Claudio de Moura Castro: aulas devem ser ativas, não passivas

Um dos mais renomados educadores do país, Claudio de Moura Castro é presença confirmada no Fórum de Lideranças: Desafios da Educação 2018
Claudio de Moura Castro estará no Fórum de Lideranças: Desafios da Educação 2018. (FOTO: Divulgação)

A maioria dos professores brasileiros combina uma “pedagogia obsoleta e anticientífica com formas toscas e pouco esclarecidas de estudar”. Contundente, a crítica é feita por um dos maiores educadores brasileiros: Claudio de Moura Castro, presença garantida entre as atrações do Fórum de Lideranças: Desafios da Educação 2018. O evento, que acontece dia 17 de maio, no Centro Universitário Ítalo Brasileiro, em São Paulo (SP), é aberto ao público e tem vagas limitadas. Inscreva-se aqui.

Com formação em economia, este carioca de 79 anos carrega um currículo robusto: foi professor de instituições como PUC-RJ, Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Universidade de Brasília (UnB); lecionou nas universidades de Chicago, de Genebra e Borgonha; trabalhou na Capes, no Banco Mundial, no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e na Organização Internacional do Trabalho (OIT). Em paralelo, escreveu mais de 30 livros – entre eles, “Educação Brasileira: Consertos e Remédios”, “Os Tortuosos Caminhos da Educação Brasileira” e “Você sabe estudar?”.

É sobre as ideias apresentadas na última obra, lançada em 2015 pela Editora Penso, que Moura Castro pretende falar ao público do Fórum de Lideranças: Desafios da Educação 2018. Na entrevista a seguir, o educador adianta alguns pontos que irá abordar no evento, como o baixo nível de aprendizado e a má formação de professores no país. “Os alunos desconhecem o fato de que não sabem estudar. Assim sendo, o papel dos professores é preponderante.”

Com que expectativa o senhor chega ao Fórum de Lideranças: Desafios da Educação 2018? Que pautas o senhor deverá abordar no debate?
Falarei sobre meu livro “Você sabe estudar?” que, no gênero, continua sendo um best seller. Eu mesmo não esperava tanto sucesso. Por que será? Acho que, meio por intuição, aterrissei em um campo virgem. Saber estudar determina se o aluno aprende muito ou pouco. E por razões não muito óbvias, pouco se fala disso e pouco se aprende sobre o assunto no Brasil.

O encontro terá a participação de professores, reitores, gestores, pesquisadores. O saber estudar, portanto, é responsabilidade desses profissionais, certo?
Saber estudar é vital para o rendimento escolar. Não podemos imaginar que os alunos aprenderão essas artes por conta própria. Antes de tudo, porque desconhecem o fato de que não sabem estudar. E eles não vão aprender com seus pais, que tampouco sabem do assunto. Assim sendo, se a maioria dos alunos vai aprender alguma coisa sobre a arte de estudar com eficiência, o papel dos professores é preponderante.

Como o senhor avalia o processo de aprendizagem no Brasil?
Dispomos de um excelente sistema de avaliação, em todos os níveis. E, sob qualquer critério, o nível de aprendizado é lastimável. Tais resultados são a conclusão inevitável de um processo multiplamente capenga. Na sala de aula, combina-se uma pedagogia obsoleta e anticientífica com formas toscas e pouco esclarecidas de estudar. Infelizmente, os avanços têm sido muito lentos.

O senhor é um ávido defensor das técnicas de memorização, mapas mentais, associações e narrativas para que os alunos obtenham sucesso nos estudos. De que maneira a universalização dessas abordagens poderia contribuir para o aprendizado?
Em primeiro lugar, parte do aprendizado consiste em memorizar. Não há como fugir disso, apesar dos discursos inflamados de alguns. No limite, como poderíamos ler sem decorar as letras? Se existem técnicas que facilitam a memorização, por que não aprendê-las? Sobre as narrativas e contações de história, hoje sabemos que o aprendizado é facilitado pela conjugação dos dois hemisférios cerebrais no processo. O esquerdo entende, o direito traz uma carga de emoção motivada pelo enredo e drama da narrativa. Quando isso acontece, fica mais indelével na memória o assunto que está sendo ensinado. Experimentos com aparelhos de ressonância magnética mostram esta dupla mobilização, quando uma história é contada.

