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Para onde caminha a educação universitária americana

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Campus da Universidade Estadual da Flórida. Crédito: divulgação. 

*Por Michael McPherson e Francesca Purcell

O progresso em direção ao ensino básico e secundário universal na maioria dos países tem sido lento e difícil, mas a tendência global ao longo do tempo é rumo a uma maior oportunidade para mais estudantes de diferentes origens e regiões. Com base em sua história de expansão educacional para jovens aprendizes, os Estados Unidos estão agora se aproximando do acesso universal à educação pós-secundária, com quase 90% dos graduados no ensino médio se matriculando em uma faculdade ou universidade de dois ou quatro anos durante a fase jovem adulta.

Infelizmente, sérias limitações devem ser enfrentadas para que mais estudantes obtenham os benefícios econômicos e pessoais que acompanham a educação universitária e que o país continue a ser uma nação democrática de oportunidades econômicas. Para garantir que os estudantes recebam a educação que precisam, devemos nos concentrar na conclusão e na acessibilidade, enquanto enfatiza-se a qualidade de maneira mais forte.

Melhorando a conclusão e a acessibilidade

Como muitas instituições de ensino superior em todo o mundo, faculdades e universidades americanas têm dificuldades com a conclusão e a acessibilidade. Nos Estados Unidos, pouquíssimos se formam, com apenas cerca de 55% dos alunos concluindo uma credencial universitária. Mais estudantes estão dinheiro para pagar a faculdade – mais de 60% fizeram empréstimos; e aqueles que não se formam são os mais propensos a terem problemas para pagar seus empréstimos, limitando ainda mais a sua oportunidade econômica.

Esses obstáculos são particularmente graves para minorias sub-representadas e estudantes de famílias de baixa renda, o que significa que o país está perdendo grandes reservas de potencial humano. Muitas instituições, grupos diretivos e pesquisadores se concentram agora na conclusão e na acessibilidade, e muitas práticas promissoras mostram resultados sólidos.

Por exemplo, a Universidade Estadual da Flórida aumentou suas taxas de conclusão de 63% para 79% no período de alguns anos, usando dados para identificar barreiras e implementar estruturas de apoio para ajudar estudantes. Os programas de empréstimo baseados na renda australianos e ingleses são exemplares em ajudar a reduzir as taxas de inadimplência, e os Estados Unidos deveriam se inspirar nesses modelos.

Além da conclusão e da acessibilidade, maior atenção precisa ser dada aos propósitos da aprendizagem que ocorre durante a faculdade, e como podemos cumprir realisticamente essa promessa de prosperidade futura.

Levando o ensino na faculdade mais a sério

Debates sobre o valor da educação vocacional versus as artes liberais têm um longo histórico nos Estados Unidos, mas essa aparente divisão é uma escolha falsa; graduados na faculdade precisam dominar uma gama de competências acadêmicas, práticas e cívicas.

Estudantes de todos os campos precisam adquirir uma gama de habilidades associadas às artes liberais, como comunicação, pensamento crítico e trabalho em equipe, além de competências técnicas e práticas. Esses estudantes terão a melhor chance de ter um desempenho efetivo no trabalho, participar de suas comunidades e aprender durante suas vidas.

Nos últimos 40 anos, um corpo crescente de pesquisas aprofundou a nossa compreensão de como as pessoas aprendem e, por sua vez, trouxe ideias sobre como os professores podem ensinar melhor. Essas pesquisas oferecem uma série de práticas de ensino baseadas em evidências, associadas a uma série de resultados positivos, incluindo maior aprendizado do aluno, reduções nas lacunas de desempenho e aumento da persistência.

No entanto, o uso de técnicas de ensino baseadas em evidências em todas as 4,7 mil faculdades e universidades do país não é a norma, embora o principal determinante de uma educação de qualidade seja a relação de ensino e aprendizagem entre docente e alunos.

Em muitas instituições, mais atenção é dada à pesquisa dos docentes do que ao ensino dos docentes. Há relativamente pouco foco em medir e observar o desempenho de ensino, exceto por questionários de estudantes, que geralmente são um fraco indicador de desempenho. As coisas que sabemos que funcionam não são amplamente utilizadas.

