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Por que os professores escolhem usar a aprendizagem invertida

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Para os professores, passa a emergir uma imagem da aprendizagem invertida que é um modelo atraente para o ensino superior. Crédito: AP Imagens.

Por Robert Talbert*

Postei um convite aberto no Twitter para responder a uma pesquisa que apenas perguntava o nome dos respondentes, as áreas acadêmicas e as instituições, além de pedir uma breve resposta à pergunta: “por que você usa aprendizagem invertida?”.

Embora os respondentes representassem uma ampla variedade de áreas acadêmicas, incluindo disciplinas STEM, além de ciências humanas e sociais, e sem dúvida suas reais implementações da aprendizagem invertida parecessem diferentes umas das outras, suas respostas contam uma história coerente.

Todos os respondentes mencionaram que escolheram a aprendizagem invertida porque queriam mais tempo em aula para focar em atividades de nível superior em sua disciplina, particularmente aquelas atividades que envolvessem a aplicação de ideias básicas, pensamento crítico e solução de problemas. Lori Ramey, que leciona redação e inglês no Erskine College, diz:

Para um estudante que realmente se aprofunda em um texto, precisamos prepará-lo para fazer esse trabalho sozinho para que possa trazer seus insights para a sala de aula. A inversão permite que os professores foquem a atenção do grupo em detalhes que verdadeiramente importam e dá aos alunos a oportunidade de trabalharem como especialistas naquela disciplina. Reunir dados, ler novidades, escrever respostas iniciais: esses são os tipos de atividades que os profissionais preparam para o trabalho colaborativo que impulsiona o conhecimento. Quando permitimos que os alunos trabalhem como profissionais, confiando neles para que se preparem previamente, maximizamos seu tempo na sala de aula com um especialista na disciplina.

A última frase de Ramey enfatiza outra razão pela qual os professores escolheram a aprendizagem invertida: ela exercita as competências que os alunos precisarão ter depois da faculdade, tais como a habilidade de autoensino, autoavaliação e autorregulação. Em outras palavras, a aprendizagem invertida lhes dá a prática para trabalhar como profissionais.

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Um aspecto desse foco metacognitivo da aprendizagem invertida é simplesmente a habilidade de processar a informação. Em um comentário que demonstra melhor que a aprendizagem invertida não requer o uso de vídeos ou outra alta tecnologia, Justin Dunmyre, que leciona matemática na Frostburg State University, descreve seu uso da aprendizagem invertida:

Meu gosto particular pela aprendizagem invertida é evitar as explanações em vídeo e privilegiar que os alunos leiam um livro-texto. Ler um livro-texto, especialmente um orientado matematicamente, é uma habilidade que é aperfeiçoada com a prática. Os alunos adquirem uma competência que os auxiliará em todas as suas aulas futuras e que também os auxiliará a se desenvolverem como aprendizes permanentes autônomos.

Noel-Ann Bradshaw, que leciona matemática na University of Greenwich, leva o aspecto do desenvolvimento profissional da aprendizagem invertida um passo além, apontando que os alunos que experimentam ambientes de aprendizagem invertida têm evidências concretas de que eles e seus professores conseguem transmitir aos empregadores sua habilidade para trabalhar em um ambiente profissional:

Descobri que se desenvolveu em meus alunos a habilidade de aprender sozinhos, o que aumentou sua confiança. Quando eles se candidatam a um emprego, conseguem dizer aos empregadores que têm a habilidade de aprender novas competências por conta própria, pois já fizeram isso sozinhos durante este ano.

Bryan McCabe, que leciona engenharia civil na National University of Ireland, reitera essa questão a respeito do desenvolvimento e da prática profissional:

Cursos de engenharia são qualificações profissionais e, após, a graduação, não é suficiente que os engenheiros “saibam” as coisas; eles devem ser capazes de “fazer” as coisas. Estava tentando aumentar a quantidade de atividade dos alunos em minhas aulas ao longo dos anos, e a aprendizagem invertida permitiu que eu me comprometesse com isso integralmente. Os alunos realmente apreciam o ambiente ativo de workshop no tempo de aula programado e a oportunidade de estudar vídeos curtos e concisos previamente como preparação.

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Theron Hitchman, que leciona matemática na University of Northern Iowa, amplia a ideia de desenvolvimento profissional para incluir ensinar aos alunos não só o conteúdo de uma disciplina, mas também a própria disciplina:

Posso orientar meus alunos mais efetivamente em suas dificuldades e apresentá-los à cultura do trabalho matemático se estruturar nosso tempo de aula em torno do trabalho deles e de suas ideias. Isso significa que eles têm de fazer outro trabalho fora da aula para que possamos usar nosso tempo de aula em conversas mais profundas focadas na sua compreensão e no seu pensamento.

