Gestão educacional

Mieza, um benchmarking de escola para a revolução digital

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Aristóteles ensinando Alexandre, o Grande, na gravura de Charles Laplante. Crédito: reprodução.

Por Rui Fava

O sistema japonês de qualidade, baseado num processo denominado kaizen (alto aprimoramento contínuo), utiliza a palavra dantotsu (lutar para tornar o melhor do melhor). Consiste em procurar, encontrar, aperfeiçoar, superar as qualidades dos concorrentes. No ocidente, esse conceito passou a fazer parte do processo de planejamento estratégico empresarial, tornando-se conhecido como benchmarking.

Benchmarking não é cópia ou imitação. É um recurso contínuo de investigação que fornece valiosas informações. Trata-se de um método de busca das melhores práticas, que permite realizar comparações de processos companhia a companhia para identificar o melhor do melhor, alcançar um nível de superioridade ou, conforme Michael Porter, uma vantagem competitiva.

Pensando no artifício de benchmarking, procurei modelos educacionais que foram perscrutados e replicados.

O primeiro data de 28 de outubro de 1717, quando Frederico Guilherme I, rei da Prússia, instituiu a obrigatoriedade do ensino primário no seu país. A metodologia previa os estudantes sentados em fileiras acompanhando o professor que reproduzia seu monólogo. Os alunos, tomavam nota daquilo que deveria ser decorado até a próxima prova. Esse benchmarking persiste ainda hoje em muitas escolas brasileiras.

Contudo, a tecnologia transmutou o mundo, proporcionando uma cisão entre o sistema de ensino infundido na sociedade de séculos atrás e a realidade do atual. Máquinas a vapor propiciaram espaço à inteligência artificial. Ela já está substituindo todo trabalho preditivo e rotineiro, concebendo fábricas com exígua mão de obra humana, impressoras 3D que materializam variados objetos e artefatos, tratores autônomos que aram, gradeiam, colhem centenas de hectares de plantações, robôs que comutam carreiras e profissões.

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Prossegui com minha perquirição por um benchmarking mais apropriado ao cenário que estamos vivenciando. Encontrei uma instituição exemplar que formou egressos de sucesso. Nessa escola, os estudantes são preparados para resolver problemas complexos e inesperados, cuja solução talvez não recaia propriamente em nenhuma categoria ou área de especialização bem definida. Ou seja, o conteúdo é utilizado para desenvolver competências, habilidades, não para ser decorado.

Nessa instituição, os estudantes devem ser capazes de improvisar, tomar decisões difíceis, reconhecer aspectos em comum entre problemas diferentes. Investigar para comprovar ou refutar suas hipóteses, trabalhar em cooperação uns com os outros. O programa acadêmico é idealizado a fim de proporcionar uma profunda imersão no campo de especialização escolhido pelo aluno. E, ao mesmo tempo, uma visão geral de outras áreas, de tal forma que os estudantes possam lidar, de maneira integrada, com os problemas. A metodologia ativa e experimental utilizada é baseada no diálogo, na obediência, no respeito, na determinação, na cooperação, no ensino compartilhado entre mestres e discípulos.

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A base de Aristóteles na escola de Mieza

Uma escola ideal para o nosso tempo – pois averígua uma formação por competência utilizando como meios o estudo de conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais – foi construída em 343 a.C. Ficava nas colinas de Mieza, na Macedônia, e tinha como principal professor Aristóteles e como alunos Alexandre, o Grande e outros generais.

Mieza foi o local onde a mente de Alexandre foi preparada para investigar dados concretos, padrões subjetivos e procurá-los entre as mais diversas fontes para chegar a uma solução. Havia uma humildade que Aristóteles deve ter procurado inculcar em Alexandre e seus colegas, referindo-se à inexistência de uma resposta perfeita para todos os problemas. Eles eram preparados para acreditar que o mundo com o qual iriam interagir como administradores, governadores, generais. Era um complexo de sentimentos, pontos de vistas, hipóteses e pré-conceitos formatados.

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Aristóteles sabia que ensinar Alexandre a agir de improviso poderia significa a diferença entre o fracasso e o sucesso, entre a vida e a morte. Assim, soterrava seu pupilo de dados e situações para ver como ele encarava, adaptava, resolvia um problema com base numa série de dados desconexos, muitas vezes conflitantes. Ele aprendia a pensar no nexo entre os dados. Nos aspectos frágeis da lógica de um argumento. Nas informações que estavam faltando – mesmo já quase afogado em informações de toda espécie.

Poucas referências assomaram sobre o tempo em que Alexandre passou em Mieza. Mas podemos imaginar que Aristóteles tenha idealizado um projeto acadêmico capaz de proporcionar uma profunda imersão no campo de especialização. Ao mesmo tempo, deu uma visão geral de outras áreas, de modo que os futuros líderes da Macedônia pudessem defrontar de forma integrada com a guerra, as políticas públicas, a justiça e a gestão de seus territórios.

