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Aumento do número de escolas de Medicina não piora qualidade do ensino

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Desde o início do século, o número de médicos dobrou no Brasil. Hoje, segundo Conselho Federal de Medicina (CFM), são mais de 500 mil profissionais formados na área – em 2000, eram cerca de 230 mil. Para se ter uma ideia, a média de 2,4 médicos para cada 1 mil habitantes é igual ao índice do Japão.

Entretanto, em um país continental, a distribuição dos médicos é desigual, o que deixa populações carentes desassistidas. O estudo Demografia Médica no Brasil, realizado pelo CFM e Universidade de São Paulo (USP), aponta os médicos estão concentrados nos grandes centros. Capitais como Vitória e Florianópolis possuem mais de 10 médicos por 1 mil habitantes.

Nesse cenário, a interiorização das escolas de Medicina é uma importante ferramenta para dar capilaridade ao mercado de trabalho médico-assistencial. Além disso, a estratégia promove a retenção de talentos em cidades do interior, melhorando o atendimento à população nesses locais.

O Ministério da Educação (MEC) autorizou, recentemente, a abertura de novos cursos e o aumento do número de vagas na área. Foram credenciadas, por exemplo, a Faculdade de Ji-Paraná, no município de mesmo nome, em Rondônia; e o Centro Universitário Estácio, em Iguatu, no Ceará. As duas instituições pertencem ao grupo educacional YDUQS. Em 2022, o grupotambém recebeu a aprovação para abertura de 100 vagas no município de Jaraguá do Sul, em Santa Catarina.

Para falar sobre a interiorização dos cursos de Medicina e a expansão do número de vagas, o Desafios da Educação conversou com o diretor executivo de Medicina do Instituto de Educação Médica (IDOMED) da YDUQS, o médico neurologista Silvio Pessanha Neto.

Confira, abaixo, a entrevista completa:

Qual é o impacto do aumento das vagas em Medicina para a população?

O aumento das vagas nas faculdades é muito importante para interiorizar a formação médica no país. Desde 2013, houve mudança no fluxo regulatório devido a Lei do Mais Médicos, que intensificou este processo de interiorização.

Eu vejo a transformação que esses cursos causam nas regiões onde são instalados, atraindo muito desenvolvimento, não somente na área de saúde e educação, mas para a economia das cidades que sediam estes projetos.  A estrutura necessária para implantar um curso de Medicina e a presença dos alunos e seus preceptores na rede saúde por si só já melhoram a capacidade de assistência local.

Penso que, com essa expansão, podemos gerar uma melhor distribuição dos profissionais no interior do país e que esses cursos novos são um mercado de trabalho propício para que os médicos voltem aos seus locais de origem.

Leia mais: Por que o Brasil triplicou o número de faculdades de Medicina

Como, efetivamente, os novos cursos ajudam a distribuir médicos pelo país?

Antigamente, o aluno migrava muito para fazer Medicina. E isso vem mudando. Além disso, quando você coloca um curso de Medicina nessas regiões mais interiorizadas e carentes, você atrai médicos que tinham deixado essas regiões. Afinal, você amplia o mercado de trabalho e oferece melhores condições para esses profissionais.

Como esses cursos novos demandam a implantação de residência médica atrelada à graduação, o aluno, além de conseguir estudar próximo à sua casa, pode se especializar na região e, muitas vezes, acaba se fixando no local. Não há dúvida da riqueza e da eficiência da implantação de cursos em locais estratégicos no nosso país.

Você acredita que essa expansão deva continuar?

A minha impressão é que o movimento atual está certo, mas a regulação das escolas médicas em geral precisa ser revista. O modelo proposto pelo edital do Mais Médicos é eficiente, mas necessita de alguns ajustes.

Os cursos antigos precisam ser mais bem avaliados, com uma exigência maior para garantir qualidade – esse é o grande ponto. É um erro dizer que a qualidade do ensino está piorando porque o número de escolas de Medicina está aumentando.

O problema não é aumentar, mas, sim, as mais tradicionais não serem avaliadas com mais rigor. Os novos cursos são mais frequentemente avaliados e são submetidos a instrumentos bem detalhados e rígidos, garantindo a manutenção da qualidade.

Leia mais: Como melhorar o desempenho dos cursos de Medicina no Enade

Quais os diferenciais dos cursos da YDUQS?

A gente sempre busca atender as necessidades da população local. Além disso, essa nova geração é nativa digital. Então, todos os nossos cursos têm, por exemplo, laboratórios high tech de anatomia em realidade virtual (3D), sem abandonar as peças cadavéricas.

Outro ponto importante é que, desde o primeiro ano, o estudante é inserido nos cenários de prática. Unimos tecnologia, bons professores e mantemos um atuante núcleo de desenvolvimento docente para proporcionar um ensino cada vez melhor.

Isso é honrar o compromisso de levar para essas localidades uma infraestrutura de ponta e um projeto pedagógico robusto para formar médicos de qualidade.

Leia mais: Como a tecnologia transforma a prática e o ensino de Medicina

Quais os investimentos necessários para efetivar a ampliação das vagas?

É difícil definir um padrão de investimentos para a abertura de vagas, pois cada local tem as suas especificidades. Para aumentar o número de vagas, em alguns casos, dependendo do investimento inicial realizado pela instituição de ensino, o foco é em expandir o número de salas de aula e espelhar laboratórios, além de ampliar as vagas nos cenários de prática para inserir os alunos.

Um cenário bem diferente é quando se faz necessário construir todo um prédio do zero. Depende, portanto, da estrutura já existente no início da operação. Na YDUQS, nós já iniciamos com uma estrutura mais robusta, assim, quando há necessidade de aumento de vagas, o investimento costuma ser menor.

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Quais os principais desafios para implementar cursos novos?

Entre os desafios, estão a implantação dos programas de residência médica; a seleção e contratação de docentes de alto padrão e custo – afinal, os bons profissionais precisam ser bem remunerados; os investimentos em tecnologias específicas para a área; a pactuação e remuneração das unidades de saúde, tanto públicas quanto privadas, para os estudantes terem vivências práticas de qualidade.

É importante lembrar que o edital do Mais Médicos prevê que a instituição repasse até 10% do faturamento bruto do curso para a rede municipal de saúde. Além disso, normalmente 10% das vagas precisam ser destinadas a bolsas integrais para estudantes de baixa renda da região, favorecendo o desenvolvimento local.

Ou seja, para garantir a implantação e manutenção de um curso médico de qualidade é preciso ter boa saúde financeira, experiência em educação médica e um projeto pedagógico aderente às necessidades do mercado.

Leia mais: Medicina EaD? Para algumas disciplinas, sim

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