Esse comentário nos traz de volta a um dos principais benefícios da aprendizagem invertida, ou seja, a criação de tempo estendido para realizar aprendizagem ativa no espaço grupal e aumentar o engajamento dos estudantes com o conteúdo.

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Matthew Winslow, que leciona psicologia na Eastern Kentucky University, destaca a importância do engajamento:

A pessoa que está fazendo o trabalho está aprendendo.” Eu queria sair de cena e engajar meus alunos porque acredito que eles aprendem mais dessa maneira. Então a resposta decisiva [por que eu uso aprendizagem invertida] é porque acho que melhora sua aprendizagem.

Por trás de todos esses comentários sobre a criação de tempo e espaço para a aprendizagem ativa, de ensino de habilidades metacognitivas e de preparação dos alunos para seu trabalho futuro, está um sentimento profundo de que a experiência na sala de aula no ensino superior deve estar centrada no aluno. Por exemplo, Tiernan Henry, que leciona ciências da terra e oceanos na National University of Ireland, diz que usa aprendizagem invertida

[…] para encorajar o engajamento dos alunos nas aulas e facilitá-lo encontrando-se com eles no meio do caminho. As disciplinas [são] agora ensinadas em blocos de seis semanas, portanto, há tempo para ir com calma. Inverter a aula inicialmente estava relacionado a dar-lhes controle da preparação prática e, gradualmente, foi mudando para mim, fazendo upload de vídeos… que demonstram técnicas de campo e métodos; contudo, os alunos podem acessá-los a qualquer momento para revisão e preparação para a aula.

Dar aos alunos controle sobre as fontes a partir das quais eles aprendem e sobre como utilizam esses recursos é um elemento-chave da aprendizagem invertida – o F no acrônimo FLIP – e promove um ambiente fortemente centrado nos alunos.

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Os respondentes também observaram que a aprendizagem invertida promove relações entre os alunos e o professor que são positivas e pessoais, outro aspecto importante de um ambiente de aprendizagem centrado no aluno. Anne Gardner, que leciona engenharia civil na University of Technology em Sydney (Austrália), diz:

Uso a aprendizagem invertida porque isso significa que o escasso tempo presencial que eu tenho com meus alunos pode ser empregado nas confusões, concepções erradas e no que eles ainda não sabem (os pontos interessantes do programa), em vez de no material que a maioria das pessoas consegue entender, o que significa que o tempo que tenho com eles pode ser um tempo em que eu realmente agregue valor ao seu conhecimento.

Finalmente, Carolina Buitrago, que leciona ensino da língua inglesa na Institución Universitaria Colombo Americana, observa que o ambiente centrado no aluno estimulado pela aprendizagem invertida inclui oportunidades otimizadas de aprendizagem ativa, desenvolvimento metacognitivo e profissional intencional, ambientes centrados no aluno e relações mais positivas na disciplina – e é libertador para os professores:

Uso a aprendizagem invertida porque ela me permite facilmente criar ambientes centrados nos alunos e salas de aula com aprendizagem enriquecida. Também uso porque posso diferenciar a aprendizagem para meus alunos criando materiais criativos/curativos. Uso porque percebi que torno meus aprendizes pessoas mais autônomas e porque isso os engaja. Uso a aprendizagem invertida porque ela me permite ser eu mesma na sala de aula. Posso ser uma professora que se importa, posso facilitar, posso experimentar e aprender enquanto ensino.

Nas palavras desses professores de faculdades e universidades – que, mais uma vez, provêm de uma ampla variedade de contextos geográficos, disciplinas acadêmicas e tipos institucionais – começa a emergir uma imagem da aprendizagem invertida que é um modelo atraente para o ensino superior.

Na aprendizagem invertida, abordamos todos os grandes objetivos pedagógicos do ensino superior ao longo da história: não só dominar competências do conteúdo, mas também desenvolver competências de pensamento de nível superior, comportamentos autorregulados, compreensão das culturas de áreas acadêmicas, prontidão para o trabalho profissional, relações pessoais com os professores e disposição para se tornarem aprendizes permanentes.

Leia mais: Educação baseada em competências vai além do conhecimento técnico

*O texto é um trecho do novo livro da série Desafios da Educação “Guia para Utilização da Aprendizagem Invertida no Ensino Superior“. 


Sobre o autor

Robert Talbert é professor do Deparmento de Matemática da Universidade Estadual Grand Valley e consultor de aprendizagem invertida, ensino com tecnologia e aprendizagem auto-regulada.

Redação
A redação do portal Desafios da Educação é formada por jornalistas, educadores e especialistas em ensino básico e superior.

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