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Por que a Índia tem um dos mais complexos sistemas de ensino superior

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Campus do Instituto Birla de Tecnologia e Ciência (BITS), em Pilani. Crédito: divulgação.

*Por Philip G. Altbach e Rahul Choudaha

A Índia é o lar de um dos sistemas de Ensino Superior mais complexos do mundo. Com mais de 860 universidades e mais de 40 mil faculdades, com 35 milhões de estudantes matriculados, é também o segundo maior sistema do mundo. Sua estrutura única de universidades públicas que afiliam e controlam em grande medida as faculdades de ensino (públicas ou privadas) cria uma rede de instituições com qualidade variável.

O tamanho, a escala e a organização do sistema o tornam virtualmente incontrolável – e a criação de políticas incoerentes e obstáculos burocráticos aumentam os desafios. Os mecanismos de garantia de qualidade existentes são inadequados. Para coroar os problemas, a Índia investiu pouco no Ensino Superior na última metade de século.

No entanto, a pressão sobre o governo da Índia para atingir os rankings globais vem aumentando. Houve, finalmente, um reconhecimento de que a Índia precisa se unir ao mundo do Ensino Superior do século 21, na medida em que busca competir na economia global do conhecimento.

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Uma das primeiras tentativas propostas pelo governo anterior, em 2009, envolveu a promoção de 14 “Universidades da Inovação”. O plano não chegou a lugar algum devido à falta de financiamento e à mudança de governo em Nova Deli. Em uma nova tentativa, a “Instituições de Eminência” (IoE), iniciativa do atual governo, tem como objetivo construir dez universidades públicas e dez privadas globalmente competitivas.

As vencedoras do “concurso de excelência” da IoE já foram anunciadas. Apenas seis foram escolhidas – aparentemente porque apenas seis eram comportáveis – um fato revelador, especialmente porque apenas três receberão fundos do governo. Além disso, nenhuma das vencedoras são instituições multidisciplinares, do tipo que está no centro de qualquer sistema acadêmico.

As três instituições públicas escolhidas, o Instituto Indiano de Ciência, Bangalore, e dois Institutos Indianos de Tecnologia – Bombaim e Deli – são todas instituições orientadas à tecnologia. As três instituições privadas são o Instituto Birla de Tecnologia e Ciência (BITS), em Pilani, a Academia Manipal de Ensino Superior e o “projeto raiz” Instituto Jio.

As instituições públicas receberão o equivalente a aproximadamente US$ 150 milhões em cinco anos – as privadas não recebem nenhum financiamento governamental, mas recebem autonomia institucional e significativa liberdade das regulamentações governamentais. Apesar de US$ 150 milhões ser “dinheiro de verdade”, não é de forma alguma transformador.

De fato, comparado a programas de excelência em outros países, como China, Rússia, Alemanha e França, esse nível de financiamento é irrisório. O reforço no financiamento ajudará instituições selecionadas com inovações ou talvez a possibilidade de elevar os salários acadêmicos para melhor competir internacionalmente, mas não permitirá mudanças fundamentais.

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Se as instituições da IoE se concentrarem principalmente em fazer mudanças que as ajudem a melhorar no ranking global, estarão perdendo uma enorme oportunidade para reformas essenciais, e, de qualquer maneira, é pouco provável que alcancem o resultado de uma alta classificação.

Jio e o contexto “raiz”

Em um livro recente, Universidades Aceleradas: Ideias e Dinheiro Combinados para Construir Excelência Acadêmica, Altbach, Reisberg, Salmi e Froumin afirmam que criar uma nova universidade com ambições de classe mundial é mais desejável do que tentar reformar uma que seja resistente a mudanças.

Enquanto criar uma nova universidade é um empreendimento arriscado e árduo, pode alcançar a excelência mais rapidamente com a combinação certa de liderança e recursos. No contexto da iniciativa da IoE, os experimentos “raiz” também são arriscados, mas, na verdade, quase todas as principais instituições acadêmicas da Índia são o resultado de tais iniciativas.

Os primeiros Institutos Indianos de Tecnologia foram fundados em 1951 com a ajuda de parceiros estrangeiros para construir escolas de ponta sem ter que lidar com a burocracia arraigada das universidades tradicionais. Tanto BITS Pilani (1964) quanto Manipal (1953), startups privadas, foram esforços de raiz na época.

A iniciativa Jio é financiada pelo homem mais rico da Índia e o 14º mais rico do mundo, Mukesh Ambani, que é um nome familiar na Índia com a sua empresa Reliance Industries e serviço de telefonia móvel. Jio não é incomum no contexto indiano. Mas enfrenta desafios significativos, como esclarecer o seu princípio básico de organização.

