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Por que os livros didáticos são mais baratos no Brasil do que nos EUA

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Aluno na biblioteca do UniÍtalo. Crédito: divulgação.

Em agosto passado, um grupo de alunos da Universidade de Louisiana, em Lafayette (EUA), levou um susto ao se deparar com o preço cobrado pela versão digital de um livro da disciplina de contabilidade. Embora a versão impressa – e o código de acesso ao material complementar online – custasse cerca de US$ 250 na livraria da universidade, a versão digital chegava a hiperbólicos US$ 999.

Indignados, alguns estudantes se apresaram em reclamar na internet e a universidade reagiu. Primeiro, dizendo que tudo não passava de um mal-entendido. Posteriormente, o reitor Jaimie Hebert reconheceu que a universidade e a editora tinham orquestrado um preço altíssimo para o e-book. O objetivo era o que parecia: desencorajar os estudantes a adquirir a versão digital.

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Mas por quê? Herbet contou ao Chronicle of Higher Education que muitos materiais do livro impresso eram necessários para exercícios feitos em casa e em sala de aula. Por isso o esforço para que os discentes comprassem a versão física. Mas as explicações não convenceram e a universidade teve de recuar, igualando o custo do e-book ao do livro-texto impresso.

Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil há um crescente número de professores que se esforçam para reduzir os custos dos alunos – e, de quebra, o impacto no meio ambiente – adotando ou permitindo o uso de textos eletrônicos. Alguns, inclusive, abandonaram completamente as versões impressas.

Entretanto, a discussão referente à divergência de valores entre livros de formatos diferentes dificilmente se repetiria no Brasil. Por uma razão simples: aqui, não há obrigatoriedade para adoção ou uso de livros-texto.

“No Estados Unidos, os livros são recursos didáticos consolidados e de uso compulsório aos alunos, seja no college, na universidade ou na pós-graduação”, explica Adriane Kiperman, diretora editorial do Grupo A Educação, responsável pelos selos Artmed, Bookman, Penso e Artes Médicas, bem como coproduções com a McGraw-Hill Education no Brasil.

“Já no Brasil”, continua Kiperman, “é comum o professor criar a própria apostila, numa espécie de copia e cola de livros ou disponibilizando-os no ‘xerox’. E mesmo assim não chega a ser uma exigência para as aulas.”

Mesmas obras, preços diferentes

O presidente Michel Temer sancionou, em julho passado, uma Política Nacional de Leitura e Escrita. Conhecida pela sigla PNLE, o instrumento reconhece a leitura e a escrita como direito do cidadão, essenciais para assegurar a plena cidadania e uma vida digna.

Além disso, a legislação visa o fortalecimento de bibliotecas, livrarias e do próprio mercado editorial – que, desde 2006, acumula retração de 21%, segundo cálculos da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). A implementação da PNLE, que inclui o planejamento de metas e ações, deve ocorrer nos primeiros seis meses do próximo mandato presidencial.

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A ação não surgiu à toa. Em 2016, a pesquisa Retratos da Leitura apontou que 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro. No ano anterior, o Centro de Integração Empresa Escola (Ciee) divulgou outro levantamento, indicando que 34% dos universitários da região metropolitana de São Paulo não leem com frequência e que 18% não gostam de ler.

Diante desses números, até admira a estimativa que circula no mercado de livros didáticos – de que 20% dos universitários brasileiros adquirem livros indicados na ementa de disciplina. E olha que, em comparação com os Estados Unidos, o Brasil tem um preço bem competitivo.

Para efeitos de comparação, no dia 24 de setembro passado, o Desafios da Educação checou os valores cobrados por Termodinâmica, clássico da engenharia escrito por Yunus A. Çengel. Na Amazon brasileira, o livro em português custava R$ 189,89. Já na Amazon americana, a versão inglesa saia por US$ 118,19 (R$ 482, pelo dólar da época).

Outro exemplo: o livro Microbiologia, de Gerard J. Tortora, custava R$ 262,90 no Brasil. Nos EUA, US$ 200 (R$ 816).

“Mesmo com tiragens menores no Brasil, precisamos diminuir a rentabilidade e segurar o preço. Do contrário, o preço ao consumidor fica proibitivo e a concorrência com o mercado pirata, impraticável”, diz Kiperman, do Grupo A.

De acordo com o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), o mercado editorial brasileiro movimentou R$ 5,2 bilhões em 2016. Metade desse valor diz respeito aos livros didáticos e vendas para o governo. A outra metade é dividida quase em partes iguais entre livros técnicos e religiosos e a área de interesse geral.

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Leonardo Pujol
Leonardo Pujol é editor do Desafios da Educação e sócio-diretor da República – Agência de Conteúdo.

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