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Como promover uma alfabetização baseada em evidências: entrevista com Renan Sargiani

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Em junho, a editora Penso lançará “Alfabetização Baseada em Evidências”. O livro, organizado por Renan Sargiani, traz uma série de capítulos – assinados por especialistas nacionais e internacionais – sobre a importância da ciência na alfabetização das crianças.  

Sargiani é doutor em Psicologia Escolar e Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutor em Psicologia, pela USP, e Psicologia da Educação, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Atualmente, é professor de Psicologia na Universidade Cruzeiro do Sul e presidente do Instituto de Educação Baseada em Evidências (Edube). 

Nesta entrevista, ele explica a abordagem proposta no livro, as dificuldades de alfabetização no Brasil, o impacto da pandemia nas futuras gerações e critica o estado atual da formação de professores. 

Renan Sargiani é o organizador de “Alfabetização Baseada em Evidências”, livro que será lançado em junho pela editora Penso.

O livro ressalta a necessidade de embasamento científico para a alfabetização. Você acredita que esse conceito se perdeu nos últimos anos? 

Estudamos alfabetização há mais de um século. Mas as diferentes formas de estudá-la tomaram percursos não muito semelhantes. Foi por volta da década de 1960 e 1970 que as pesquisas começaram a convergir no mundo inteiro. Isso não significa que se tem uma única visão. Porém, há metodologias muito parecidas. Também existem entendimentos que levam a uma compreensão muito mais aprofundada sobre como as pessoas aprendem a ler e escrever e como ensiná-las de uma maneira mais eficiente.    

Essa noção é o objetivo do nosso livro, trazendo o que é uma alfabetização baseada em evidências. No Brasil, continuamos a reproduzir estudos de alfabetização muito pautados por uma única corrente teórica, dos anos 1980. Entretanto, essa corrente não encontra mais respaldo nas evidências contemporâneas. Existe descompasso entre o que se produz dentro da área da alfabetização no país e aquilo que internacionalmente conhecemos como pesquisa sobre alfabetização.  

O que caracteriza esse descompasso?

O interesse na alfabetização vem da vontade de entender como a mente compreende os sinais escritos. A escrita foi inventada há cerca de 10.000 anos – o alfabeto tem mais ou menos 3.500 anos. Nessa época, a educação não era para qualquer um. Mas, no século XX, a ideia de democratizar a educação se torna mais real. Quando se começa a alfabetizar mais pessoas, surgem vários problemas, como os conhecimentos e ritmos distintos de cada indivíduo. 

A ciência começou a evoluir, especialmente as neurociências, a partir da década de 1970. Nesse momento, os estudos começam a mostrar o que acontece no nosso cérebro quando aprendemos a ler e escrever. Acontece que muitas das teorias brasileiras se pautam em autores que vêm antes dessa revolução nas pesquisas sobre o cérebro. Hoje ainda não sabemos tudo, mas compreendemos mais sobre essa área do que na década de 1970. 

A maior parte das pesquisas foi desenvolvida na área da leitura na década de 1990 e nos anos 2000. Esses conhecimentos devem chegar nas salas de aula. Contudo, a maior parte dos currículos de formação de professores não são atualizados. Livros de 40 e 30 anos atrás continuam sendo recomendados. São obras que reproduzem teorias antigas, que tem o seu valor histórico, porém não se sustentam com base nas novas evidências.  

Segundo a alfabetização baseada em evidências, a alfabetização deve ter um embasamento científico mais atualizado, vigoroso, renovando ensinamentos predecessores. Como uma criança que aprende através de tablets, celulares e outros aparelhos tecnológicos aprenderá com o olhar de quem vivia em um mundo pré-digital? É complicado.  

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Então, como a ciência pode ajudar a melhorar as práticas de alfabetização nesse contexto?  

