Ensino Básico

O primeiro semestre do Novo Ensino Médio na perspectiva de escolas públicas e privadas

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O primeiro semestre de 2022 marcou o início da implementação do Novo Ensino Médio. Com carga horária maior e diferentes possibilidades de formação, o modelo começa a se tornar realidade em escolas públicas e privadas do Brasil. 

Formulada a partir da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs), homologadas em 2018, a reforma instituiu os itinerários formativos e ampliou a carga horária mínima de 800 horas anuais (4 horas por dia) para 1 mil horas anuais (5 horas por dia).  

O portal Desafios da Educação conversou com duas escolas – uma privada e uma pública – para entender como foram os primeiros seis meses do Novo Ensino Médio nessas instituições de ensino.  

Colégio Humboldt, em São Paulo, iniciou a implementação do Novo Ensino Médio oferecendo 38 disciplinas eletivas. Foto: Instagram Colégio Humboldt.

O Novo Ensino Médio no contexto de uma escola privada

O Colégio Humboldt é uma tradicional escola bilíngue localizada no bairro de Interlagos, em São Paulo. Fundada por imigrantes alemães, possui mais de 100 anos de história e acompanhou inúmeras mudanças na educação brasileira.  

Agora, está se adaptando a mais uma transformação. Após o primeiro semestre de implementação do Novo Ensino Médio, a coordenadora pedagógica de Ensino Médio do Colégio Humboldt, Talita Marcília, percebe os impactos positivos da reforma.  

“O Brasil era o único país que não tinha flexibilização de currículo de Ensino Médio, com uma parte optativa, contribuindo para o desenvolvimento da autonomia do aluno”, explica Marcília. 

Com o Novo Ensino Médio, as disciplinas obrigatórias da formação geral básica – Português, Matemática e Inglês – equivalem a 60% da carga horária do currículo. As demais – como geografia, história e biologia – serão abordadas de forma interdisciplinar ao longo do curso.  

Os 40% restantes da carga horária são preenchidos pelos chamados itinerários formativos. Nesse caso, os alunos poderão escolher quais destes componentes flexíveis do currículo pretendem cursar, levando em conta suas preferências e intenções profissionais.  

A preparação para essa implementação no Colégio Humboldt começou em 2018, com uma alteração na matriz curricular que criou espaço para as matérias eletivas. Ao todo, são 38 itinerários formativos.  

“No Humboldt, fizemos um bloco de eletivas autorais totalmente a distância (EAD), em que o aluno vai ter o modelo síncrono e assíncrono, com muitos encontros ao vivo e entregas”, conta Marcília. “No balanço total, as eletivas EAD trazem um ganho para as competências socioemocionais, como autorregulação e tomada de decisão”, completa.  

Leia mais: O que são e como oferecer os projetos de vida no Novo Ensino Médio  

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A realidade da implementação no ensino público 

Em Gravataí, na região metropolitana de Porto Alegre, situa-se uma das escolas mais antigas do Rio Grande do Sul. O Colégio Estadual Barbosa Rodrigues completou 100 anos em 2022. Também foi espectador e participante de diversas transformações na educação brasileira.  

Contudo, a realidade das instituições públicas é bem diferente das privadas. Marta Serpa, que é uma das supervisoras do ensino médio do colégio, conta que ainda não houve ganhos significativos para os alunos.  

“Existe uma falta de tempo para os professores se apropriarem dos itinerários, pois eles estão atolados de trabalho com a mudança de organização do ano letivo, que passou a ser bimestral”, diz Serpa.  

Em entrevista ao portal do Sinpro/DF, a coordenadora do Grupo de Estudos em Políticas Públicas para o Ensino Médio (Geppem), da Faculdade de Educação (Faced), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Mariângela Bairros, ressalta que a implementação precisa levar em conta a situação dos professores. 

“Nós temos professores com baixos salários, até recentemente com salários atrasados. Faltam profissionais, inclusive de Português e Matemática. Isso não é dito nesta reforma”, expõe Bairros. 

Ainda há a falta de estruturas como laboratórios, espaços para projetos e bibliotecas, importantes componentes para a mudança. “Não há um objetivo de recuperar a estrutura das escolas, mas coloca sobre os jovens que basta eles escolherem”, enfatiza Mariângela. 

Uma pesquisa do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic), entidade ligada ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI) mostrou que 93% das instituições públicas do país tiveram dificuldades no acesso de internet durante a pandemia, o que acarretou em perdas no ensino.  

Em agosto deste ano, o portal GZH constatou que 665 escolas estaduais do Rio Grande do Sul estavam com problemas elétricos de alta e média prioridade, o que representa cerca de 28% das 2.353 instituições do estado.  

“Na prática, dentro da escola, não vejo inovação. Foi apenas uma forma diferente de organizar os componentes curriculares, ou seja, só mudaram a nomenclatura. Agora, nossa questão é o tempo para poder estudar as trilhas e apresentar para os alunos, e temos prazos curtos para isso”, afirma a supervisora de ensino médio no Colégio Estadual Barbosa Rodrigues. 

Leia mais: Estudos mostram cortes no orçamento da educação nos últimos três anos 

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