Censo EAD Brasil: a revolução inclusiva

Jovens e adultos ganham espaço no mercado de trabalho pelo ingresso ao ensino superior

O aluno está no ensino médio e já tem em mente os desafios dos próximos anos. A dúvida acerca do futuro, o mercado competitivo e a urgência em conquistar independência colocam uma dúvida em voga: qual profissão escolher? Se as aulas são em turno integral a situação piora. Por mais que esteja no auge do crescimento, o jovem não tem condições físicas de suportar tantas horas em sala de aula. Um tecnólogo em gestão ambiental, por exemplo, pode surgir como caminho ideal.

Por meio dele, o estudante consegue se capacitar profissionalmente, enquanto se despede da escola e equilibra os últimos momentos da vida antiga e as responsabilidades do mundo adulto. A especialização ágil possibilita um ingresso rápido ao mercado – de quebra, o aluno tem autonomia para gerenciar prazos e exercitar a noção de disciplina. Com experiência na área, o jovem terá muito mais know-how para tomar decisões. A partir daí, cursar uma faculdade de agronomia ou biologia é apenas um dos caminhos que se torna possível.

Até pouco tempo, a educação de qualidade era um benefício restrito a poucos. Com os programas de incentivo federal e o crescimento da oferta de cursos na educação a distância (EAD), o ensino superior se colocou diante de um novo paradigma. A democratização do conhecimento melhorou a qualidade da mão de obra, elevando o nível técnico e profissional em todas as regiões do Brasil.

No Censo EAD ABED, instituições de ensino de todo o Brasil foram convidadas a refletir sobre o assunto. A pesquisa revelou que mais de 80% dos entrevistados enxerga a modalidade EAD como uma ferramenta de transformação. A partir dela, tem sido possível o acesso à graduação por um grupo cada vez mais heterogêneo.

Em geral, a maior parte dos estudantes é formada por trabalhadores que estudam – e não estudantes que trabalham. Eles fogem da formação linear de ensino médio-estágio-faculdade. Ou seja: são alunos geralmente mais velhos, entre 30 e 40 anos, que não puderam estudar ao concluir a educação básica e retomam os estudos depois de se estabilizar na vida adulta.

“O trabalhador estudante, não necessariamente mais velho, precisa trabalhar. Alguns não conseguiriam chegar na aula presencial no horário; outros estão longe dos centros de estudo. A modalidade permite que ele se qualifique usando a tecnologia em seu favor”, avalia a pedagoga Rita Tarcia, doutora em Linguística pela USP e diretora da Associação Brasileira de Educação a Distância (USP).

Outro estigma questionado por Rita é aquela máxima de que a educação a distância é voltada para quem não tem tempo. “Isso não é verdade. O aluno precisa de tempo sim, ele só economiza tempo com locomoção, por exemplo. Existe uma flexibilidade, mas ela não isenta o esforço individual dos alunos”, complementa.

Outros fatores

Durante a popularização dos cursos EAD, muitos professores sem habilitação específica migraram para as plataformas online a fim de garantir especialização antes da aposentadoria. Os cursos com maior número de inscritos ainda são as licenciaturas. Mas, perto dos anos 2000, essa marca chegava aos 85% – fenômeno que elevou a média etária dos alunos. Com a inserção dos cursos de bacharelado, após 2004, os cursos de administração, economia e serviço social ganharam mais adeptos; e a média caiu. Mais tarde, os cursos de tecnólogo, como marketing e design de interiores, se encarregariam de diminuir ainda mais esse padrão.

Nos últimos anos, o fortalecimento do setor acaba com o estigma de que o ensino EAD é restrito às pessoas de baixa renda, provando que uma revolução está em curso. Muito mais inclusivo, esse sistema reúne diferentes perfis socioeconômicos, de gênero e cor, oferecendo qualificação igualitária a todos. “É um aspecto muito positivo que responde ao mundo em que estamos vivendo. A sala de aula presencial é rica, mas a educação a distância oferece um alargamento de possibilidades. Alunos muito diferentes, com diferentes momentos de vida, geram conhecimento compartilhado nas salas virtuais”, afirma Rita.