Aristóteles acreditava profundamente na virtude da prática e da aplicação do conteúdo estudado. Desse modo, celeremente Alexandre e seus companheiros se tornaram ótimos reconhecedores de padrões, capazes de fazer escolhas e tomar decisões a partir de dados e informações simples, ambíguas e, muitas vezes, imprecisas; de formular juízos baseados na intuição e na lógica; foram instruídos a assumir riscos. Nos três anos de preparo de Alexandre, o Grande, Mieza respondeu à altura o desafio de criar um grupo intelectualmente e fisicamente preparado para conquistar o mundo.

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Acima de tudo, Mieza proporcionou a Alexandre uma visão de mundo que era mais ampla e integrada que qualquer outra instituição educacional seria capaz de agraciar.

Esse benchmarking mostra o quanto perdemos ao deixar de seguir os ensinamentos da Grécia Antiga. Demonstra claramente que, apesar da tecnologia ser uma excepcional aliada no processo de ensino e aprendizagem, a verdadeira metamorfose está na maneira de ensinar, instruir e educar.

Buscando as melhores práticas para a revolução digital

É fato que o avanço tecnológico e a consequente substituição do trabalho físico, repetitivo, preditivo e rotineiro provoca a necessidade de desenvolver novas aptidões e uma revolução na educação prussiana que impera no Brasil. Daí a importância de buscar as melhores práticas em escolas como Mieza.

Segundo a OCDE, quase dois terços das crianças matriculadas no ensino fundamental de hoje trabalharão em carreiras e ocupações que ainda não existem. A estimativa é que 35% das habilidades mais demandadas atualmente se alterem em menos de 24 meses, quando 7,1 milhões de empregos deverão desaparecer.

Vivenciamos uma palpável revolução digital, que não ocorre apenas no mundo das redes sociais, do Google, Apple, Microsoft e outras companhias da internet. Não é uma transformação de apenas automação de processos. É bem mais abrangente. Envolve uma metamorfose significativa de cultura, modelo mental, paradigmas, conceitos e estratégias.

Trata-se de uma reinvenção do paradigma escolar, seja na gestão ou no processo de ensino e aprendizagem e não simplesmente descolar e mover caixinhas. É preciso conceber uma nova escola para agilidade e velocidade e não para controle e estabilidade como as que existem hoje.

A digitalização da escola provoca a desmaterialização do ensino, migrando parte do face to face para o virtual. Isso ocasiona a desmonetização, o barateamento das mensalidades e potencializa a democratização. Talvez o exemplo mais concreto desse processo seja o smartphone, que desmaterializou diversos equipamentos físicos como CDs, gravadores, GPS, câmeras fotográficas, filmadoras, entre outros; desmonetizou, barateou os custos e democratizou o uso. Provocou uma disrupção em todo esse mercado.

Os estudantes atualmente valorizam custos, experiência, plataformas interativas, desafios, metodologias que o fazem participar diretamente da sua aprendizagem. Ficar inerte, escudado na regulação ou nas desculpas acomodadas como “primeiro preciso arrumar a casa” não vão proteger a escola. Não se barganha com a disrupção. Ela simplesmente vem e passa por cima de negócios solidamente estabelecidos há centena de décadas. Se faz mister voltarmos a ofertar uma educação para formação do homem e não somente para o beneficio da indústria e do mercado.

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Seja na Escola de Mieza, na Academia de Platão ou no Liceu Aristotélico, o objetivo da educação na Grécia do século V a.C. foi fazer com que o indivíduo passasse para o primeiro plano. Isso deu origens a saberes e técnicas que o tornaram mais conscientes de si, de suas potencialidades e realizações. Essas escolas tornaram-se fóruns naturais, espaços adequados, abertos e frutíferos para o dialogo, para a discussão, para a produção de conhecimentos inovadores e disruptivos.

A história comprova que os resultados da escola de Mieza foi um sucesso estrondoso. Era uma escola que estava muito além não apenas de seu tempo, mas certamente de muitas instituições atuais; uma escola que, mesmo sem tecnologia digital, já praticava a Educação 3.0. Entendê-la, conhecer seus métodos, é um excelente benchmarking para qualquer instituição de ensino contemporânea que queira se reinventar nesse mundo complexo de transformação digital, inteligência artificial, automação de processos e serviços.


Sobre o autor

Rui Fava é sócio-fundador da Atmã Educar, ex-reitor da Unic, da Unopar e vice-presidente acadêmico da Kroton. Autor de diversos livros, como Trabalho, Educação e Inteligência Artificial: A Era do Indivíduo Versátil, Educação 3.0: Como Aplicar o PDCA nas Instituições de Ensino e Educação para o século 21: a era do indivíduo digital.

Redação
A redação do portal Desafios da Educação é formada por jornalistas, educadores e especialistas em ensino básico e superior.

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