderíamos chegar a diversas definições do que seriam os rankings acadêmicos. Tudo depende da perspectiva teórica adotada ou do lugar ocupado no cenário educacional, das políticas públicas e do mercado. Sob meu ponto de vista, não são mais do que instrumentos, tabelas classificatórias de abordagem quantitativa que, com suas potencialidades e limites, contribuem para a avaliação da qualidade da educação superior.

Porém, a questão da qualidade da educação superior é tão complexa que instrumentos exclusivos, como os rankings, não poderiam ser os únicos a definir o que seria um curso ou uma IES de qualidade, uma vez que sabidamente eles apresentam muitas limitações em avaliar contextos heterogêneos numa perspectiva comparada.

Leia mais: O desempenho do Brasil no QS World University Ranking 2022

Se eles são somente mais um instrumento de avaliação, por que têm ganhado tanta força nas últimas duas décadas?

Desde a criação dos grandes rankings acadêmicos internacionais, com sua capacidade de identificar as melhores universidades do mundo, isto é, desde 2003, quando foi lançado o Ranking Shangai, eles têm ganhado uma força avassaladora, proliferando-se em âmbitos internacional, regional e nacional, constituindo-se ainda um emergente campo de estudos. A meu modo de ver, sua força radica em vários aspectos, dentre os quais eu destacaria sua capacidade de ser um instrumento regulador não-estatal do mercado educacional e de grande visibilidade na mídia.

O que seria exatamente ser um instrumento regulador não-estatal?

Por meio da divulgação de seus resultados, os rankings acabam influenciando a tomada de decisões dos consumidores em potencial dos diversos serviços oferecidos pelas IES. Dessa forma, eles impactam nos diversos mercados educacionais nos quais as IES interagem e estão inseridas, sejam para obter capital simbólico ou para a captação de recursos financeiros.

A regulação se daria a partir da escolha de uma forma mais consciente dos cidadãos-consumidores de serviços educacionais. Munidos de informações resultantes dos rankings, os alunos optam por um serviço em detrimento de outro. Assim, ao possibilitar maior transparência de informações e maiores condições para uma escolha consciente, desencadeiam-se processos de regulação não-estatal.

Quais outros aspectos conferem força aos rankings acadêmicos?

Outro aspecto a ser ressaltado seria a capacidade que esses instrumentos de avaliação têm de induzir a melhoria da qualidade das IES e seus cursos via concorrência. Os rankings acadêmicos impactam não somente as IES de grande porte, mas também as de menor tamanho – e não somente as IES estatais, mas também as do setor privado.

Os rankings medem a qualidade das IES?

Avaliar a qualidade da IES e seus cursos é uma tarefa complexa devido aos inúmeros fatores internos e externos que contribuem para a excelência acadêmica. Cada ranking trabalha com um conceito de qualidade diferente, resultado da combinação dos mais diversos indicadores, com variada predominância (objetivos, subjetivos ou híbridos) e de diversas naturezas (com foco em produtos, em insumos ou híbridos).

Sem dúvida alguma, avaliar a aprendizagem dos alunos de forma adequada é um dos pontos de vulnerabilidade dos rankings acadêmicos internacionais. Geralmente, eles ficam restritos a indicadores como percentual de doutores e mestres no corpo docente, proporção do número de professores por alunos, proporção de professores em tempo integral, que, de forma subjetiva, avaliam a qualidade do ensino.

Como fica essa questão da qualidade do ensino nos rankings nacionais?

Foram os grandes rankings internacionais – como o Academic Ranking of World Universities, mais conhecido como o Ranking Shangai, o The Times Higher Education World University Rankings e o QS World University Rankings –  que serviram de inspiração para importantes rankings nacionais que foram surgindo com metodologias bastante apuradas. Como exemplo, pode-se mencionar o RUF, promovido pelo Jornal Folha de São Paulo, e o Ranking de Calidad de las Universidades Chilenas, do jornal chileno El Mercurio. Ambos foram criados em 2012 com indicadores contextualizados para suas realidades nacionais.

Tanto os rankings internacionais quanto os nacionais acabam desempenhando papeis complementares, uma vez que nem todas as universidades têm perfil internacional, mas revelam-se de elevada qualidade em âmbito nacional ou de alcance regionalizado.

Leia mais: Ranking da THE 2022: quais são as melhores universidades brasileiras

Eles podem ser confiáveis?

Pode-se afirmar que os rankings avaliam somente aqueles dados que podem ser mensuráveis, seja por meio de abordagens quantitativas ou qualitativas, seja adotando dados de insumos ou produtos, deixando de lado uma ampla gama de importantes atividades universitárias.

Se eles são confiáveis? Acredito que hoje existe bastante cuidado e transparência em termos metodológicos. Geralmente, os rankings existentes são coerentes com suas propostas de avaliação e classificação de universidades e cursos. Cada ranking é diferente, tem suas especificidades, utilizam os mais variados indicadores, formas de coleta de dados, pesos e medidas. Decorre também ser de caráter complementar a outras formas de avaliação externa.

Quais são os impactos dos rankings acadêmicos nas IES de pequeno porte?

É evidente que os rankings internacionais dizem respeito a um restrito número de universidades das 203 universidades existentes no Brasil. Não existem estudos sobre os impactos dos rankings nos 322 centros universitários e nas 1891 faculdades em funcionamento no Brasil. de acordo com o Censo da Educação Superior de 2020.

Entretanto, uma rápida procura na internet permite visualizar que os resultados do Guia da Faculdade, dos Rankings de Cursos do RUF, do Exame do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) e do Selo OAB – Recomenda, são amplamente disseminados na internet e nas redes sociais, quando o assunto é a qualidade dos cursos independentemente da natureza das IES que os oferecem. Seu uso na forma de marketing é incontestável.

Apesar de suas vulnerabilidades e imprecisões, os rankings acadêmicos vêm se tornando ferramentas no campo da governança universitária e na prestação de contas à sociedade mesmo nas faculdades de pequeno porte.

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Como as universidades devem se apropriar desses rankings e de seus resultados?

Estudos realizados evidenciam que as IES estão deixando de ver os rankings acadêmicos como meras ferramentas de marketing e propaganda institucional para serem utilizados como ferramentas de gestão universitária.

Há evidências de que importantes universidades públicas e privadas estão incorporando em seus Planos de Desenvolvimento Institucional (PDI), isto é, nas bussolas que as norteiam, o monitoramento da qualidade por meio de rankings e a melhora de seu desempenho institucional.

Estudos têm demonstrado como os rankings acadêmicos vêm impactando na governança universitária, cujos indicadores acabam-se tornando como faróis que norteiam a navegação de algumas destacadas universidades que aspiram realizar voos mais altos que ultrapassem as fronteiras nacionais.

As universidades com maior projeção internacional têm criado setores específicos para o monitoramento das métricas internacionais e nacionais. Entretanto, muitas universidades acabaram criando grupos de trabalho vinculados aos seus setores de planejamento, como é o caso da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), entre outras.

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