Existem diversas metodologias. Entretanto, a ciência ajuda a sair do caminho das ideologias e crenças, facilitando a tomada de decisões mais assertivas. Quando o paradigma da educação baseada em evidências é colocado em prática, a diversidade é respeitada. Porém, ainda permanece a necessidade de observância de pesquisas, estratégias, estudos, entre outros. Com isso, dá para entender que se apenas a teoria é reproduzida, sem as constatações científicas, não há resultados.  

A ciência é plural. É por essa razão que o livro a ser lançado pela editora Penso, por exemplo, é composto por diversos autores, de diferentes países. Nenhuma delas tentou ofertar uma solução única – mas, sim, o conhecimento em seus tópicos de uma maneira clara e didática, visando alcançar o máximo de professores e futuros profissionais da área. Esse é o esforço do livro como um todo.    

A formação dos professores deixa a desejar quando se fala em embasamento científico? 

Com certeza. E isso não é uma afirmação minha. As pesquisas também apontam o mesmo problema. Existe um relatório da Academia Brasileira de Ciência, de 2011, que mostra o quanto a formação dos professores aqui no Brasil está com o currículo atrasado. Os livros dos anos 1980 e 1990 estão sendo usados como guias para a alfabetização atual. Neles, há teorias que já foram refutadas em diferentes ocasiões.  

A formação dos professores em pedagogia é muito precária em termos de preparação para a alfabetização. Esses profissionais são os únicos alfabetizadores do nosso país. Ao observar as grades curriculares, é possível ver uma ou duas disciplinas sobre alfabetização. Elas costumam ser teóricas e falam muito mais sobre o acolhimento do aluno durante a alfabetização do que as estratégias para ter êxito em tal objetivo.  

Uma disciplina de 40 horas ou 80 horas é insuficiente. Na maior parte das vezes, os professores estão estudando livros antigos e, logo, vão para uma sala de alfabetização. Muitos dos professores universitários defendem que os egressos vão se especializar na área posteriormente. Na verdade, não muda muito nos cursos de especialização, que nem sempre têm uma boa qualidade.  

Quando entram nas escolas e ganham experiência de dois ou três anos na alfabetização, logo esses professores procuram mudar para os anos mais avançados. Isso porque eles julgam essa tarefa como mais fácil. Isso faz com que percamos os bons professores, pois eles aprendem muito na prática.   

Ou seja, o professor alfabetizador tem uma formação ruim, educação continuada precária e falta de atuação em serviço. A ideia do livro é justamente destacar a importância desses fatores. Apesar das inúmeras discussões na área sobre o que deve ser ensinado, as pesquisas mostram que o professor é a principal ferramenta para a educação.      

A seleção dos artigos que entraram no livro foi baseada nas dificuldades atuais do Brasil? Como foi esse processo? 

Cada uma das pessoas que compõem o livro foi escolhida a dedo. O objetivo era que elas pudessem contribuir com o conhecimento mais avançado em suas respectivas áreas. Quando planejamos o material, pensamos no que cada autor pudesse trazer alguns elementos que orientassem a criação de uma abordagem sobre alfabetização baseada em evidências.   

Nesse sentido, eu introduzi o livro com um capítulo que explica o que é a ciência cognitiva da leitura, onde ela surgiu e o que podemos considerar uma alfabetização baseada em evidências. Isso para mostrar a diferença entre evidências anedóticas, de observação, e as científicas de fato, frutos de resultados de pesquisas.  

Ainda há um prefácio da professora Claudia Costin, uma das pessoas mais influentes no Brasil, na área de educação. Ela faz toda uma leitura do livro, contextualizando-o dentro do que a sociedade tem vivenciado – inclusive, um momento de negacionismo educacional. 

De acordo com o Todos Pela Educação, 40,8% das crianças entre 7 e 8 anos não sabiam ler e escrever em 2021. Quais são as causas dessa defasagem?  

Esses dados são bem alarmantes. Entretanto, eles também são um pouco enviesados. Porque, na verdade, são reflexos dos relatos dos pais, não das crianças. Nem sempre os pais têm muita clareza sobre o que as crianças conseguem fazer ou não.  

