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Não há como mudar a educação sem mudança política, diz Tabata Amaral

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Recém-empossada como deputada federal, Tabata Amaral afirma que Fundeb e formação dos professores precisam ser prioridades no Congresso. Crédito: divulgação.

Aos 25 anos, Tabata Amaral (PDT-SP) se tornou um rosto-símbolo da renovação no Congresso. Nascida na periferia, filha de pais humildes e muito jovem para os padrões da política de Brasília, ela se considera pronta para cumprir seu mandato como deputada federal. No ano passado, levantando a bandeira da educação, Amaral amealhou nada menos que 264 mil votos. Foi a 6ª mais votada para o legislativo federal no estado de São Paulo.

Como estudante de escola pública, Amaral colecionou diversas medalhas e prêmios em concursos de matemática, física, química, informática, astronomia, robótica e linguística. A habilidade com as exatas lhe rendeu uma bolsa para cursar o ensino médio em uma renomada instituição privada. Depois disso, ainda foi aceita na prestigiosa Universidade de Harvard.

Nos Estados Unidos, formou-se em Astrofísica e Ciências Políticas. E voltou ao Brasil para tentar mudar a realidade e o futuro de jovens carentes por meio da educação. Para isso, fundou a ONG Mapa Educação e o Acredito, um movimento para formar novas lideranças políticas.

Na manhã desta segunda-feira (4), primeiro dia útil após a posse, a deputada Tabata Amaral conversou por telefone com o portal Desafios da Educação. A seguir, confira os principais trechos da entrevista.

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A senhora repetiu em várias ocasiões que seu maior sonho é transformar a educação do Brasil. Sente que agora está mais perto da concretização desse sonho?
Não sei se estou perto da concretização, mas fiquei um pouquinho mais perto do que estava antes. A questão é que, quando a gente fala de educação de qualidade, a caminhada é muito longa e talvez leve a vida inteira. Quem é professor, atua em secretaria ou se dedica à pesquisa sabe que não há como mudar a educação sem mudança política. Foi por isso que resolvi encarar essa vida cheia de emoção. Eu até brincava que ou eu vinha para política ou jogava a toalha.

E não só foi para a política como elegeu-se deputada federal com a 6ª maior votação em São Paulo. Agora que assumiu, quais são os primeiros passos?
Minha prioridade número 1 é garantir presença na comissão de educação da Câmara, mas a confirmação só sairá nos próximos dias. Ainda haverá uma grande negociação entre os partidos para as comissões, é um processo bastante complexo. Enquanto isso, vamos nos articular para formar uma frente parlamentar de educação, com foco na educação básica. Não acho que a gente deva gastar tempo discutindo pautas ideológicas, não é isso que faz a educação mudar.

Nesse contexto, uma das pautas principais é o Fundeb (o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica, mecanismo de transferência de recursos da União aos estados). Como a vigência dele se encerra no ano que vem, é preciso retomar os debates de modo que o Fundeb seja redistributivo, corrija os erros da renovação anterior e que espalhe boas-práticas de gestão. Embora seja um assunto sem glamour, o Fundeb tem um impacto gigantesco na educação.

Tanto quanto a formação dos professores.
Que é um tema que as pessoas conhecem mais, mas que hoje é terra de ninguém. Por isso será outra pauta importante. Precisamos pensar em políticas para o desenvolvimento do professor, desde a formação inicial, passando pelo tipo de acompanhamento que os profissionais receberão e nos salários.

É uma caminhada bem longa, e que também inclui a reforma do ensino médio. A parte parlamentar da reforma já foi aprovada, então falo como ativista: precisamos acompanhar bem as mudanças que virão. O ensino médio é a área que a gente mais peca. O Brasil não consegue reter os alunos, que acabam tendo mais dificuldade na vida, não conseguindo passar no vestibular nem ingressar no mercado de trabalho. É preciso trabalhar para que o sistema diminua essa desigualdade.

Não acho que a gente deva discutir pautas ideológicas, não é isso que faz a educação mudar.

Falando em desigualdade, na semana passada o ministro da Educação afirmou que a ideia de “universidade para todos” não existe. O que a senhora pensa sobre isso?
Não sei qual foi a intenção do ministro com aquela declaração, mas o que se entendeu é que ele acha que a educação superior é para uma elite. Ele tem direito de se retratar. E eu vou combater essa ideia porque é algo muito da minha razão, da minha trajetória. Eu venho de um lugar em que as pessoas acham que não é preciso fazer ensino superior, que tem que ser vendedor, que não se pode sonhar.

Hoje, fazer faculdade é para quem tem mais condições. Mas é preciso que o Brasil seja um país onde o ensino superior seja acessível a quem quiser. Não é que todos devam fazer faculdade, para alguns o ensino técnico faz mesmo mais sentido. Mas não dá para impor essa divisão. Achei a fala do ministro muito infeliz, é algo que machuca muito e espero que ele se retrate.

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Para encerrar: o que os brasileiros podem esperar dessa nova geração de parlamentares no Congresso?
Agora é um período para pensar que renovação foi essa. De rostos, foi a maior desde 1998. Podemos comemorar, é verdade, mas precisa ser uma renovação de prática, de ideia, não uma renovação disfarçada. É preciso mais transparência, práticas mais éticas. Essa mudança não pode ser moralista, só para aparecer na rede social.

É preciso que o Brasil seja um país com ensino superior acessível a quem quiser.

Nessa questão do apartamento funcional (na semana passada, Amaral foi impedida de acessar o imóvel para o qual foi sorteada), ficou claro que aqui em Brasília os gabinetes não são distribuídos de forma democrática, não tem transparência. Aqui não há igualdade para todo mundo.

Muitas pessoas me questionaram por que exigi um apartamento funcional, que isso não parecia renovação política. Ora, eu não tenho um tostão para esse mês. Sempre trabalhei para ajudar minha família. Nesse último um ano e meio fiquei me preparando para o mandato, dizendo não a todo tipo de trabalho. Só vim a Brasília porque o meu partido pode bancar a passagem aérea e hotel. Quando eu explicava que não tinha dinheiro para moradia, não entendiam. As pessoas não conseguiram entender que eu não tenho como sustentar uma vida em Brasília por um mês para depois ser reembolsada. É difícil para elas entender que pessoas comuns estão ocupando os espaços.

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Leonardo Pujol
Leonardo Pujol é editor do Desafios da Educação e sócio-diretor da República – Agência de Conteúdo.

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1 Comentário

  1. Sou professor do ensino superior e já lecionei no ensino técnico. Tive a oportunidade se morar um pouco mais de 2 anos no Canadá, onde tive a oportunidade de ver outra realidade que, provavelmente, a deputada Tabata tambem viu nos Estados Unidos.
    Creio que devemos aprofundar as discussões sobre educação no Brasil partindo de objetivos muito bem definidos. Discutir sem ter objetivos em mente será como correr atrás do rabo.
    Espero, sinceramente, que a deputada consiga levar esse assunto tão sério a um nível de discussão realmente proveitoso.

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