Como pretende diferenciar-se de outras universidades, na Índia e no exterior, e ao mesmo tempo igualar as melhores práticas acadêmicas de outros lugares? Enquanto o império da Reliance Industries é o maior negócio privado da Índia, o custo de criar uma universidade competitiva de classe mundial é espantoso, especialmente quando se começa do zero.

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Por exemplo, a Universidade de Ciência e Tecnologia King Abdullah (KAUST), na Arábia Saudita, estabelecida em 2009, gastou US$ 1,5 bilhão em suas instalações e tem US$ 10 bilhões em doações, para o atual número de 900 estudantes de mestrado e doutorado.

Jio e o conceito de classe mundial

Embora cada universidade de classe mundial seja única, existem requisitos comuns que são essenciais. Em O Caminho para a Excelência Acadêmica: A Criação de Universidades de Pesquisa de Classe Mundial, Altbach et al. apontam para três ingredientes essenciais: talento, recursos e governança favorável. Esses três elementos serão, é claro, necessários para toda a IoE escolhida pelo governo da Índia.

Mas vamos nos concentrar nas necessidades específicas do Instituto Jio, uma vez que, ao nosso ver, enfrenta oportunidades e desafios únicos e parece ser um empreendimento altamente ambicioso. Já mencionamos recursos, um desafio tremendo, especialmente porque nenhum recurso público será disponibilizado para o Jio ou outras instituições privadas. Vamos focar em talentos (professores e alunos) e governança.

O corpo docente está no coração de qualquer universidade, afetando cada aspecto da realização e implementação da missão da universidade. No caso da ambição por rankings, a produção de pesquisa é uma métrica chave.

Assim, atrair talentos acadêmicos orientados para a pesquisa exigirá não apenas recursos financeiros para pagar docentes com remuneração de nível global, mas também oferecer uma qualidade de vida atraente para suas famílias dentro e fora do campus.

Será que Karjat – uma cidade a duas horas de carro do aeroporto de Mumbai – é capaz de oferecer um ecossistema de infraestrutura física e institucional necessário para atrair os melhores talentos internacionais?

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A demanda dos estudantes por educação de qualidade na Índia continua forte, e a marca Reliance e um currículo inovador tornariam relativamente fácil atrair os melhores estudantes domésticos.

No entanto, o verdadeiro desafio seria atrair estudantes internacionais. O processo de tomada de decisão dos estudantes internacionais é complexo, com muitas opções globais disponíveis para os melhores alunos.

Por exemplo, um “instituto” não possui um reconhecimento tão grande entre estudantes e docentes internacionais quanto uma “universidade”. A marca Reliance, Ambani ou Jio podem impressionar o mercado global e influenciar a escolha dos estudantes em relação à Índia e ao Instituto Jio?

Um ponto positivo do programa IoE é o alto grau de autonomia e liberdade das restrições políticas e regulatórias do governo. No entanto, Jio (e os outros escolhidos pelo IoE) precisam ter ideias criativas em termos de organização e governança.

Por exemplo, até que ponto os processos de tomada de decisão precisam ser colaborativos, com envolvimento do corpo docente, em comparação a uma gestão hierárquica?

As melhores universidades, afinal, não são empresas de negócios, mas sim comunidades inovadoras de acadêmicos. Os estilos tradicionais de gerenciamento corporativo não se alinham às expectativas de governança de uma universidade criativa.

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Construir universidades de classe mundial é um empreendimento que exige utilização intensiva de recursos e alta criatividade, que realmente testa a paciência e a persistência. O Ensino Superior indiano está em extrema necessidade de exemplares de excelência. Realizar a ambição de construir universidades de classe mundial na Índia por meio de IoEs exigirá alinhamento de recursos, talento (docentes e estudantes) e governança.

*Escrito por Philip G. Altbach e Rahul Choudaha, o artigo “A controversa iniciativa de excelência na Índia” está na edição nº 95 da International Higher Education – publicação trimestral do Centro para Ensino Superior Internacional. A tradução é do Semesp.


Sobre os autores

Philip G. Altbach é professor pesquisador e diretor-fundador do Centro para Ensino Superior Internacional, Boston College, EUA. E-mail: altbach@bc.edu. Rahul Choudaha é vicepresidente executivo de Engajamento Global e Pesquisa da Studyportals, EUA. E-mail: rahul@DrEducation.com.

Redação
A redação do portal Desafios da Educação é formada por jornalistas, educadores e especialistas em ensino básico e superior.

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