Ensino Básico

“O segundo idioma quebra barreiras quando chega nas escolas”, diz Marina Dalbem, da Edify Education

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A educação bilíngue é uma tendência em ascensão no Brasil. Entre 2014 e 2019, o número de escolas bilíngues cresceu 10%, de acordo com uma pesquisa da Associação Brasileira Ensino Bilíngue (Abebi) e da Organização das Escolas Bilíngues de São Paulo (Oebi). 

As diretrizes para a regulamentação da educação bilíngue no país foram aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) durante a pandemia, em julho de 2020. Agora, o documento aguarda a homologação do Ministério da Educação (MEC).  

Nesta entrevista ao Desafios da Educação, a CEO da empresa de programas de ensino bilíngue Edify Education, Marina Dalbem, fala sobre as perspectivas da modalidade no Brasil, os desafios e caminhos para sua implementação em escolas públicas e privadas, entre outros temas. 

CEO da empresa de programas de ensino bilíngue Edify Education, Marina Dalbem. Foto: Divulgação.

O que explica o crescimento do ensino bilíngue no Brasil? 

Existe uma expectativa entre os pais para que as escolas absorvam a responsabilidade de empregar uma formação integral, algo que elas sempre se propuseram a fazer. Mas, agora, a formação integral não existe se não houver o ensino da língua inglesa.   

Estamos preparando nossos alunos para serem cidadãos do mundo. Nesse cenário, não tem como eles não falarem uma segunda língua, que no contexto atual é o inglês. Vemos os pais exigindo isso cada vez mais das escolas, porém, as instituições se adequam da forma que conseguem.  

Algumas escolas realmente viraram bilíngues, com 40% ou 50% da carga horária destinada à língua inglesa. Contudo, muitas delas apenas adaptaram o currículo com um aumento da carga horária do inglês. Ou seja, toda essa demanda vem muito da expectativa dos pais.  

Isso acarretou uma mudança nas escolas. Vemos outros países da América Latina que já passaram por esse momento antes do Brasil. Alguns exemplos são México, Argentina e o Uruguai. Por essa razão, vemos que esse crescimento é uma tendência que se sustentará por muito tempo.  

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Como as escolas podem “surfar nessa onda” e implementar a modalidade em seus currículos?  

Não é simples implementar uma solução de língua inglesa reforçada. O programa bilíngue regular vem com seus desafios. Normalmente, é complicado preparar as equipes dentro das escolas, seja por conta da formação em língua inglesa ou pelos professores, coordenação e mantenedores. Para ter sucesso nesta implementação, as escolas recorrem a parceiros como nós [Edify Education].  

Existem vários desafios nesse processo. Começando com encontrar professores capacitados. A primeira coisa que fazemos é ajudar as instituições com a seleção desses profissionais. Realizamos a testagem da parte linguística e oferecemos um banco de currículos por região.  

Dessa forma, a escola consegue entrevistar pessoas testadas no inglês. Obviamente, não conseguimos recomendar um professor específico, pois entendemos que cada escola possui uma realidade distinta. Elas precisam conseguir um professor que se encaixa em suas demandas. Porém, indicamos pessoas que são linguisticamente qualificadas para ocuparem os cargos.  

Depois, nos certificamos que esses professores realmente consigam trabalhar os conteúdos e essa forma diferente de entregar a língua inglesa dentro das salas de aula. Isso envolve observar as aulas, pelo menos, quatro vezes ao ano. Precisamos garantir que aquele professor sabe trabalhar com os materiais, que entende a nossa abordagem e outros aspectos importantes. A prática de inglês muda muito entre o sistema tradicional e o bilíngue.  

Como esperamos que o inglês não seja uma disciplina por si só e sim uma ferramenta de comunicação, esperamos que os professores falem e pratiquem muito esse idioma dentro das salas de aula. O que significa que a aula de inglês deve ser barulhenta, os alunos devem falar entre si.  

Nem todos os professores foram preparados para trabalhar com salas de aula nesse formato. Também oferecemos formação continuada aos professores, para que assim eles consigam chegar nesse lugar de entrega de uma educação bilíngue de qualidade.  

O último desafio é promover conteúdos inovadores, diferentes e engajadores para cada faixa etária. Precisamos mostrar aos pais que esses estudantes estão de fato aprendendo inglês.  

Hoje, somos a única solução do mercado que entrega uma mensuração desse aprendizado. Fazemos provas diagnósticas ao longo de todo o processo e também destacamos momentos específicos na trajetória desses alunos para implementar uma prova de mensuração. Essa ação atesta o nível Common European Framework, régua de fluência da língua inglesa. Isso fecha o que chamamos de Tripé de Desafios da Implementação.  

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As escolas bilíngues são majoritariamente privadas. Quais os principais incentivos para que as escolas públicas possam aderir ao modelo? 

Já trabalhamos em um formato que atendia escolas públicas, algo super importante para nós. Queremos muito tornar algumas municipalidades bilíngues. Fizemos isso com a prefeitura do Rio de Janeiro, mais ou menos entre 2008 e 2017. Na época, tínhamos 11 escolas bilíngues em que chegamos a dez horas semanais de aulas.   

Conseguimos fazer isso em conjunto com a prefeitura justamente porque estávamos desde o começo com a iniciativa. Ajudamos a selecionar os professores, desenhando a prova do concurso a fim de chamá-los. Elas não eram apenas escritas, mas também orais.  

