Ensino Básico

Como ensinar bebês a partir da abordagem Pikler

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Escola no Brasil: abordagem Pikler favorece a criação do vínculo com o adulto. Crédito: Ministério da Educação.

A abordagem Pikler reúne princípios e metodologias para o trabalho coletivo com bebês e crianças – seja em creches, abrigos ou mesmo em casa. Ela parte do respeito e da confiança no desenvolvimento natural das crianças. E também favorece a criação do vínculo, tão essencial entre o adulto e a criança.

Para entender como funciona a abordagem, o portal Desafios da Educação entrevistou por e-mail duas educadoras especialistas no assunto:

– Maria Lucia Peçanha, consultoria pedagógica, membro da Association Pikler Internacional, da Rede Pikler Brasil e vice-presidente da Associação Pikler Brasil

– Maria Thereza Marcilio, especialista em educação infantil e em direitos das crianças, e consultora associada da ONG Avante – Educação e Mobilização Social

Maria Thereza Marcilio, à esquerda; Maria Lucia Peçanha, à direita. Crédito: divulgação.

Peçanha e Marcilio assinam a entrevista em conjunto.

O que é a abordagem Pikler? Não existe uma metodologia Pikler, mas sim uma filosofia de vida, uma pedagogia, uma maneira adequada de ver e apoiar crianças pequenas no seu desenvolvimento. Com esse olhar, construímos um caminho que leve ao bem-estar físico, afetivo e psíquico de indivíduos que são vistos como capazes, competentes desde o nascimento.

E por olharmos cada pessoa como única, por observarmos características de cada pessoa e do ambiente e das circunstâncias, insistimos que temos uma maneira de olhar e tratar baseada em princípios que vêm sendo provados e repensados há mais de 50 anos.

A nomenclatura “abordagem”, portanto, se torna cada vez mais acertada quando pensamos na tessitura de princípios, na ”bordagem” de detalhes com que cercamos os cuidados dos bebês e crianças pequenas.

Como a abordagem Pikler favorece o desenvolvimento infantil? Para cada criança há uma maneira de olhar. E é através da observação e do compartilhamento com os outros cuidadores que podemos chegar a melhor maneira de lidar com esses pequenos.

O mais prático que podemos dizer é que as crianças têm um potencial inato para o crescimento e desenvolvimento. Claro que para a realização dessa programada tendência temos que oferecer condições básicas e adequadas. Os bebês humanos trazem esta programação, mas muito do desenvolvimento acontece após o nascimento, ao contrário das outras espécies [animais]. Daí a necessidade de oferecer um ambiente que assegure a continuidade e o pleno desenvolvimento deste potencial.

A abordagem Pikler vem mostrando desde 1946 – ano da criação do abrigo da Rua Lóczy, em Budapeste, Hungria – que devemos levar em consideração o valor das atividades autônomas, a importância das relações afetivas privilegiadas, a necessidade de ajudar a criança a tomar consciência dela mesma e de seu entorno e um bom estado de saúde.

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Como aplicar essas ideias no dia a dia de uma instituição de ensino e mesmo no ambiente familiar? Isso acontece a partir da certeza de que o desenvolvimento só ocorre no ritmo de cada um. Quando forçamos uma criança a assumir uma posição que ela não alcançou sozinha, comunicamos a ela que não confiamos em sua capacidade e estamos agindo até com violência, apesar da boa intenção, e prejudicando seu corpo.

Existe uma crença que os bebês devam ser colocados de bruços para que aprendam a “firmar o pescocinho”. A consequência é um bebê impaciente, com limitação de movimentos, que não adquire consciência corporal e que perde a oportunidade de brincar com seu mais fabuloso brinquedo: suas mãos.

Nossa confiança e presença solidária, com um ambiente sereno e com a coluna vertebral desse bebê em superfícies firmes, será o grande presente que poderemos dar às crianças.