Agora, quais são as causas disso? Os resultados da última Avaliação Nacional de Alfabetização, de 2016, já mostravam que metade dos alunos tinham níveis insuficientes de leitura no terceiro ano do ensino fundamental. Além disso, 34% desses estudantes tinham problemas na escrita. Quando observamos as regiões Norte e Nordeste, os números são ainda piores, cerca de 80% das crianças.  

Se colocássemos em números brutos, a cada dez crianças, oito são analfabetas, mesmo frequentando a escola durante três anos. Não dá para as escolas serem tão ineficientes. Claro, exista a pobreza, a fome, violência, entre outras dificuldades. Porém, a escola precisa se responsabilizar, sem externalizar a culpa para a família ou governos.  

Leia mais: O papel da família no letramento e na alfabetização

Mas as escolas têm suas dificuldades, certo? 

Na maioria das vezes, a escola está tentando fazer milagres. Os professores lidam com 30 crianças, com conhecimentos diferentes, entre outros aspectos. Ela precisa alfabetizar apesar dos pesares. É muito complicado identificarmos uma única causa. Há uma multiplicidade de fatores envolvidos. Alguns são mais de ordem socioeconômica, mas não são os únicos.     

O que se sabe é que quando se mexe na maior parte desses elementos e começa-se a focar no que realmente importa, há resultados. Em Sobral (CE), as crianças continuam sendo pobres. Entretanto, elas aprendem a ler e escrever porque isso é prioridade. Hoje, é esperado que esses conhecimentos sejam absorvidos pelo aluno até os sete anos, de acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC).      

Resumindo, diferentes fatores influenciam. Contudo, quando eles são identificados e trabalhados, com políticas articuladas, baseadas em evidência, é possível ir mais longe. Esse foi o objetivo da Política Nacional de Alfabetização, que eu ajudei a construir. Mas a pandemia também tornou tudo mais difícil. O problema se intensificou.  

Como a pandemia afetará os cidadãos do futuro que tiveram dificuldades de alfabetização nesse período? 

Os impactos ainda não são plenamente dimensionados. O que sabemos é que foi muito impactante. Ainda mais porque, durante a pandemia, estávamos no mesmo mar, porém, não no mesmo barco. Isso significa que algumas crianças tiveram mais acesso à educação do que outras. No Brasil, há 47 milhões de estudantes. Desses, cerca de 5 milhões não tiveram qualquer tipo de ensino. Por outro lado, existem alunos que tiveram aulas particulares, que têm pais professores, frequentaram aulas remotas. 

Sobre os impactos, eles costumam ser geracionais ou intergeracionais. Essas crianças agora estão enfrentando diferentes desafios. Há municípios que colocaram alunos de diferentes idades nas mesmas turmas, para ajudar na recuperação. Às vezes, isso é uma boa estratégia. Entretanto, na maioria dos casos, não é, porque acaba desequilibrando o professor. Ainda tiveram estudantes que passaram de série sem terem tido os conhecimentos necessários para tal.    

Haverá uma geração marcada por essas questões. Se não forem tomadas decisões rápidas, as crianças crescerão acumulando diversas dificuldades na alfabetização. A distância entre os que sabem mais e os que sabem menos só irá aumentar.  

Mais de 90% do vocabulário, depois dos sete anos, acaba sendo adquirido por meio da leitura e não mais da fala. As crianças podem ficar impedidas de aprender esse conhecimento mais rebuscado. Quanto mais prática, mais conhecimento. As pesquisas mostram que aprender a ler e escrever na infância e na fase adulta é quase a mesma coisa para o cérebro. O que muda é o fato de que o indivíduo perdeu uma boa parte de conhecimento que não foi adquirido quando criança.   

O que vai acontecer é que esses estudantes terão dificuldades ao longo do tempo que, se não forem corrigidas, criarão um número cada vez maior de alunos de EJA (Educação de Jovens e Adultos) ou analfabetos. Essas pessoas também serão pais das futuras gerações, que reproduzirão essas mesmas dificuldades. Geralmente, uma decisão em educação acaba afetando cerca de 20 anos para a frente. Ou seja, estamos em 2022. Em 2042, seguiremos tratando dos mesmos problemas.   