Qual é a sua opinião sobre a formação dos professores nas faculdades de Educação brasileiras?
Você deveria me perguntar quantos inimigos a mais ganharei sendo franco, mas acabo jogando fora minha diplomacia e respondendo: é bem ruim. Há muitas teorias estratosféricas, muita gosma ideológica, muitas profissões de fé – mas quase nada da ciência e arte de dar aulas. Li uma tese de mestrado sobre Vygotsky [Lev Vygotsky, psicólogo bielorrusso que teorizou o ensino como processo social]. Ao final, destilava alguns comentários até interessantes. Contudo, para entendê-los e aplicá-los não era necessário se submeter ao sacrifício de uma leitura rarefeita e penosa. No fundo é isso. O que o professor precisa é dominar as grandes estratégias de como ensinar. Se os autores de belas teorias sofreram para chegar a elas, os professores não precisam repetir o martírio. Basta aprendê-las e usá-las.

O que falta para reverter essa formação de baixa qualidade?
Nas faculdades de Educação falta quem tenha experiência no mundo real e tenha manejado uma sala de aula de ensino básico. Se as exigências descabidas de doutorado levam às salas de aula quem não praticou o que ensina, os alunos são lesados no curso. Se temos alguma confiança nos médicos, não é porque foram alunos brilhantes das disciplinas teóricas. Mas, sim, porque passaram vários anos como internos e, depois, como residentes. Como podemos querer bons professores se não há o equivalente à residência que frequentaram os médicos?

Quais seriam outros desafios e gargalos da educação brasileira?
Dentre aqueles que serenamente estudam a nossa educação, há amplo consenso acerca do que está certo e do que está errado. E não faltam boas terapias para melhorá-las. Contudo, para que isso aconteça, é necessário pisar em muitos calos. Os aumentos dramáticos dos orçamentos educativos demonstram que não é só jogar dinheiro no problema. Os problemas requerem mais esforço de todos os lados. São mudanças penosas, nas quais muitos irão perder. Assim sendo, para vencer as resistências, será necessária uma grande mobilização social dos atores que realmente saem perdendo com a má-qualidade do nosso ensino. Se os pais continuarem a se conformar com uma educação ruim, não irão exercer a pressão política necessária para superar os obstáculos políticos. Só que, infelizmente, 70% dos pais consideram boa a educação dos seus filhos. Com essa falsa percepção, não se cria a revolta necessária. O mesmo se pode dizer dos empresários que são obrigados a contratar pessoas com uma educação inadequada.

É possível apontar caminhos para superar esses problemas?
Temos que ensinar ao professor a dar aula, fazê-la mais interessante e trazê-la mais próxima de assuntos palpitantes. A aula tem que ser ativa, e não passiva. Precisamos ensinar menos, para que os estudantes aprendam mais.


Fórum de Lideranças: Desafios da Educação 2018

Data: 17/05 (quinta-feira)
Horário: 7h às 12h30
Local: Centro Universitário Ítalo Brasileiro (Av. João Dias, 2046 – Santo Amaro, São Paulo)
Link para inscrição: CLIQUE AQUI.

Sobre o Fórum de Lideranças: Desafios da Educação

O evento, que faz parte da iniciativa Desafios da Educação, é realizado todos os anos pelo Grupo A e conta com apoio da Blackboard e da SAGAH. O Fórum de Lideranças: Desafios da Educação já contou com palestras de nomes nacionais e internacionais como Peter Dourmashkin – Professor Sênior do MIT e Especialista em Sala de Aula Invertida, Dale Stephens – Fundador do movimento UnCollege, Josiane Tonelotto – Reitora Nacional de Ensino a Distância da Rede Laureate, Ryon Braga – Presidente do Conselho de Administração da Hoper Educação, entre outros. Para a edição 2018, além de Claudio de Moura Castro, estão confirmados Fagner de Deus, diretoria de Tecnologias Educacionais do Grupo A Educação; Miguel Andorffy, fundador da Me Salva!; e Arapuan Netto, reitor e presidente do Centro Universitário Augusto Motta (Unisuam), no Rio de Janeiro.