O vínculo com o cuidador – seja mãe, pai ou outro adulto – é um fator determinante no desenvolvimento da criança? Por quê? Vínculo é a base da vida de uma pessoa. O ser humano é essencialmente um ser social, ele nasce em uma família, em uma comunidade.

Seu desenvolvimento se dará em função das relações existentes nesse entorno e nas que serão estabelecidas com ele como novo integrante. São relações de confiança e colaboração que junto ao tempo dedicado ao bebê estabelecerão o vínculo original.

Para isso o bebê necessita ser aceito, se sentir amado e cuidado: isso é vínculo. Relações carregadas de afeto, sensíveis às demandas e ao processo de desenvolvimento do bebê provocam respostas igualmente afetivas. Este “diálogo” é fundamental para o desenvolvimento de pessoas competentes, seguras, autônomas e capazes de estabelecer relações afetivas.

O papel do cuidador é primordial, tem vital importância, pois ele é o mediador dos estímulos do entorno.

A vida é profundamente estimulante e é o adulto atento que vai tornar o ambiente seguro para a criança. É necessário que seja visto com detalhes o cotidiano e que o adulto responsável possa exercer o seu papel com atenção e dedicação suficientes.

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A abordagem Pikler acredita no respeito à individualidade de cada criança. Mas como usar a abordagem em um ambiente escolar, em que o educador divide sua atenção com outros alunos? Esse é exatamente o grande mérito da abordagem porque em um ambiente coletivo, seguindo uma coreografia de cuidados corporais atentos, regulares e efetivos, a criança fica nutrida da presença do adulto cuidador.

Obviamente, para que esse ambiente se estabeleça é preciso muito cuidado com a rotina, com a formação do educador/cuidador e com o seu bem-estar.

Para termos bebês e crianças florescendo, precisamos de adultos com boa auto estima e que tenham prazer em estar nesse lugar.

A presença de adultos de referência, aqueles que vão cuidar das mesmas crianças – e aqui já sinalizamos que as crianças  que frequentam a educação infantil são denominadas crianças e não alunos – em todas as circunstâncias de necessidade de cuidados corporais como troca de roupas e fraldas, banhos, alimentação e acalento para o sono, mobiliza os educadores de outra maneira.

Ousamos dizer que mudamos os paradigmas da educação de bebês e crianças pequenas, pois a ação do adulto é de cuidado, de observar e confiar na capacidade da criança fazer suas próprias descobertas. Por outro lado, a Abordagem Pikler diz “uma coisa a cada vez”, “tudo no seu tempo”. Isso vale para as crianças mas também para o adulto.

É preciso lembrar que a proporção de adulto/bebê não é a mesma de adulto para crianças maiores, mesmo que ainda pequenas. Um adulto pode ter sob sua responsabilidade direta de quatro a seis bebês, o importante é que ao estar com um bebê, o adulto esteja inteiro e pleno na atenção a ele.

O adulto segue os progressos de perto, mantém registros detalhados de cada criança. Comunica aos outros membros da equipe. Daí a importância de um ambiente organizado para que todos estejam bem enquanto um está recebendo a atenção.

Uma criança que passa um tempo de atenção dirigida a ela, às suas necessidades, que pode ser escutada , mesmo que ainda não esteja se expressando verbalmente, que tenha um observador atento à direção de seu olhar, de seus sorrisos ou contrariedades, essa criança vai estar plena da presença de sua cuidadora e poderá brincar sozinha mas nunca solitária. Ao dirigir o olhar ao adulto vai sentir que é visto. Os cuidados com os bebês se transformam em momentos de intensa relação onde o vínculo vai se intensificando.

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Quais habilidades ou cuidados se deve ter para não interferir na individualidade e no desenvolvimento natural das crianças? Ser professor de bebês exige uma formação sólida, com conhecimento profundo do desenvolvimento e do seu papel, principalmente como observador e planejador de ambientes.

A aprovação indireta das ações por meio do olhar atento, do sorriso, ou ajuda verbal, a arrumação do ambiente, arranjando um bom lugar para brincar com objetos adequados ao nível de desenvolvimento da criança, arrumando e ordenando os brinquedos de forma harmoniosa e prazerosa são os principais condicionantes.