Por exemplo, o setor educacional K12, do ensino primário ao ensino médio, mostra que a observação rigorosa das salas de aula por indivíduos treinados e com formas organizadas de prover feedback pode ser muito eficaz para melhorar o desempenho de ensino. No entanto, essa prática está longe de ser a norma nas salas de aula das faculdades americanas.

A realidade é que a principal ocupação da maioria dos professores universitários é o ensino de alunos de graduação, não obstante geralmente recebam pouco treinamento inicial, apoio contínuo ou reconhecimento por esse trabalho fundamental.

Além disso, o número crescente de professores “temporários” – uma tendência internacional – permite que as instituições economizem dinheiro apostando mais fortemente em instrutores em regime de meio-período, com contratos de curto prazo, que recebem menos, têm poucos benefícios e estabilidade mínima no emprego, e frequentemente não têm voz ativa na governança. Ainda mais preocupante, eles geralmente têm pouco tempo e oportunidade de se envolver com os alunos.

E, no entanto, docentes temporários agora formam pelo menos metade do corpo docente instrucional nas universidades públicas de pesquisa do país e mais de 80% em nossas faculdades públicas comunitárias de dois anos.

Em resumo, o ensino nas faculdades precisa ser levado muito mais a sério. Mesmo que os Estados Unidos formem mais alunos e reduzam os níveis de endividamento, esta será uma vitória vazia e dispendiosa se os alunos não estiverem equipados com os conhecimentos, habilidades e atitudes necessários para conduzir bem em suas vidas.

Fazendo progresso

A transformação de uma força de trabalho docente enraizada em conhecimentos disciplinares para incluir conhecimentos pedagógicos não será fácil. Faculdades e universidades precisam primeiro sinalizar inequivocamente que se importam com o ensino. Mais instituições devem dar mais peso a práticas de ensino eficazes quando os professores estão sendo avaliados para promoção ou renovação de contrato.

Isso deve ser acompanhado por meio de mentoria e outros recursos estruturados disponíveis para o corpo docente. Esses professores – e há muitos – que dedicam tempo e energia para melhorar seu ensino precisam ser destacados e recompensados.

As instituições devem estar dispostas a encontrar os recursos e a determinação para melhorar as condições de trabalho dos professores em regime de meio-período e, quando possível, mudar essas posições para tempo integral com contratos de longo prazo.

Suspeitamos que, para muitos desses docentes, o tratamento respeitoso e uma voz na governança contam, no mínimo, tanto quanto o dinheiro extra no salário. Sem essas mudanças, será difícil progredir de maneira substancial.

Devemos reconsiderar também todo o conceito do que significa ser um profissional de ensino. Programas de mestrado e doutorado que formam estudantes que passam a ensinar no nível pós-secundário devem incluir oportunidades significativas de treinamento de professores. Atualmente, o doutorado é quase exclusivamente um diploma de pesquisa e não um diploma de ensino, embora muitos estudantes de doutorado continuem a ensinar em período integral.

Embora o ensino superior americano enfrente enormes desafios, também existem reais motivos para otimismo. Para todas as dúvidas levantadas sobre os benefícios de uma educação universitária, ela cumpre suas promessas de maior prosperidade social e individual; mais instituições estão melhorando seus esforços para formar estudantes; e as oportunidades tecnológicas promovidas com cuidado estão aumentando o sucesso dos alunos.

O progresso não é garantido, e as coisas boas só acontecerão com um esforço sustentado, mas se pudermos manter o foco no trabalho, combinando paciência com urgência, poderemos, por meio da educação universitária, fazer grandes avanços como indivíduos e como nação.

*Escrito por Michael McPherson e Francesca Purcell, o artigo “O futuro da educação universitária americana” está na edição nº 95 da International Higher Education – publicação trimestral do Centro para Ensino Superior Internacional. A tradução é do Semesp.


Sobre os autores

Michael McPherson é presidente emérito da Fundação Spencer. É ex-presidente da Comissão sobre o Futuro da Educação Universitária da Academia de Artes e Ciências dos Estados Unidos. E-mail: mmcpherson@spencer.org. Francesca Purcell é diretora do programa Educação e Desenvolvimento do Conhecimento na Academia de Artes e Ciências, nos Estados Unidos. E-mail: fpurcell@amacad.org.

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