Um olhar sobre a solidificação do ensino superior privado no Brasil

Um olhar sobre a solidificação do ensino superior privado no Brasil

*Por Maria Carmen Tavares Christóvão

Após a 3ª edição do Congresso Brasileiro de Educação Superior Particular (CBESP), realizado em Florianópolis no ano de 2010, com o apoio do professor Gabriel Mario Rodrigues, percebi que estava diante da especial possibilidade de criar um canal de comunicação para aproveitar um movimento de relacionamento entre os participantes.

Foi então que iniciei um Fórum Acadêmico no Google Groups, criando um ambiente que pudesse contribuir com o propósito de discutir os assuntos de Educação tratados no Congresso. Foi sugerido que a partir da Carta de Florianópolis discutíssemos e julgássemos o que fosse mais preponderante. Definimos algumas regras e pautas e os interessados foram acolhendo a ideia e se manifestando.

Na ocasião, a preocupação com a imagem do Ensino Superior Particular era um desafio e o diálogo junto ao MEC quase que uma barreira intransponível. Percebo o quanto avançamos. A Consolidação dos trabalhos prestados pela Associação Brasileira das Mantenedoras do Ensino Superior (ABMES) ao longo de todos esses anos foi um ativo importante para tivéssemos a imagem, a reputação e o respeito que hoje temos.

Outro aspecto fundamental foi a aproximação entre ABMES e MEC. Hoje existe uma relação de parceria, evolutiva, de qualidade e o reconhecimento da importância do diálogo na construção de políticas públicas.

Com o advento da tecnologia, foi criado não apenas o blog da ABMES, mas a ABMES TV e tantos outros serviços agregados que dão ao mantenedor segurança e comprometimento com a Associação.

Por ocasião do III CBESP e criação do Fórum Acadêmico tínhamos alguns pontos de debates que julgávamos importantes. São eles:

  • Avaliação do Ensino Superior Particular
  • Comunicação e Imagem do Ensino Superior Particular
  • Ensino Superior
  • Inovação em Serviços Educacionais
  • Plano Decenal de Educação – 2011/2020
  • Qualidade no Ensino Superior Particular
  • Realizações e Ações do Fórum Acadêmico
  • Regulação do Ensino Superior Particular
  • Supervisão do Ensino Superior Particular

Esses temas de debates foram traduzidos pelo professor Edson Nunes na ocasião em forma de questionamentos, o que contribuiu com o levantamento de pautas relevantes ainda hoje para o setor. Ao recordar suas inquietações percebemos o quanto são atuais. Para reflexão sobre os avanços e os desafios que continuamos a ter que enfrentar, elaborei uma síntese de algumas das proposições trazidas pelo professor Edson.

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1. O ensino superior privado possui diversas entidades representativas e nem todas elas conseguem se agregar em torno de algumas ideias centrais. O ensino superior público (federal) possui uma única entidade representativa: a ANDIFES. Isto permite uma única forma de se manifestar. No caso do ensino particular não se consegue essa unidade e nem o Fórum de Parlamentares consegue isto também. Quando se pensa em ABRUC (comunitárias) e em ABRUEM (estaduais e municipais) no Conselho de Reitores, por exemplo, elas partilham da condição de “públicas” por adoção. Confio que o diálogo é essencial a esse processo de agregação.

2. É preciso reconhecer que o ensino superior privado, até mesmo pela quantidade de instituições educacionais, é absolutamente diversificado em sua qualidade intrínseca. Há pecados em umas e virtudes em outras instituições.

3. Se há dificuldades de comunicação em geral, ao menos encontremos a necessária unidade virtual de comunicação para o ensino superior particular. Isto pode neutralizar as acusações. Temos de nos fixar, nessa unidade virtual, com alguns indicadores de qualidade que não são apenas os apresentados pelo Governo. Isto proporcionará a identificação de alguns diferenciais do ensino superior privado para contrapor aos supostos diferenciais do ensino superior público. Salvam-se poucas instituições privadas capazes de serem consideradas de qualidade pela sociedade. Tentemos refletir sobre tais instituições. Ninguém pensa, em sã consciência, que todas as públicas são de excelsa qualidade.