Permitir que a criança tenha liberdade de movimentos possibilita descobertas em ambientes seguros e adequados. A criança precisa experienciar a competência de seus atos independentes. Para possibilitar o desenvolvimento da motricidade livre, das aprendizagens possíveis, é necessário ter confiança no desenvolvimento infantil, na capacidade e ritmo de cada criança, reconhecendo originalidades e particularidades.

Alguns estudos dizem que a educação infantil conta com as condições mais precárias de funcionamento, tanto na rede pública quanto privada. Qual o impacto da metodologia Pikler nesses cenários? As ideias e práticas de Emmi Pikler devem ser estudadas com profundidade mas levando em consideração as diferenças culturais e respeitando nossa formação.

A condição verdadeiramente precária nas creches e podem ser abrigos em favelas, presídios, creches comunitárias, particulares, públicas é o absurdo de manter crianças emparedadas. Criança precisa estar do lado de fora, em contato com a natureza, tendo ar para respirar e plantas e chão para pisar.

Há creches particulares que mantém seus bebês dentro de ar condicionado e creches comunitárias que proporcionam vida ao ar livre diariamente; há professoras de creches públicas de cidades com clima maravilhoso que não permitem que as crianças estejam nos pátios porque é quente. Há creches em que os bebés aprendem a engatinhar na terra e na grama, por outro lado.

Nossas crianças precisam estar em contato com a natureza, mesmo que seja um pequeno pátio e alguns vasos de plantas. Os brinquedos para as crianças devem ser simples, abundantes, limpos, acessíveis e dispostos de maneira conveniente.

Não precisamos de brinquedos sofisticados [para os bebês]. Os objetos não-estruturados têm maior eficácia.

Precisamos dar liberdade às crianças para descobrir seu corpo e seus movimentos. É necessário que os brinquedos sejam adequados em peso, quantidade e conservação. É preciso dar atenção e aprovação, quando solicitada, aos atos das crianças. Mais eficaz do que qualquer brinquedo sofisticado é um adulto investido na sua função de mediador e com confiança na capacidade do bebê e da criança pequena.

Quais são as evidências de que essa metodologia melhorou o desenvolvimento das crianças? Já estivemos em visita e observação em vários ambientes educacionais no Brasil e pelo mundo. Conhecemos um pouco mais as creches francesas, da Catalunha e algumas em Buenos Aires e Santiago do Chile. E não são muitas que têm inspiração pikleriana, ainda. Observamos que há uma grande presença de imigrantes e a maneira particular que a Abordagem Pikler vê os indivíduos parece ajudar.

Quais os principais exemplos que o Brasil pode tirar de países mais desenvolvidos referente à educação? A educação de bebês não necessita ser pautada em desenvolvimento, mas sim em sensibilidade, conhecimento e condições de funcionamento.

Ademais, a educação deve responder às demandas e características locais, ela será tão mais eficaz quanto mais enraizada no território e quanto mais conhecer seu público. O conhecimento teórico será buscado em livros, pesquisas e trabalhos que existem e que são fundamentais para a formação dos educadores. Mas é no reconhecimento das individualidades e das culturas locais que este conhecimento se corporifica e produz sentido.

Assim, ao invés de pensarmos em exemplos de países mais desenvolvidos, cremos ser mais produtivo pensar em quais as condições necessárias para se ter uma boa educação em qualquer lugar. Parece-nos, pelo que conhecemos de diferentes países e da nossa própria história, que uma condição básica é entender a educação como um valor comum, como um direito de todos, e portanto que isso seja traduzido em orçamento compatível com a complexidade e com os números da população e que o investimento seja constante e contínuo. Que seja uma política de estado e não sujeita aos ventos e trovoadas de cada governo.

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Redação Pátio
A redação da Pátio – Revista Pedagógica é formada por jornalistas do portal Desafios da Educação e educadores das áreas de ensino infantil, fundamental e médio.

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