Jo Boaler: alunos com mentalidade progressiva são melhores nos estudos

Montserrat Cordero (à esquerda), Designer Gráfico na Youcubed, com Jo Boaler, professora de matemática em Stanford (Foto: divulgação/Stanford)

Na mesma semana em que foram conhecidos os vencedores da medalha Fields de 2018, equivalente ‘Nobel da Matemática’, o Desafios da Educação publica uma entrevista com a pesquisadora da disciplina em Stanford, Jo Boaler. A professora é mundialmente conhecida pela série de livros Mentalidades Matemáticas, publicados no Brasil pelo selo Penso – e que ganha novo capítulo este ano com Mentalidades Matemáticas na sala de aula. Na entrevista, concedida por e-mail, Jo Boaler fala das estratégias que podem transformar a velha matemática em uma disciplina aberta, criativa e visual. E explica, sob perspectiva da neurociência, o que chama de mentalidade progressiva.

Poderia nos explicar como a mentalidade matemática se relaciona com a neurociência?
A Carol Dweck (professora de psicologia na Universidade Stanford, especialista internacional em sucesso e motivação) tem décadas de pesquisas que mostram que todos nós temos mindsets – um conjunto de crenças e valores que refletem nossas capacidades e competências. Assim, como o próprio nome já diz, a mentalidade matemática se refere às competências em matemática. Uma mentalidade matemática fixa significa que você acredita que a sua capacidade não pode se desenvolver ao longo do tempo. Já uma mentalidade matemática progressiva é aquela em que as pessoas acreditam que podem melhorar suas habilidades, através do seu esforço e dedicação. Em sua pesquisa, Dweck descobriu que a confiança do aluno em suas competências estará no centro da sua conquista. Portanto, alunos com uma mentalidade progressiva se saem melhor na escola e na vida porque a vontade de aprender, de crescer e de expandir amplia suas possibilidades.

Você costuma enfatizar essas questões em seus livros.
Nos livros exponho maneiras de desenvolver uma mentalidade matemática progressiva – isso inclui ver a matemática como um assunto acessível e em crescimento, cheio de recursos visuais e de criatividade. Se a matemática é ensinada com perguntas sérias e curtas, os alunos a veem como um assunto fixo. Quando eles a veem como algo flexível, é sinal que os professores estão ensinando de maneira certa. E se o aluno tem uma mentalidade matemática progressiva, as chances de sucesso aumentam ainda mais.

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Como isso se aplica à educação?
Ou melhor, como essa abordagem difere das formas tradicionais de ensinar matemática? A maioria dos estudantes de hoje acredita que o seu papel em uma aula de matemática é apenas tirar notas boas para passar de ano. Assim, o seu aprendizado se limita a decorar os métodos utilizados pelo professor e reproduzi-los, mais tarde, na prova. Os alunos preenchem as apostilas e verificam as respostas que estão no verso. Esta é uma matemática estreita e inflexível, em que o papel do aluno é apenas ter um desempenho regular ou bom.

Então é preciso mudar a cultura do ensino?
Exato. Os alunos precisam ver a matemática como uma disciplina sujeita a aprendizagem – onde eles podem trazer suas próprias ideias e aplica-las para resolver os problemas matemáticos. Esse modelo vai tornar a matemática uma disciplina muito mais interessante para os discentes. Precisamos promover a matemática como um assunto visual e multidimensional. Nas salas de aula, pedimos aos professores que valorizem as diferentes maneiras de os alunos verem a matemática e de resolverem os problemas.

Em suas pesquisas, até que ponto os estudantes tiveram melhoria de desempenho com essa abordagem?
Por exemplo, trouxemos para a Stanford 87 alunos do ensino médio para dezoito dias de “aprendizagem matemática”. Nesse período, nosso objetivo era mudar a visão dos discentes sobre a disciplina – do desempenho ao aprendizado. Queríamos que os alunos compreendessem que qualquer pessoa pode aprender matemática – e que ainda poderiam aprender de uma maneira recompensadora para eles. Nenhum deles se considerava “pessoas da matemática”, e todos tinham diferentes níveis de desempenho. Para analisar os resultados, aplicamos dois testes: um antes e outro depois da “experiência”. A média aumentou 50% no segundo teste. Tal aumento foi generalizado para todos os níveis de desempenho e representou certa de 2,7 anos de crescimento. Temos visto resultados semelhantes em outros estudos também.

Tradicionalmente, a maioria dos alunos acha difícil se envolver com a matemática?
Como os estudantes reagem à aprendizagem matemática? A reação do aluno é incrível! Vou dar outro exemplo. Nesta semana, trouxemos 161 estudantes do ensino médio, todas meninas, para terem um dia de aprendizado. Elas davam risadas e aplausos enquanto respondiam questões bem desafiadores. Nós podíamos ouvir a animação delas pelos corredores do prédio. Quando você os ensina sobre neurociência e como aprender matemática e os mostra que o cérebro funciona de maneira diferente quando você acredita em seu próprio potencial, tudo muda para eles. Contudo, você também deve mudar a maneira de engajar e envolver os alunos com a matemática. Problemas e questionamentos inflexíveis e focados apenas na resposta não contribuem para a mudança nos alunos. Eles precisam de tarefas atraentes, que possam ser resolvidas em ambientes colaborativos, em que todas as contribuições são valorizadas – especialmente os erros. Quando damos aos alunos tarefas desafiadores, celebramos seus erros e parabenizamos suas ideias, criamos um ambiente de aprendizado interessante e atrativo.

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Qual tem sido a resposta das escolas a essa proposta de ensino?
A resposta tem sido ótima! Começamos a Youcubed há alguns anos e, até o momento, ela já gerou 25 milhões de visitas. Nossos informativos estão abertos para mais de 150 países. Posso dizer que é um movimento internacional e que estamos muito animados em ver o sucesso. Quando fazemos noites de pais para envolvê-los nesse novo tipo de aprendizado, ouvimos eles dizerem: “Se eu tivesse aprendido matemática dessa maneira, eu teria adorado!”. Nós estamos sendo inspirados por essa tremenda resposta. Com o nosso trabalho, queremos mudar o ambiente de aprendizagem para que cada criança possa se ver como um aprendiz em matemática e capaz de qualquer outra coisa.

Embora essa abordagem seja aplicada ao ensino de matemática, até que ponto é possível usa-la para outras disciplinas?
O mindset se aplica a qualquer assunto. Cada vez mais, estamos recebendo feedback de que nossa abordagem aberta, visual e multidimensional funciona para todas as competências. Claro, qualquer disciplina pode se beneficiar dessa abordagem, mas acredito que a matemática, provavelmente, é a que mais precisa das mudanças. As pesquisas de aprendizagem efetiva e plasticidade cerebral precisam ser compartilhadas com todos. Todos os alunos precisam ter um mindset progressivo para as disciplinas que estão aprendendo – e o ambiente de ensino precisa ser um espaço amigável e aberto, onde os erros são bem vindos.

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Foto em destaque: Montserrat Cordero, Designer Gráfico na Youcubed, com Jo Boaler, professora de matemática em Stanford. Créditos: Divulgação/Stanford.