Ainda desenvolvemos um conteúdo que era muito adaptado a essa realidade. Tudo era contextualizado, atendemos muitos pré-requisitos de desenvolvimento de materiais didáticos, que geralmente vem do setor público.   

Rodamos isso com dois tempos semanais, com 100% das escolas do Rio de Janeiro e 11 escolas bilíngues que tinham dez horas semanais de carga horária. Sabemos que funciona e que é factível implementar. 

Precisamos dar incentivos para que os municípios corram atrás desse modelo. Hoje, isso depende de ter corpo docente – esse é o primeiro passo. As prefeituras precisam se preparar para contratar professores capacitados a fim de ministrarem aulas neste formato.   

Também é interessante fazer parcerias com empresas que se proponham a investir em projetos como esses. Há algumas prefeituras que possuem uma relação muito próxima com empresas e indústrias localizadas nessas regiões.  

Sempre existiu a visão de que se não entregar o básico dentro da escola pública, não há como aplicar o inglês. Essa língua constrói justamente a questão da autoestima. Temos que provar que o inglês também é para esses alunos. Um segundo idioma quebra barreiras quando chega nas escolas. O CNE já está se posicionando sobre os meios que as escolas públicas podem seguir para viver essa tendência. 

Levando o contexto atual brasileiro, qual o maior desafio das escolas bilíngue no país? 

O maior desafio está relacionado ao corpo docente e sua formação. Cerca de 61% das pessoas que se formam em pedagogia vem do ensino a distância. Por mais que o currículo seja bom, eles tiveram pouca exposição em sala de aula. 

Isso é um grande desafio, principalmente pensando no futuro. Não é apenas a fluência que importa, mas também ter a competência de lidar com a sala de aula de maneira satisfatória.  

Por essa razão, as instituições devem mudar a forma de pensar a educação dos professores. É imprescindível estar atento a esses profissionais que estão adentrando ao mercado de trabalho.   

As novas diretrizes que regulamentam as escolas bilíngue foram aprovadas pelo CNE, mas ainda não foram homologadas pelo MEC. Por que há esse entrave? 

Há uma dificuldade para caminhar com as pautas em geral. Eu não entendo que haja um viés político que tenha paralisado especificamente essa proposta. Contudo, sabemos que há diversos temas que estão estagnados.  

Entretanto, tivemos muitas coisas mudando. Por exemplo, o próprio Novo Ensino Médio, que mostrou uma mobilização do MEC e das escolas para a estruturação dessa novidade na educação. Também houve várias mudanças relevantes, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Ainda há toda uma discussão enorme em torno da prova do Enem. Ele ser revitalizado dentro do contexto do Novo Ensino Médio já é um próximo passo.  

Essas são pautas muito relevantes e, muitas vezes, acabam ganhando prioridade. Mas esperamos que logo consigamos caminhar com isso, pois, enquanto o CNE não se posicionar, haverá muito “gato sendo vendido por lebre”. Além disso, enquanto essa regulamentação não caminhar, as escolas públicas não irão acompanhar.  

O que está no documento hoje está super em linha com o que pregamos. Por essa razão, ao nosso olhar, a iniciativa seria muito positiva se fosse homologada logo.   

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Quais os principais ganhos aos seus alunos com a implementação desse modelo? 

O inglês, como ferramenta de comunicação, trabalha muito as soft skills. Há esse conceito muito costurado no material, porém, é muito claro que o trabalho bilíngue tem impactos que são perenes do trabalho linguístico. Principalmente aquele que começa desde cedo, mais especificamente aos dois anos de idade.  

Sabemos que isso influencia de forma positiva na neuroplasticidade. Isso também provoca a flexibilidade cognitiva das crianças, conforme elas forem crescendo. Portanto, o inglês também se relaciona às hard skills.  

Existem diversas pesquisas que comprovam realmente o impacto na performance desse aluno, até mesmo em outras matérias. Com isso, o segundo idioma acaba vindo muito com o trabalho de STEAM, que tem sido muito forte fora do Brasil. Vemos essa correlação. 

Como a tecnologia ajuda instituições nessa implementação? 

A minha crença é que as ferramentas digitais vieram para ajudar a educação em dois pontos principais: o primeiro é personalizar. Eu consigo de fato tratar cada aluno como um indivíduo, entendendo em qual nível de proficiência que ele está.  

Uma turma de escola é multinivelada, algo que a difere muito de cursos de inglês. Isso porque, nas escolas, os alunos são agrupados por faixa etária e não por nível. Nesse cenário, as ferramentas digitais ajudam a personalizar as aulas.  

O segundo ponto é a mensuração. Com a tecnologia, é viável medir os resultados o tempo todo. Seguir esses processos, por meio da tecnologia, é garantir que o estudante está tendo a melhor trajetória de aprendizagem possível.   

O contato com um segundo idioma ainda na infância gera vantagens no mercado de trabalho? 

Atualmente, o que mais faz diferença na vida das crianças em relação às pessoas que estudam o inglês mais velhas é a confiança. Elas são mais seguras na hora de escrever e falar. 

O que mais prejudica aquele aluno que aprendeu tarde é que ele fica pensando e traduzindo. Isso acaba o deixando inseguro. Com as crianças que trabalham com a língua desde muito cedo, conseguimos garantir que o processo cognitivo seja natural.   

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