O futuro do ensino superior: a era da Educação 4.0

IES devem estimular o empreendedorismo e o desenvolvimento de habilidades digitais. (FOTO: Visual Hunt)

No futuro, a mão de obra humana será substituída por máquinas. Você já deve ter ouvido essa previsão. O aviso vem sendo dado por cientistas e pensadores desde a primeira metade do século 20. Pois saiba que a profecia está próxima de se concretizar. Ao menos é o que aponta o relatório The New Work Order, desenvolvido pela Foundation for Young Australians (FYA), em 2017.

De acordo com o levantamento, seis de cada dez estudantes australianos estão aprendendo profissões que serão substituídas por máquinas dentro de 10 ou 15 anos. Mais: devido à automação dos processos, pelo menos 70% dos cargos ocupados por jovens podem desaparecer até 2037. Um sumiço que não se limita a postos operacionais. Algumas funções com maior grau de elaboração mental – como contadores e engenheiros – também podem ir parar nas mãos metálicas dos robôs.

Diante desse cenário aparentemente nada auspicioso, a FYA recomenda que as Instituições de Ensino Superior (IES) estimulem o empreendedorismo e o desenvolvimento de habilidades digitais por parte dos alunos. Essas capacidades serão vitais daqui em diante.

Na prática, a adequação das IES já está em curso. A nova era do aprendizado é uma realidade em diversas instituições ao redor do mundo. Impulsionadas pela tecnologia, as universidades estão adotando modelos disruptivos de aprendizagem – cujos pilares são a personalização do ensino, estímulo à experimentação dos alunos e a combinação entre a sala de aula e o ambiente online. O movimento está sendo chamado de Educação 4.0.

Da fábrica ao quadro negro

A nomenclatura segue uma tendência registrada em outros setores, como a indústria. O termo 4.0 surgiu na Alemanha, em 2012, para identificar fábricas inteligentes que empregam recursos inovadores em seus processos produtivos. O leque de novidades abrange ferramentas como Inteligência Artificial (IA) – a capacidade de uma máquina simular o raciocínio humano – e a Internet das Coisas (IoT, na sigla em inglês), sistema que conecta qualquer objeto à web.

A aplicação dessas tecnologias é a principal responsável por transformações que já começam a ser notadas em diversos âmbitos da sociedade. No setor de educação, a revolução inclui o uso das inovações para privilegiar a personalização dos processos de aprendizado.

Por isso o termo Educação 4.0, possível por meio de plataformas que mesclam recursos de IA e de Big Data Analytics – a tecnologia capaz de armazenar e interpretar quantidades gigantescas de dados. Os softwares conseguem entender os melhores métodos para desenvolver o aluno, conforme ele interage com o sistema. O design dos videogames e a lógica das redes sociais também são elementos que colaboram para a elaboração das novas estratégias de ensino. A ideia central é direcionar esses recursos para valorizar a experiência do estudante.

Educação 4.0: além da conexão

A Educação 4.0 está centrada no conceito do “aprender fazendo” – ou “Learning by Doing”, na expressão cunhada em inglês. O modelo prioriza o autodesenvolvimento do aluno e a construção de valores, conhecimentos e habilidades a partir da vivência de diferentes atividades. Aqui, a tecnologia surge como trunfo para flexibilizar e incrementar o aprendizado. Um exemplo dessa orientação pode ser notado no método Ensino Híbrido.

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O modelo prega a integração de abordagens on e offline para criar um ambiente propício à educação alicerçada na experiência. Vai além da simples inserção de smartphones e computadores na sala de aula. O Ensino Híbrido propõe o uso conjunto de recursos que realmente estimulem as habilidades digitais e a inteligência dos estudantes. A prática tem até um ambiente próprio para acontecer: são os chamados makerspaces – espaços de criação, em tradução livre.

Os makerspaces são laboratório de experimentação, equipados com diversos recursos – de serrotes e cortadores de madeira até impressoras 3D e softwares de programação. Também conhecidos como hubs de inovação, esses ambientes propiciam a elaboração de produtos e projetos, incentivando a criatividade e a tolerância ao erro por parte dos alunos.

“São espaços para reprodução de artefatos DIY [do conceito Faça Você Mesmo, em português]. Vários deles têm uma dinâmica de aprendizado em conjunto que favorecem o desenvolvimento de projetos criativos”, explica Bia Martins, doutora em Comunicação e pós-doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Informação, vinculado ao Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) e à Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ)

Além dos makerspaces, a experimentação também pode acontecer em hackerspaces. O diferencial desses espaços é a horizontalidade da troca de conhecimento – outra característica importante da Educação 4.0. Aqui, a dinâmica professor-aluno sai de cena e dá lugar à colaboração.

Makerspaces são espaços criados para desenvolver a criatividade e o conhecimento prático. (FOTO: Visual Hunt)

Em uma das pesquisas de Martins, ela contatou 16 hackerspaces existentes no Brasil. A maior parte deles conta com estudantes de graduação, pós-graduação e professores universitários entre os associados. “Algumas pessoas relataram que, nesses espaços, encontravam a oportunidade de realizar o que não conseguiram em sua passagem pela academia, demonstrando certa frustração com o ensino formal”, conta.

Alguns desses empreendimentos surgiram dentro de universidades – como o Laboratório Hacker, da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI), e o Tarrafa Hacker, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Um ponto importante para a adoção da cultura maker nas IES é associar as práticas a projetos interdisciplinares, que possam não apenas desenvolver as competências socioemocionais dos alunos, mas também oferecer melhorias para a sociedade. Além disso, a ferramenta estimula a capacidades dos discentes para lidar com novas tecnologias e inovações. Isso, aliás, não é um desafio restrito aos estudantes.

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Na Educação 4.0, a qualidade das plataformas tecnológicas de ensino tem uma importância quase tão grande quanto a dos professores. Os gestores, dessa forma, devem conhecer a fundo os softwares educacionais disponíveis no mercado. Só assim eles poderão escolher qual a solução mais coerente para a realidade da instituição. O ambiente virtual de aprendizagem (AVA) e as plataformas de ensino adaptativo fazem parte desse cabedal.