Gameful design: o que o entretenimento virtual tem a ensinar

Gameful design: o que o entretenimento virtual tem a ensinar

Não é de hoje que professores concorrem com videogames e redes sociais pela atenção dos jovens. Essa batalha, aliás, costuma ser inglória para a educação. Entretanto, já existe uma técnica capaz de unir entretenimentos virtuais e ensino. Trata-se do gameful design, ou “desenho de jogo”, em livre tradução.

O termo se refere à estratégia de compreender os fatores que geram engajamento em games e atividades online para aplicá-los em áreas como o aprendizado. “O gameful design pode criar uma relação fluida entre o estudante e o conteúdo, facilitando o engajamento em sala de aula”, explica o professor Kevin Bell, vice-presidente de inovações digitais da Universidade de Western Sydney, da Austrália.

Ele explora o tema no livro Game On: Gamification, Gameful Design e Rise of Gamer Educator, ainda inédito no Brasil. A obra apresenta casos de instituições que adotaram com sucesso recursos desse tipo, como a Universidade do Sul da Flórida e a Universidade de New Hampshire, ambas no nos Estados Unidos. Um dos aspectos observados pelo autor é a diferença entre gamificação e gameful design.

“A gamificação consiste na criação de um jogo. Já o gameful design engloba os conceitos e motivadores intrínsecos incorporados não apenas em jogos, mas em livros, filmes e redes sociais”, esclarece ele, em entrevista ao site Inside Higher Ed – portal especializado em ensino superior.

Competição na medida certa
O objetivo central do gameful design é entender por que determinados entretenimentos têm o poder de raptar a atenção das pessoas. Ao compreender isso, o educador passa a adaptar os elementos presentes nas atividades às rotinas da sala de aula. “O professor pode incluir duas ou três ações por vez, como a criação de desafios ou de um novo padrão estético”, exemplifica.

Os desafios, inclusive, são um dos pontos chave do engajamento proporcionado pelas metodologias inspiradas em games. O ideal, sugere Bell, é encontrar um meio termo entre a simplicidade excessiva e a meta inatingível. A competição dosada é outro traço importante. “O programa não deve levar o aluno a temer um eventual fracasso. A competição pode ser contra ele mesmo, por exemplo”, ressalta. O cenário competitivo também deve estar alicerçado em dois pilares: cooperação e colaboração entre a turma.

Conteúdo é prioridade
O gameful design, assim como as demais abordagens inovadoras de ensino, ainda enfrenta resistências no setor educacional. Alguns grupos acadêmicos acreditam que o esforço de aplicação da estratégia serviria apenas para confirmar o caráter desinteressante das matérias. Kevin Bell tem outra opinião. “Não enxergo isso como tecnologia, mas como um meio de olhar para as próprias práticas e avaliar as possibilidades de tornar o ensino de alguém mais atraente”, rebate.

Ele também descarta a possibilidade de o gameful design impactar apenas estudantes interessados em jogos virtuais. Como a metodologia trata de questões universais, o envolvimento é potencialmente irrestrito. O autor defende, ainda, que a motivação advinda do gameful design precisa ter um caráter intrínseco, primando pela incorporação de elementos ao conteúdo.

“Minha proposta é saber se podemos aprender com os modelos do Facebook ou do Instagram. Precisamos entender por que os alunos transitam nas redes com tanta frequência, mas têm ojeriza dos nossos conteúdos.”

Kevin Bell

autor de Game On: Gamification, Gameful Design e Rise of Gamer Educator

Os projetos dedicados apenas à forma ou à estrutura podem incorrer em algo classificado por ele como “xarope de cereja para a tosse” ou “brócolis com cobertura de chocolate”. As metáforas representam coisas aparentemente interessantes, mas que mascaram um conteúdo nem tão atrativo assim.

Ao levantar a bandeira da gamificação e do gameful design, Kevin Bell chama a atenção para o fato de os sistemas de gerenciamento de aprendizagem estarem estagnados desde a década 1990. “Minha proposta é saber se podemos aprender com os modelos do Facebook ou do Instagram”, diz ele. “Precisamos entender por que os alunos transitam nas redes com tanta frequência, mas têm ojeriza dos nossos conteúdos.” Para Bell, a descrença e as críticas aos novos modelos de ensino são normais e devem perder força com o aparecimento de resultados consistentes.

Por fim, o autor deixa uma dica aos professores interessados em aplicar técnicas de gameful design. “Explore os conceitos. Reduza o seu próprio medo do fracasso e, durante o processo, faça o mesmo com o receio dos seus alunos. A maioria deles ficará entusiasmada por ter um instrutor que tenta algo diferente”, garante.