Capacitação DocenteEnsino Básico

Como engajar os estudantes depois de uma pandemia?

0

Nesta quinta-feira, 28 de abril, celebra-se o Dia da Educação. Para marcar a data, o Desafios da Educação marcou presença no evento “Afinal, a educação passará a ser híbrida? Barreiras e oportunidades para esse novo modelo”. Promovido pela +A Educação, o encontro, também híbrido, reuniu pesquisadores e especialistas como Dennis Shirley e Andy Hargreaves, autores do recém-lançado “Cinco Caminhos para o Engajamento – Rumo ao Aprendizado e ao Sucesso do Estudante” (editora Penso, 2022). Ambos participaram por vídeo, onde exploraram os aprendizados obtidos com a pandemia.

A seguir, você confere a transcrição da conversa – editada para efeitos de clareza e concisão. Você também pode assistir a apresentação de Hargreaves e Shirley no vídeo abaixo.

***


Andy Hargreaves
: Somos professores na Universidade de Boston, nos Estados Unidos. E eu também sou professor na Universidade de Ottawa, no Canadá. Queremos dizer o quão felizes estamos de estar aqui hoje, que é o Dia da Educação. Um dia para celebrarmos os professores e o ensino, a aprendizagem e o desenvolvimento humano das nossas crianças. E eu acho que é um dia para pensarmos no propósito da educação.

Dennis Shirley: Isso mesmo. Pensamos muito sobre isso durante nossas carreiras. E eu acho que chegamos a conclusão que a educação está melhorando a qualidade de vida de todo mundo, não só em um futuro distante, mas também atualmente, especialmente, das novas gerações.

Andy: Então, essa experiência de vida é para as crianças, agora – não só para o que elas serão no futuro, mesmo que isso seja importante também. Esse é um período que passamos por uma longa pandemia. Suas crianças, junto com mais de um bilhão de crianças ao redor do mundo, estiveram aprendendo através da tecnologia ou sendo corajosos e voltando para a escola.

Chegou uma hora em que pensamos: o que realmente podemos aprender com esse momento? São muitas coisas, mas talvez, a gente deva mencionar o quão importante é o bem-estar. Não temos apenas que aprender matemática ou literatura. Se você não está bem, todo o seu ensino vai sofrer, tudo na sua vida vai sofrer.

Dennis: Verdade. E especialmente os aspectos sociais do bem-estar. O bem-estar, não como uma condição de um indivíduo, mas nosso relacionamento um com o outro. E vimos como é prejudicial o isolamento, sabe? Para pessoas mais novas, especialmente nossos adolescentes.

Leia mais: Crise de ansiedade em escola de Recife reacende debate sobre saúde mental dos estudantes

Andy: É importante pôr o bem-estar na frente, não nos fundos do ônibus. Nós aprendemos isso. E aprendemos muito sobre tecnologia – que, em parte, foi boa. Professores desenvolveram habilidades muito rápido, incrivelmente em vários casos. As crianças estão aprendendo novas habilidades também. Eles aprenderam a ser um pouco mais determinadas, um pouco mais independentes. Aprendemos novas maneiras de falar com nossas crianças, e dar a elas um feedback instantâneo, compartilhando seu trabalho. Os pais puderam ver o que seus filhos estão fazendo. Às vezes, eles fazem o dever de casa enquanto cozinham com os filhos e o professor. Na cozinha, tudo ao mesmo tempo. Então, aprendemos muitas coisas boas sobre a tecnologia. Sobre como podemos melhorar o ensino. Claro, é muito difícil substituir a qualidade das interações presenciais, os alunos podem ficar desligados ou distraídos. Acho que essa é uma hora para pensar as oportunidades da tecnologia, mas também os riscos.

Dennis: Eu acho que a pandemia deveria ter encerrado a ideia de que, às vezes, as escolas não têm um lugar no futuro da educação. Nós realmente precisamos de escolas, precisamos de lugares na comunidade em que as crianças fiquem juntas. Existem serviços sociais vitais nas escolas e as crianças aprendem a se desenvolver como seres humanos, de um jeito que é difícil de fazer apenas através da tela.

Leia mais: Como criar senso de comunidade na EaD para engajar alunos

Andy: Duas coisas que eu e Dennis, curiosamente, já estávamos endereçando na nossa pesquisa com professores nos Estados Unidos e também no Canadá é: como você engaja novamente os estudantes depois de uma pandemia? Às vezes, como você os engaja pela primeira vez? E, também, como prestamos atenção ao bem-estar deles, à saúde mental deles? Recentemente, escrevemos dois livros. Um deles é sobre engajamento dos estudantes. O que tentamos no livro foi exibir colocar estratégias que os educadores podem usar para ajudar no engajamento das nossas crianças. Às vezes, fazemos coisas nas escolas que impedem esse engajamento. Estamos testando excessivamente? Estamos estreitando o currículo escolar? Os jovens sentem que suas vidas estão refletidas nesse currículo escolar? Então, damos exemplos de educadores que estão se movendo além da obsessão, com testes que realmente mudam o currículo escolar de uma forma que os jovens podem ficar animados.

Dennis: E sobre o livro de bem-estarWell-Being in Schools: Three Forces That Will Uplift Your Students in a Volatile World, ainda sem tradução no Brasil?

Andy: Ah, o livro sobre bem-estar, é bem próximo do livro de engajamento. É sobre como nós prestamos atenção à qualidade da vida das nossas crianças agora e como ela será no futuro. Pensamos em como o bem-estar acontece, não só fora do currículo escolar, mas também dentro dele. Como os estudantes podem desenvolver o senso de significado e propósito, quando eles estão pensando sobre problemas grandes do ambiente, ou mudanças climáticas ou guerras, conflitos, caos, democracia. Nossas crianças estão realmente preocupadas com essas mudanças agora. E se prestarmos atenção nelas, elas não estão só aprendendo coisas, mas estão pensando em como podem fazer algum impacto nesses problemas. E o fato de que podem aprender com o mundo. Devemos usar a natureza como um ativo, não apenas ficando preso dentro de casa (ou da escola).

Dennis: Se você está trabalhando em uma favela, no Rio de Janeiro, e tem muita pobreza na favela em que você está trabalhando, você ainda tem acesso a várias coisas na vida. Você tem acesso ao clima. E muitos jovens apreciam sair dos prédios das escolas para aprender. Essa educação é muito mais ampla do que um currículo escolar que estamos passando na sala de aula. Então, nos nossos livros, tentamos expandir os horizontes do que é possível na educação, para que nossas crianças e jovens floresçam.

Leia mais: O paradoxo da educação no Brasil

Leonardo Pujol
Leonardo Pujol é jornalista e editor do Desafios da Educação. Também é sócio-diretor da República – Agência de Conteúdo, onde colabora para a revista Superinteressante, Piauí, BBC Brasil e HSM Management.

VOCÊ PODE GOSTAR

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.