4. As IES precisam aprender a produzir Relatórios como fazem as grandes empresas. Não é só para mostrar resultados internos, mas manifestações de consultores de qualidade (externos). Relatórios servem para mostrar crescimento e devem ser produzidos inclusive em momentos difíceis.

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5. Como vencer o descrédito? Se o Dunga foi descrente com os jovens (Neymar, Paulo Henrique) a sociedade compreendeu o corte dos antigos jogadores não convocados (Ronaldo, Ronaldinho, Adriano etc). A lição é que precisamos agir com unidade, estabelecendo nossos critérios de qualidade. Há três estágios sobre os quais precisamos pensar: a) estágio um: antes do aluno ingressar na IES; b) estágio dois: enquanto o aluno está estudando conosco; c) estágio três: após o curso, oferecendo ao antigo aluno a oportunidade de maior aprendizado sem que isso seja simplesmente um “curso de especialização”. Quem de nós está oferecendo “vestibular para treineiro” e após a realização do mesmo, está recompondo conhecimentos não revelados no “vestibular” realizado? Quem está instrumentando (ensinando mesmo) Coordenadores para que saibam realmente efetuar o planejamento de ensino durante o curso? Quem de nós está oferecendo algum “recall” para antigos alunos? Há alguma pesquisa sobre problemas detectados pós-curso? E o que foi feito em função dos resultados dessas pesquisas?

6. Diferenciais, até que ponto eles despontam na sociedade a favor das IES privadas? Pensou-se, por exemplo, que a oferta de cursos-sanduíches (no Exterior) resultaria numa febre de demanda. A demanda foi desprezível e o diferencial não funcionou. O diferencial que funciona é aquele que desponta na mente da sociedade. Quem frequentou a IES dá o testemunho da qualidade. Diferencial, então, depende de experimentação? Claro que sim. Ele pode ser concebido previamente, mas só se tornará realidade na medida em que funcionar na mente social. Daí que a melhor propaganda é a do testemunho.

7. Minha grande questão é: quem ou quais dos dirigentes das entidades representativas do ensino superior privado está mesmo empenhado em encontrar o veio da unidade do discurso da qualidade? Esse veio somente será encontrado com o diálogo da humildade, com o desprendimento da generosidade, com o acolhimento da modéstia, com a paciência da busca. É preciso fazer isto. Caso contrário continuaremos no descrédito e os Governos continuarão a fazer seus “rankings”, chegando na mídia antes mesmo de anunciar, para nós, os resultados das avaliações que vem fazendo. Há espaço para discutirmos a unidade? Há tempo para essa discussão? Já não estamos sequer ficando bons em nossos discursos.

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A busca por significado e propósito no fortalecimento do Ensino Superior Particular continua ser a tônica da ação da ABMES. Caminhamos em vários aspectos e hoje são novos os desafios que se apresentam, tanto para a ABMES quanto para cada uma das Instituições associadas. Mas, a questão da qualidade de ensino continua a ser o cerne, o elemento central para fortalecimento da imagem das instituições privadas.

Termino a reflexão sobre a trajetória da ABMES e suas associadas nesse curto espaço de tempo destacando o que eu apontei na ocasião sobre o que considero ser uma boa faculdade.

Boa faculdade é aquela que, superando as etapas da instrução e treinamento consegue tecer sua pedagogia em torno de um conceito de educação que garanta a legítima autonomia intelectual de seus alunos, reconhecendo e potencializando talentos. É assim que as grandes escolas se referendam quando colocam profissionais no mercado.

Há uma marca, uma reputação que é prioritária para muitos candidatos a um diploma de 3º grau. Tal marca transcende falsas economias e projeta uma parcela de futuros universitários para a proposta de um ensino de excelência. Para tal, penso, cabe a cada faculdade focar em seus diferenciais, apostando nas variáveis do ensino, pesquisa e extensão.

*Maria Carmen Tavares Christóvão é mestre em Gestão da Inovação e Gestora Educacional e consultora em Inovação Educacional da Revista Linha Direta. Texto originalmente publicado no blog da Associação Brasileira das Mantenedoras do Ensino Superior (Abmes).