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O presidente da Rússia, Vladimir Putin, ordenou a invasão da Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022. As repercussões foram imediatas e de grande alcance.

No campo da educação, centenas de escolas e universidades ucranianas estão fechadas. Conforme informações da Unesco, órgão da ONU (Organização das Nações Unidas) para educação e cultura, cerca de 6 milhões de alunos entre três e 17 anos e 1,5 milhão de universitários estão fora da sala de aula por causa da guerra de Putin. Desse total, 76 mil são estrangeiros, segundo dados de 2020.

Os relatos de como a guerra tem afetado as instituções de ensino superior da Ucrânia são pavorosos. Os professores da Escola de Economia de Kiev se juntaram às forças armadas para resistir à invasão. A Universidade Nacional Yuriy Fedkovych Chernivtsi, no oeste, tornou-se um campo de refugiados. Aproximadamente 500 estudantes internacionais, a maioria da África, ficaram presos na cidade ucraniana de Sumy, cercados pelo exército russo por três lados e sob constante bombardeio.

A professora Ani Kokobobo, que é presidente do departamento de línguas e literaturas eslavas e eurasianas da Universidade do Kansas (EUA), reúne esses e outros relatos em um artigo publicado no site The Chronicle of Higher Education. Seu título não poderia ser mais preciso: “A guerra é inimiga da educação”.

Ela lembra que os laços acadêmicos entre Rússia e Ucrânia são estreitos. E que, não à toa, algumas das vozes mais altas contra a guerra de Putin são justamente os acadêmicos russos. “Não há justificativa racional para esta guerra”, diz uma carta assinada por mais de 7 mil jornalistas, professores e pesquisadores russos.

A guerra na Ucrânia não compromete apenas a cooperação bilateral. O combate mundial à pandemia, que havia aproximado instituições de ensino e de pesquisa, também pode sofrer.

“A guerra na Ucrânia e a nova polarização bélica global causará retrocessos e poderá anular o legado, mesmo que parcial, de cooperação global em avanços científicos, novas tecnologias e desenvolvimento de bens públicos para a saúde. Se era possível imaginar um ciclo de reconstrução pós-pandemia com avanços em várias agendas, a guerra e todas as suas consequências humanitárias, econômicas e políticas estão colocando em grande risco esse futuro minimamente promissor do pós-covid”, alertaram pesquisadores em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo.

Guerra na Ucrânia afeta ensino superior: em NY, pessoas protestam contra invasão russa. Crédito: Katie Godowski/Pexels.

Além do mais, a educação pressupõe, entre outras coisas, a formação de pensadores independentes. Como observam alunos, ex-alunos e professores da Universidade Estadual de Moscou, a principal da Rússia, o verdadeiro valor da educação “está em ser capaz de avaliar criticamente o que está acontecendo ao nosso redor, pesar argumentos, ouvir uns aos outros e ser fiel à verdade – científica e humanista.” Mas uma nova lei imposta pelo Kremlin prevê a possibilidade de até 15 anos de prisão para quem se manifestar contra a operação militar. Para Putin, a guerra não é guerra. A invasão não é invasão.

No esforço de atenuar a crise educacional promovida pela maior invasão europeia desde a Segunda Guerra Mundial, universidades dos países vizinhos à Ucrânia, como Hungria, Eslováquia e Moldávia, foram rápidas em oferecer ajuda a estudantes e acadêmicos.

Nos Estados Unidos, uma coalizão de organizações está pedindo ao governo que ofereça proteções especiais aos estudantes ucranianos forçados a sair do país. Em Portugal, instituições de ensino superior públicas e privadas já se preparam para acolher ucranianos – de forma semelhante ao que fez com estudantes sírios. Já o Brasil publicou uma portaria com os termos que preveem visto de 6 meses a ucranianos e possibilidade de moradia definitiva, incluindo para estudantes.

Até a publicação deste texto, quase duas semanas depois do início da guerra na Ucrânia, soldados e combatentes civis seguiam resistindo, lutando para impedir a expansão russa no país. O número de civis mortos do lado ucraniano era de pelo menos 408 – acredita-se, contudo, que os números sejam consideravelmente maiores. Já o número de pessoas que fugiram da Ucrânia superou os 2 milhões, podendo chegar a 6 milhões, segundo estimativa da ONU.

Leonardo Pujol
Leonardo Pujol é jornalista e editor do Desafios da Educação. Também é sócio-diretor da República – Agência de Conteúdo, onde colabora para a revista Superinteressante, Piauí, BBC Brasil e HSM Management.

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