Leia mais: Número de crianças com 6 e 7 anos que não sabem ler e escrever cresce 66%

Quais práticas pedagógicas podem auxiliar os professores para tentar diminuir o atraso na alfabetização? 

Existem seis componentes essenciais para a alfabetização identificados na literatura. Dois deles são os principais para a aprendizagem da leitura e da escrita. O primeiro é a consciência fonêmica. As crianças precisam entender que as palavras são compostas por unidades sonoras de diferentes tamanhos. Os mais importantes são os menores – o nível dos fonemas. O nível dos fonemas é fundamental porque o sistema alfabético de escrita está baseado no princípio de que letras representam fonemas.     

Se os 31 sons do português e as 26 letras que representam esses sons são aprendidos, é possível escrever qualquer palavra, mesmo que ela nunca tenha sido vista. Ou seja, a primeira prática que o professor deve fazer é estimular o desenvolvimento da percepção das crianças de que as palavras são compostas por sons, chegando no nível dos fonemas.    

A segunda prática muito importante é chamada de Instrução Fônica. Esse é um componente essencial no processo de alfabetização. É simplesmente você ensinar a criança quais são os sons de cada letra que representa cada som. Para garantir uma boa alfabetização, o professor precisa organizar do mais simples para o mais complexo.     

Os outros aspectos também são importantes, mas entraríamos em outras esferas. Apenas mencionando-os: Vocabulário, Práticas de Escrita, Compreensão e Fluência da Leitura.   

Como estimular os professores a realizarem essas práticas de alfabetização sem sobrecarregá-los? 

Lembrando-os que, na verdade, eles já fazem exatamente isso. Essa é a grande importância desse livro. Nós não estamos reinventando a roda, estamos mostrando a sua significância. O objetivo é estimular a habilidade metacognitiva desses profissionais para que eles possam ter uma maior compreensão das práticas que fazem. Os docentes precisam de intencionalidade pedagógica. É necessário que tenham clareza que as práticas na escola não podem ser aleatórias.  

Como fazer com que crianças que tiveram perdas no processo de alfabetização tenham interesse na leitura? 

Temos feito vários esforços para estimular as crianças na leitura e eles têm funcionado. A primeira coisa – e a mais importante – tem que ser priorizar no currículo. Não importa em que ano ela esteja, é necessário que ela saiba ler. Primeiro se aprende a ler, para depois ler para aprender.  

Se todos estiverem cooperando – família, professores, escola – haverá mais chance de uma boa base de alfabetização para as crianças. Quando há um bom começo, a construção é mais sólida. Então, para que esses estudantes tenham uma boa interação com a leitura, todos os recursos são importantes. Desde que eles sejam priorizados para a alfabetização. Por esse caminho, existe uma maneira real de recuperação.      

No livro, há um artigo ressaltando a importância de se estudar casos como o de Sobral (CE). Você acredita que a forma de se fazer educação nas escolas da cidade cearense pode ser uma resposta para o problema que o Brasil está passando?  

Não. Seria ótimo se conseguíssemos importar de Sobral tudo o que deu certo. Mas cada lugar tem as suas dimensões, necessidades e tipos de conhecimentos. O que acontece em Sobral é um pacto coletivo de diferentes pessoas nos últimos 20 anos. A consequência é o entendimento generalizado da importância da educação. As pessoas na cidade sabem e comentam os números que o município tem na educação. Também tiveram esforços de diferentes governos, que compreenderam aquela política como de estado.  É difícil transpor as mesmas práticas para outros lugares. É necessário criar soluções que se adequem especificamente em determinadas regiões. Nenhuma política pode ser fechada entre si, pois não existe uma única solução. Os tempos mudam, os alunos mudam.

Leia mais: Com MEC em crise, estados adotam políticas de educação do Ceará 

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